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Decadente, Aécio Neves vira escudo humano do Senado contra o STF

Márcio Juliboni
há 21 dias2.0k visualizações

Apoio de PT, PMDB e PSDB ao senador é apenas pretexto para manter quem realmente importa longe da Justiça

Decadente, Aécio Neves vira escudo humano do Senado contra o STF
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(Foto: Lula Marques/ Agência Fotos Públicas)

Vamos ser simples: o futuro de Aécio Neves é o que menos interessa aos senadores neste momento. A gritaria contra a decisão do STF de afastar o senador tucano e determinar seu recolhimento noturno não tem nada de defesa da Constituição e da soberania dos poderes, como os parlamentares vociferam. Decadente, Aécio Neves é apenas um pretexto para o que realmente importa ao Senado: evitar que políticos realmente importantes sejam atingidos pelos ministros do Supremo. Acuado e enfraquecido, o tucano virou apenas um escudo humano na guerra entre o Congresso e a Justiça.

Aécio, em si, tem pouca importância política atualmente. Desde que foi derrotado por Dilma Rousseff, no segundo turno da eleição presidencial de 2014, sua carreira política descambou ladeira abaixo. Em outubro daquele ano, com seus 51 milhões de votos, o senador tucano encarnava a principal liderança de oposição ao petismo. Seus erros e suas hesitações, contudo, corroeram rapidamente seu prestígio.

(Desa)tino político

Um exemplo: como presidente nacional do PSDB, Aécio conseguiu meter o partido numa situação pra lá de constrangedora, ao tentar cassar a chapa Dilma-Temer no TSE, ao mesmo tempo em que era o principal aliado do novo presidente no governo. Por isso, amarelou e evitou críticas à corrupção que ainda persiste, com membros do primeiro escalão enrolados até a alma com a Lava Jato, como os ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha. Para quem combatia os escândalos do PT com alma de jihadista, o PSDB passou a ser manso como um cordeiro – o que fez com que ficasse com pecha de traidor dos movimentos pró-impeachment.

O tiro de misericórdia foi a conversa gravada com Joesley Batista, dono da JBS, em que Aécio pede, sem nenhuma cerimônia, R$ 2 milhões. Por mais que jure, até hoje, que se tratou de um pedido pessoal, sem nenhuma conotação política, o senador ainda sente as ondas de choque abalando seu mandato. Basta lembrar que a decisão do STF de afastá-lo e colocá-lo em recolhimento noturno baseia-se nesse caso. Ao mesmo tempo, Aécio perdeu espaço dentro de seu partido. Presidente afastado, teve de engolir a ascensão do senador Tasso Jereissati, uma rebelião dos parlamentares mais novos (os chamados “cabeças pretas”) e ataques públicos do prefeito de São Paulo, João Doria, que pediu sua renúncia ao comando do partido.

Tudo somado, o apoio dos eleitores a Aécio derreteu mais rápido que sorvete no verão carioca. Segundo a última pesquisa CNT/MDA, a intenção espontânea de votos no mineiro despencou de 2,2% para irrisório 0,3% entre fevereiro e setembro. Com isso, ele aparece tecnicamente empatado com o presidente Michel Temer, que conta com um vergonhoso 0,4%. Sua rejeição é enorme: quase 70% dos entrevistados dizem que não votariam nele de jeito nenhum. Logo, politicamente, Aécio está na lona.

Os Aécios que importam

O fato de sua condenação pelo STF unir o PT, o PSDB e o PMDB não tem nada a ver, por isso, com a tentativa de reparar uma injustiça a um baluarte da democracia. Os maiores partidos do Senado são, também, os que possuem o maior número de senadores investigados e denunciados na Lava Jato. Permitir que o Supremo afaste Aécio é fazer a fila andar. Depois dele, viriam outros caciques realmente importantes para o bom andamento dos “negócios” na Casa.

Segundo a colunista Sônia Racy, no Estadão desta quinta-feira (28), Aécio é o terceiro político mais enrolado no STF, com 12 processos contra si. Com 14 denúncias, o vice-campeão é Romero Jucá, presidente nacional do PMDB e líder do governo no Senado. Já o campeão é ninguém menos que Renan Calheiros, também senador pelo PMDB de Alagoas. Renan ostenta o desonroso plantel de 18 processos. Dá ou não dá para entender toda a comoção de Vossas Excelências com o desaventurado colega?

