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Ciro Gomes: a esquerda precisa de um incendiário?

Márcio Juliboni
há 22 dias2.0k visualizações

Se mantiver o tom radical, Ciro pode atrapalhar a retomada da economia; se afrouxar, será acusado de estelionato eleitoral

Ciro Gomes: a esquerda precisa de um incendiário?
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(Foto: Divulgação/ Página Oficial de Ciro Gomes/ Facebook)

O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, está cada vez mais soltinho, no figurino de concorrente à Presidência. Nesta terça-feira (26), Ciro participou de um bate-papo com usuários do Twitter, promovido pela própria empresa, e aproveitou para falar grosso, como é seu costume. Prometeu cancelar todas as reformas feitas por Michel Temer. Também afirmou que retomará os campos de petróleo vendidos pelo atual governo. Seu argumento é que Temer não tem legitimidade para implementar tais medidas. A dúvida é se uma agenda dessas, que confronta explicitamente alguns temas caros ao mercado e ao ajuste das contas públicas, ajudará o Brasil e a esquerda, ou servirá apenas para matar o embrionário crescimento econômico a que assistimos.

A bem da verdade, Ciro tem uma trajetória errática. Filiado ao PSDB nos anos 90, deixou o governo do Ceará para ser ministro da Fazenda de Itamar Franco entre setembro de 1994 e janeiro de 1995, enquanto Fernando Henrique Cardoso preparava a campanha à Presidência. Na época, reduziu drasticamente as tarifas de importação e inundou o país com artigos estrangeiros – de carros a alimentos. Na época, a medida causou uma baita chiadeira no empresariado. A resposta foi bem ao seu estilo: disse que estava “pouco ligando”. Também chamou de “otário” quem comprava carro brasileiro caro.

A ironia é que o hoje defensor de uma política nacionalista defendia a privatização de estatais, a ponto de afirmar, depois que deixou o governo FHC, que os tucanos deveriam ter vendido as empresas antes, mas, por medo da impopularidade da medida, protelaram o quanto puderam para não perderem a eleição.

Cara feia não paga conta

Como uma bolinha de fliperama, ricocheteou em várias direções políticas, até se alojar no Ministério da Integração Nacional, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Agora ataca impiedosamente seu ex-chefe, dizendo que Lula "insulta a inteligência do povo", com suas recorrentes alegações de inocência nos processos em que é réu ou investigado na Lava Jato.

É verdade que Ciro pode estar, apenas, jogando para a torcida, mobilizando um eleitorado mais radical e nacionalista, órfão de Lula e de um discurso mais contundente contra o capital. Mas a realidade, nua, crua e cruel, é que o Brasil padece de algo elementar: dinheiro. Falta dinheiro para fazer o básico, como manter os salários de funcionários públicos em dia, comprar material para hospitais e escolas, pagar aposentadorias e benefícios sociais. Isso, sem falar naquele sonho distante de investir na melhoria geral da infraestrutura do país, inovação tecnológica, pesquisa de ponta etc.

Se sua candidatura embalar, Ciro terá de escolher se manterá o discurso incendiário que afugentará os investidores e agravará a falta de dinheiro, ou se pisará no freio e correrá o risco de perder a confiança de seus eleitores. Não é de hoje, que se discute a crise da esquerda. Moderados ou radicais, os militantes desse polo ideológico se angustiam para reinventar a esquerda. Um Ciro Gomes radical e bem colocado na corrida pelo Planalto será um enorme fator de instabilidade política e econômica. As empresas segurarão, novamente, os investimentos com medo do que ele faria na Presidência. Investidores poderiam sair do país, encarecendo o dólar e, por tabela, elevando a inflação e corroendo as contas públicas. Afinal, cara feia não paga conta.

Já um Ciro Gomes que mude de discurso no meio do caminho, fazendo acenos aos investidores e aos capitalistas em geral, desmoralizará a esquerda e a si mesmo. Dará uma imensa chance de ser acusado de cometer estelionato eleitoral. E, de presidentes acusados, o Brasil já está cheio.

Meirelles é um “excelente candidato” a presidente para quem?

