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Como Bolsonaro explicará um vice cassado pelo TSE e réu no STF?

Márcio Juliboni
há 2 meses14.2k visualizações

Quem pretende se eleger com um discurso moralista e messiânico de combate à corrupção deveria escolher melhor suas companhias

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(Imagem: Canal oficial da Prefeitura de Parnaíba/YouTube/Reprodução)

Dê uma boa olhada nesta imagem. Se Jair Bolsonaro sair das urnas como o próximo presidente do Brasil, o senhor que ele abraça alegremente tem grandes chances de ser seu vice. A convite, aliás, do próprio Bolsonaro. Para quem não o conhece, ou já o esqueceu, ou (o pior de tudo), convenientemente omite seu passado, não tem problema; nós explicamos. Trata-se de Francisco de Assis de Moraes Souza, atual prefeito de Parnaíba, cidadezinha de 150 mil habitantes no litoral norte do Piauí. Conhecido como Mão Santa, ele já foi bem mais poderoso, e protagonizou alguns dos primeiros escândalos de corrupção da redemocratização. Será difícil, portanto, Bolsonaro sustentar seu discurso moralista, em tão polêmica companhia.

Mão Santa ostenta o vergonhoso título de primeiro governador cassado pelo TSE na história brasileira. O fato ocorreu em novembro de 2001, quando o TSE, por unanimidade, anulou sua chapa que se reelegera em 1998. As 22 acusações que lhe foram imputadas envolviam abuso de poder econômico e político. Delas, o tribunal acolheu apenas nove, o bastante para que Mão Santa fosse apeado do poder. Entre as práticas condenadas, estavam a distribuição de remédios a eleitores e a anistia de contas de água. Como a chapa foi cassada, seu então vice-governador, Osmar Ribeiro (PCdoB) também não pode assumir. Aí está outro ponto que Bolsonaro terá de explicar: como ele quer ser visto com alguém que, no passado, promoveu uma orgia econômico-eleitoral com um comunista de carteirinha para comprar uma eleição?

Funcionários fantasmas

Jurando inocência, Mão Santa foi eleito, no ano seguinte, senador pelo Piauí pelo PSC, o mesmo partido de Bolsonaro. Os dois, aliás, dizem que a amizade começou nos anos de convivência no Congresso Nacional. Mas esses não foram apenas tempos de fraternas experiências. Em 2010, o STF aceitou uma denúncia contra o senador piauiense por peculato, transformando-o oficialmente em réu. A acusação refere-se ao período em que governou seu Estado. Mão Santa e seus ex-secretários foram acusados de contratar 913 funcionários fantasmas, lotados na Secretaria de Administração do Piauí, com o objetivo de desviar seus salários. Estima-se que o esquema tenha causado um prejuízo de R$ 800 mil.

Bolsonaro encontrou-se com Mão Santa em abril, quando recebeu a Medalha do Mérito Municipal. Foi nessa ocasião que o pré-candidato à Presidência convidou o amigo para ser seu vice. Na época, o capitão da reserva brincou com os jornalistas, dizendo que aquilo era o “início de um namoro; mas um namoro hétero”. Fora a contradição de termos (não existe namoro hétero entre dois homens), o convite foi confirmado por Mão Santa à revista Piauí, que publicou um extenso perfil do homem recentemente. Segundo a reportagem, o governador cassado afirmou que ele seria “um bom vice”.

Se o namoro virar um casamento (“hétero”, como provavelmente Bolsonaro acrescentaria), é bom o noivo começar a pensar em como justificá-lo aos eleitores. Afinal, quem pretende se eleger com um discurso que é um milk-shake de moralismo, combate à corrupção e messianismo, deveria escolher melhor seus aliados mais íntimos (heterossexualmente falando, claro).

Lula toma fora de Josué Alencar: petistas amaldiçoarão agora os empresários?

Márcio Juliboni
há 2 meses5.2k visualizações

Difícil, mesmo, é que eles enxerguem que Lula ostenta contradições imensas e não encanta mais o capital como antes

Lula toma fora de Josué Alencar: petistas amaldiçoarão agora os empresários?
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(Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Os planos de Luiz Inácio Lula da Silva de repetir a dobradinha capital-trabalho que o consagrou na eleição de 2002 ficaram pelo caminho. Nesta quinta-feira (31), Josué Alencar, presidente da Coteminas, negou publicamente qualquer desejo de se unir a Lula na eleição de 2018. Josué é filho do ex-vice-presidente do petista, José Alencar, e era cogitado pelo PT para compor a chapa que disputará a Presidência. É um sinal claro de que Lula não consegue, mais, enfeitiçar a elite empresarial como antigamente.

Para piorar a situação, Josué afirmou que só toparia integrar uma única chapa: a do Partido Novo, caso outro empresário, Flávio Rocha, dono da Riachuelo, se candidatar. Quando a intenção de atrair Josué para a campanha de Lula foi divulgada, há oito dias, escrevi um artigo para o Storia, criticando a opção. Meu argumento era que seria, no mínimo, incoerente lançar um candidato que se vende como vítima da perseguição das elites, tendo um empresário a tiracolo.

Queimando a língua

Fui bombardeado por lulistas, petistas e militantes de esquerda, que me acusaram de não compreender que “há empresários e empresários”, “há elites e elites”, enfim, toda aquela conversa fácil de que há nuances que só intelectuais inteligentes e observadores conscientizados (e não idiotas obtusos como eu) são capazes de perceber. Há oito dias, a estratégia de Lula foi defendida em grupos fechados de redes sociais como a prova de que o petista continua com o faro apurado, e seu tino político apontava para um pacto entre capital e trabalho capaz de tirar o país do lamaçal.

Com a banana de Josué ao aceno de Lula, o que dirão agora os petistas e a esquerda? Voltarão a ranger os dentes, dizendo que empresários e capitalistas em geral são todos do mal? Do papinho fácil de que “há empresários e empresários”, passarão para o rancoroso “empresário é tudo farinha do mesmo saco”?

Difícil, mesmo, é esperar que os lulistas entendam o básico: seu candidato ostenta contradições imensas, que eram vendidas como genialidade política de unir opostos. O encanto dos empresários com ele já passou. No fundo, até concordo que haja apenas dois tipos de capitalistas, mas não são essa caricatura de bonzinhos contra mauzinhos que o pensamento pueril de alguns militantes cultiva. Há capitalistas que toleram governos de esquerda, desde que não mexam com seus privilégios, e há capitalistas que nem isso toleram. E só.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!