Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Chegou a hora de Marina presidente?

Márcio Juliboni
há 22 dias3.0k visualizações

Marina Silva pode chegar ao Planalto, se não tropeçar na sua incapacidade de falar claramente sobre seus objetivos e suas propostas

Chegou a hora de Marina presidente?
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: Leo Cabral/ MSILVA Online/Agência Fotos Públicas)

A coisa mais interessante da pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (01) não é a resistência de Luiz Inácio Lula da Silva, que se consolidou em primeiro lugar nas intenções de voto, apesar de tudo o que você já está caindo de saber. Também não é a estabilização de Jair Bolsonaro no segundo lugar. Tampouco é a incapacidade de João Doria e Geraldo Alckmin de apresentarem um desempenho relevante, ou a incompetência de Fernando Haddad, o plano B do PT, de atrair os votos de Lula, caso seu mentor político não concorra. O ponto principal é o indício de que Marina Silva começa a ser vista como uma alternativa séria, capaz de escapar da polarização entre bolsonaristas e lulistas. Será que chegou a hora de a ex-senadora acreana presidir o Brasil?

Primeiro, vamos aos números. A Folha de S.Paulo publicou, na edição de hoje, oito cenários para outubro de 2018. Antes de tudo, é preciso dizer que eles não são exatamente comparáveis, e há algumas simulações malucas, como a que coloca Sérgio Moro e Joaquim Barbosa concorrendo entre si. Sinceramente, é jogar dinheiro do Datafolha fora. Mas, nos cenários mais coerentes, Lula lidera com 35% a 36% das intenções, conforme o candidato tucano seja, respectivamente, Doria ou Alckmin. Bolsonaro vem em segundo, com 16% e 17%, e Marina Silva, em terceiro, com 14% e 13%.

Plano B, C, D...

Se Lula for condenado em segunda instância pelo Tribunal Federal Regional de Porto Alegre, responsável por revisar as decisões de Sérgio Moro, será retirado da disputa. Primeiro, porque será ficha suja. Segundo, porque estará preso. O PT estuda, mesmo que a contragosto, quatro alternativas para a situação. A primeira é carregar a candidatura de Lula no peito, sustentada por todos os recursos judiciais, liminares e habeas corpus que forem possíveis, ao mesmo tempo em que vende a tese de perseguição política ao “maior líder popular” do Brasil. Seria uma opção de alto risco, porque incendiaria o país e, no final, não haveria garantia de que Lula subisse a rampa do Planalto novamente. A segunda saída é boicotar a eleição, sob o mantra de que um pleito sem Lula é ilegítimo. As duas últimas opções são apoiar Ciro Gomes, ou lançar Fernando Haddad.

Com exceção da primeira, todas demais possíveis respostas do PT a uma eleição sem Lula beneficiam, sobretudo, Marina Silva. A ex-senadora, ex-ministra de Lula e ex-petista histórica é a que mais herda seus eleitores. Na média, ela passaria de 14% das intenções para 23% (um ganho de 9 pontos percentuais, dos 36 deixados por Lula para serem disputados entre os concorrentes). Esse impulso seria suficiente para levá-la à liderança da corrida no primeiro turno, segundo o Datafolha, à frente de Bolsonaro. Mesmo quando Ciro Gomes e Fernando Haddad entram na lista, a ex-senadora mantém-se na ponta. Ciro, por exemplo, herdaria apenas 6 pontos percentuais dos 36 de Lula. E Haddad, coitado, ficaria com míseros 3 pontos.

Na simulação de segundo turno, Marina ganharia de lavada de Bolsonaro: 47% a 29%. Seria um feito e tanto, já que, na pesquisa da CNT/MDA publicada no fim de setembro, Bolsonaro venceria três dos cinco cenários de segundo turno. Perderia apenas para Lula e Marina, com o adendo de que Marina estaria, na verdade, tecnicamente empatada com o ex-capitão do Exército naquela simulação. Já na pesquisa do Datafolha de hoje, a diferença está bem longe da margem de erro de 2 pontos para cima ou para baixo. Por último, Marina surge como uma opção bem mais palatável que o explosivo Ciro Gomes, célebre pelo pavio curto e por pérolas como dizer que a única função de sua esposa, a atriz Patrícia Pillar, é dormir com ele. Fácil, né, em tempos de luta pelo empodeiramento feminino...

Menos sonhática, por favor

Isto posto, resta a pergunta: Marina pode até crescer no vácuo de Lula e se cacifar à Presidência do país, mas ela aprendeu com os erros de sua campanha de 2014? É verdade que parte considerável de sua derrota deveu-se aos ataques inescrupulosos de Dilma Rousseff. Basta lembrar que o PT explorou, de modo sanguinário, o fato de uma das colaboradoras mais próximas de Marina, Neca Setúbal, ser uma das donas do Itaú Unibanco. Foi a deixa para que o marqueteiro petista, João Santana, hoje preso pela Lava Jato, veiculasse uma peça que era um primor de mau-caratismo: uma roda de banqueiros mafiosos rindo, enquanto uma família via a comida no prato diminuir.