Ciro Gomes: a esquerda precisa de um incendiário?

Márcio Juliboni
há 23 dias2.0k visualizações

Se mantiver o tom radical, Ciro pode atrapalhar a retomada da economia; se afrouxar, será acusado de estelionato eleitoral

Ciro Gomes: a esquerda precisa de um incendiário?
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(Foto: Divulgação/ Página Oficial de Ciro Gomes/ Facebook)

O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, está cada vez mais soltinho, no figurino de concorrente à Presidência. Nesta terça-feira (26), Ciro participou de um bate-papo com usuários do Twitter, promovido pela própria empresa, e aproveitou para falar grosso, como é seu costume. Prometeu cancelar todas as reformas feitas por Michel Temer. Também afirmou que retomará os campos de petróleo vendidos pelo atual governo. Seu argumento é que Temer não tem legitimidade para implementar tais medidas. A dúvida é se uma agenda dessas, que confronta explicitamente alguns temas caros ao mercado e ao ajuste das contas públicas, ajudará o Brasil e a esquerda, ou servirá apenas para matar o embrionário crescimento econômico a que assistimos.

A bem da verdade, Ciro tem uma trajetória errática. Filiado ao PSDB nos anos 90, deixou o governo do Ceará para ser ministro da Fazenda de Itamar Franco entre setembro de 1994 e janeiro de 1995, enquanto Fernando Henrique Cardoso preparava a campanha à Presidência. Na época, reduziu drasticamente as tarifas de importação e inundou o país com artigos estrangeiros – de carros a alimentos. Na época, a medida causou uma baita chiadeira no empresariado. A resposta foi bem ao seu estilo: disse que estava “pouco ligando”. Também chamou de “otário” quem comprava carro brasileiro caro.

A ironia é que o hoje defensor de uma política nacionalista defendia a privatização de estatais, a ponto de afirmar, depois que deixou o governo FHC, que os tucanos deveriam ter vendido as empresas antes, mas, por medo da impopularidade da medida, protelaram o quanto puderam para não perderem a eleição.

Cara feia não paga conta

Como uma bolinha de fliperama, ricocheteou em várias direções políticas, até se alojar no Ministério da Integração Nacional, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Agora ataca impiedosamente seu ex-chefe, dizendo que Lula "insulta a inteligência do povo", com suas recorrentes alegações de inocência nos processos em que é réu ou investigado na Lava Jato.

É verdade que Ciro pode estar, apenas, jogando para a torcida, mobilizando um eleitorado mais radical e nacionalista, órfão de Lula e de um discurso mais contundente contra o capital. Mas a realidade, nua, crua e cruel, é que o Brasil padece de algo elementar: dinheiro. Falta dinheiro para fazer o básico, como manter os salários de funcionários públicos em dia, comprar material para hospitais e escolas, pagar aposentadorias e benefícios sociais. Isso, sem falar naquele sonho distante de investir na melhoria geral da infraestrutura do país, inovação tecnológica, pesquisa de ponta etc.

Se sua candidatura embalar, Ciro terá de escolher se manterá o discurso incendiário que afugentará os investidores e agravará a falta de dinheiro, ou se pisará no freio e correrá o risco de perder a confiança de seus eleitores. Não é de hoje, que se discute a crise da esquerda. Moderados ou radicais, os militantes desse polo ideológico se angustiam para reinventar a esquerda. Um Ciro Gomes radical e bem colocado na corrida pelo Planalto será um enorme fator de instabilidade política e econômica. As empresas segurarão, novamente, os investimentos com medo do que ele faria na Presidência. Investidores poderiam sair do país, encarecendo o dólar e, por tabela, elevando a inflação e corroendo as contas públicas. Afinal, cara feia não paga conta.

Já um Ciro Gomes que mude de discurso no meio do caminho, fazendo acenos aos investidores e aos capitalistas em geral, desmoralizará a esquerda e a si mesmo. Dará uma imensa chance de ser acusado de cometer estelionato eleitoral. E, de presidentes acusados, o Brasil já está cheio.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!