Márcio Juliboni
há 22 dias1.8k visualizações

Entre o mercado e o Planalto, há um tal de povo, insatisfeito com a crise e com os remédios propostos

Meirelles é um “excelente candidato” a presidente para quem?
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No mercado de peixe em que está se transformando a eleição de 2018, com muita gritaria e mau cheio no ar, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, já não esconde seu desejo de também disputar a Presidência. Fala e é apontado, cada vez mais, como alguém com potencial. Quem o apoia afirma que Meirelles é o maior responsável pelos primeiros e débeis sinais de retomada da economia, com a inflação e os juros baixos e a geração de empregos saindo do vermelho. O último a lhe fazer um rapapé foi Romero Jucá, presidente do PMDB e líder do governo no Senado. Nesta terça-feira (26), Jucá declarou que o ministro é um “excelente quadro” para a Presidência por qualquer partido que disputasse. Mas... é mesmo? Para quem?

A resposta mais óbvia é que Meirelles agrada àquela entidade sobrenatural chamada mercado, um ser que paira sobre nossas cabeças e é mantido pelas preces de empresários e investidores brasileiros e estrangeiros. Num governo que se afoga em escândalos político-criminais, o ministro é o único alento do empresariado, para quem Meirelles é praticamente um Hércules lutando contra a hidra do fisiologismo que garante a permanência de seu chefe, Michel Temer, no Palácio do Planalto. As dificuldades para aprovar as reformas vão ao limite, diante da fraqueza política do presidente, e o grande capital põe na conta deste, e não de Meirelles, o fato de que ainda não tenham saído do Congresso.

Ruim de papo

Mas o Brasil não é habitado apenas por banqueiros, investidores e empresários. Há aquela parcela numerosamente incômoda – um tal de povo. Anônimo, sente na pele e no bolso a crise econômica, o desvio de dinheiro público para a corrupção, a falta de perspectivas e se ressente de arcar com a maior parte do prejuízo causado por Brasília, sempre que o governo tenta ajustar as contas públicas, seja aumentando impostos, seja cortando gastos. O povo não fala economês, não se preocupa com ajustes atuariais na Previdência, nem está convencido de que as medidas adotadas por Meirelles são as necessárias.

E é aí que a coisa toda entorta. Para ser competitivo e, sonhando alto, vencer a eleição, Meirelles terá de explicar, em português, o que pretende fazer para tirar o país da crise. Seu primeiro desafio será, portanto, de comunicação. Acostumado a falar para ouvidos refinados em ambientes climatizados, Meirelles não é, nem de longe, um grande comunicador, e isso pesa muito nestes tempos de vídeos, podcasts, redes sociais, streaming e, claro, televisão, rádio, jornais etc. O ministro não chega a usar mesóclises, como Temer, mas está longe de se fazer entender pelo cidadão médio.

Advogado do diabo

Sua segunda desvantagem: se, e coloque um “se” com muitas ressalvas, Meirelles conseguir encontrar um modo de falar com o povão que não seja nem caricato, a ponto de todos saberem que ele está forçando a amizade, nem técnico demais, a ponto de só o mercado o entender, virá a segunda e mais difícil etapa – explicar como medidas impopulares merecem apoio popular. No melhor cenário, o ministro entrará na disputa com a reforma da Previdência já votada e aprovada por Temer. No pior, terá que dar a cara a tapa e assumir que a fará. Trata-se de um tema de alta octanagem, capaz de incendiar debate e humores. Como explicar que os brasileiros demorarão mais tempo para se aposentar? E, pior, como justificar os privilégios de castas públicas que saírem intactas do processo? O mesmo vale para a reforma trabalhista. Ainda que Temer as aprove e poupe Meirelles do bombardeio de propô-las, o ministro ainda será lembrado em debates e peças publicitárias, como o responsável por elas. Será apontado como seu tenebroso mentor intelectual. E isso não é pouca coisa.

Outro obstáculo concreto à sua candidatura é sua ligação com Luiz Inácio Lula da Silva e com Michel Temer. Foi presidente do Banco Central, durante os dois governos de Lula. Caiu nas graças do petista, a ponto de ser cotado para salvar Dilma Rousseff da ruína, com o apoio explícito de seu padrinho político. Depois, aceitou o pepino de desempepinar a economia, como ministro de Temer – o mais impopular presidente de que se tem notícia. Defendê-lo será queimar o filme já na largada. Atacá-lo será cuspir no prato em que comeu. Ignorá-lo será impossível. Temer é tão radioativo, quanto Lula, para candidatos apoiados por eles.

Será preciso um esforço monumental de marketing político para que Meirelles consiga a proeza de se eleger com aquele famoso discurso de pais e mães: “hoje, parece ruim, mas, um dia, vocês me agradecerão pelo que fiz”. Se nem os filhos modernos gostam desse papo, imagine os eleitores.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!