Mas Marina não foi derrotada apenas pela estratégia petista de satanalizá-la. A ex-senadora foi vítima, também, de suas próprias incoerências, hesitações e inconsistências. Marina relutou em adotar posturas claras sobre temas que, naquele momento, eram sensíveis, como o aborto. Tampouco conseguiu falar, com clareza, sobre sua política econômica, apesar dos esforços de seu braço-direito para a área, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. Sua incapacidade de se comunicar com clareza, aliás, é uma de suas maiores fraquezas. Alguém já se esqueceu, por exemplo, de que, para mudar o país, precisávamos ser “sonháticos”? Marina pode estar mais perto do que nunca de ocupar o Palácio do Planalto. O PT de 2018 é uma moribunda lembrança do de 2014. O risco é que ela tropece nas próprias palavras novamente.

O alerta da Alemanha nazista sobre a ruína do PT e do PSDB

Márcio Juliboni
há 22 dias5.1k visualizações

Como o professor Roberto Romano, da Unicamp, me deixou preocupado com os rumos do Brasil

O alerta da Alemanha nazista sobre a ruína do PT e do PSDB
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: Ricardo Stuckert/Página Oficial do PT/Facebook)

A semana que termina trouxe capítulos melancólicos para os dois partidos que disputaram aguerridamente o poder nos últimos vinte e poucos anos: o PT e o PSDB. Os petistas passaram os últimos dias desnorteados com a carta aberta de Antonio Palocci, um quadro histórico respeitado do partido e próximo de Luiz Inácio Lula da Silva. Como se sabe, ao pedir sua desfiliação, Palocci jogou toda a caca de que sabe no ventilador da opinião pública. Já a defesa de Lula passou pelo constrangimento de ser desmentida pelo “dono” do apartamento em São Bernardo, supostamente alugado ao ex-presidente. Glaucos da Costamarques afirmou que não recebeu um vintém pelo imóvel e assinou todos os recibos de aluguel de uma vez. Os tucanos não se saíram melhor: Aécio Neves foi, novamente, afastado do Senado pelo STF, que o colocou ainda em “recolhimento noturno”. Por fim, um peso-pesado da economia, Gustavo Franco, trocou o PSDB pelo Novo.

Petistas e tucanos nunca estiveram tão próximos do fim. Suas velhas lideranças foram abatidas pela corrupção revelada pela Lava Jato. Seus velhos eleitores debandaram. Os mais jovens não os veem com o mesmo fascínio histórico de quem lutou pela redemocratização. Sobram apenas fanáticos e militantes pagos para atazanar pessoas pela internet. As conquistas econômicas e sociais dos governos de ambos estão desmanchando diante da recessão e da crise política. Mas, o mais preocupante, é o vácuo político aberto pela luta suicida de ambos. O que pode ocupar seu lugar?

Premonição

Há alguns meses, saí preocupado de uma conversa com Roberto Romano, professor de Ética da Unicamp e um observador político perspicaz. Romano me disse, com certa amargura, que não conseguia deixar de comparar o Brasil atual com a República de Weimar – aquela que comandou a Alemanha, no período entre o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, e a ascensão do nazismo, em 1933. Mas, por que buscar, tão longe no tempo e no espaço, um exemplo? “Quando a esquerda e a centro-esquerda terminaram de se matar na Alemanha, abriram espaço para a extrema-direita”, me explicou.

E o que isso tem a ver com o Brasil? Para Romano – e, para mim, que me convenci de que sua preocupação procede -, o PT e o PSDB são as forças de esquerda e centro-esquerda, respectivamente, que passaram as últimas duas décadas numa guerra de aniquilação mútua pela supremacia política no país. Reiteradamente, ambos se sabotaram no Congresso, nas alianças políticas em eleições, nos ataques de líderes ao outro lado. O resultado mais claro foi que, sem poder contar com uma coalização de centro-esquerda, ambos alimentaram seus próprios canibais. O PSDB aliou-se ao antigo PFL de Antônio Carlos Magalhães e a parte do PMDB para governar. O PT fez um pacto de sangue com o PMDB de Michel Temer, José Sarney, Romero Jucá e Renan Calheiros. Na prática, em vez de combater as verdadeiras oligarquias, aliaram-se a elas.

Crescendo no vácuo

Quando a aliança não era mais interessante para as forças políticas atrasadas, os velhos coronéis a romperam sem o menor constrangimento. Mas, ao saírem para a luz do dia, a Lava Jato os abateu. Viu-se que PT, PSDB e suas eminências pardas, como o PMDB, o PP e o DEM, estavam todos chafurdando na mesma pocilga de corrupção e camaradagem.

Sem partidos críveis de esquerda ou de centro-esquerda, e com as legendas tradicionais de centro-direita e de direita apodrecidas pela corrupção, o que restou aos eleitores brasileiros? E é aí que muitas pulgas sapateiam atrás da orelha. O discurso moralista e reacionário, conservador e autoritário, começa a crescer, a ponto de levar um ex-capitão ao segundo lugar da corrida presidencial. É mais do que leviano achar que Jair Bolsonaro é um Hitler brasileiro. Não é para tanto. Mas o recado é claro: assim como na Alemanha de 1933, a onda conservadora e autoritária está apenas preenchendo o vácuo deixado pelo duelo dos partidos que, um dia, pensamos representar o progresso.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!