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Desemprego em queda: o Brasil não melhorou; apenas decidiu se virar sozinho

Márcio Juliboni
há 2 meses3.0k visualizações

Famintos por oportunidades, os brasileiros começaram a devorar seus próprios direitos

Desemprego em queda: o Brasil não melhorou; apenas decidiu se virar sozinho
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(Foto: Pedro Ventura / Agência Brasília)

Esqueça esse lenga-lenga de Michel Temer e companhia de que a queda do desemprego, anunciada nesta quinta-feira (31) pelo IBGE, é um claro sinal de melhora da economia. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego ficou em 12,8% no trimestre de maio a julho. Ela é menor que os 13,6% do trimestre imediatamente anterior (fevereiro a abril). Olhando os números com calma, contudo, é possível ver sinais de que o Brasil não melhorou de fato; os brasileiros apenas resolveram se virar sozinhos, sem esperar nada do governo, nem da economia formal.

O mais eloquente desses sinais é que o desemprego só caiu, porque um maior número de pessoas aceitou trabalhar sem carteira assinada – entrando, assim, para o famoso mercado informal. Em números, o total de desempregados recuou 5%, para 13,3 milhões de pessoas. Como o contingente de pessoal com carteira assinada cresceu bem menos do que isso (1,6% sobre o período de fevereiro a abril), a conclusão é óbvia: mais gente trabalhando sem direito a nada, além do salário. O mercado informal avançou 4,6%.

Contra o relógio

Após dois anos de recessão e com indícios de que 2017 seja um ano indigente, em termos de crescimento econômico, é compreensível o aumento da informalidade. Em bom português, a pessoa simplesmente se cansa de procurar algo com carteira assinada e começa a topar qualquer coisa, desde que gere alguma renda. Segundo o Dieese, o tempo médio para encontrar uma vaga subiu de 35 semanas, no ano passado, para 43 semanas em agosto (cerca de nove meses e meio). Quem consegue ficar tanto tempo sem receber algum dinheiro? Como pagar as contas, ainda que somente as básicas? Num determinado momento, a pessoa não pensa duas vezes: entre esperar indefinidamente para conseguir um emprego formal, com todos os direitos, e ter dinheiro para pagar as contas e colocar comida na mesa, dane-se a carteira! Trocamos direitos que só receberemos no futuro pelo dinheiro que precisamos aqui e agora.

Outro dado mostra como os brasileiros desistiram de esperar que indústrias, varejistas e prestadores de serviço abram vagas. O número de trabalhadores autônomos aumentou 1,6% sobre o período de fevereiro a abril. São, agora, 22,6 milhões de pessoas tentando a vida sozinhas.

A situação fica ainda mais difícil, quando se constata que a renda média praticamente não subiu nos últimos meses. De acordo com o IBGE, a renda média habitual (aquela que o entrevistado costuma receber todo mês) caiu ligeiramente de R$ 2.111 para R$ 2.106 desde o último trimestre.

Nem suave, nem favorável

Se, no curto prazo, a informalidade é o salva-vidas que nos impede de afundarmos na crise, no longo prazo, ela traz mais prejuízos do que benefícios. Para os brasileiros em geral, significa abrir mão de direitos trabalhistas como férias, décimo terceiro, comprovação de renda para crediários, seguro-desemprego, tempo de contribuição para a aposentadoria e nenhuma poupança no FGTS, além de não conseguir comprovar a experiência acumulada naquele emprego. Para empresas que se aproveitam da situação e contratam informalmente, representa o risco de grandes (e justificados) processos trabalhistas.

Já para o governo, a informalidade chega na forma de queda de arrecadação de impostos sobre salário e renda, menor arrecadação para a previdência social e menos dinheiro entrando no FGTS, entre outros. Após dois anos de recessão, com o cofre praticamente vazio, universidades federais paradas, serviços públicos moribundos e Estados quebrados, Temer não pode se dar ao luxo de jogar dinheiro fora, mas é o que faz, ao festejar uma queda do desemprego baseada nos motivos errados. Famintos por oportunidades, os brasileiros começaram a devorar seus próprios direitos. Dá para acreditar que estamos melhores?

2018: o ano em que os robôs elegerão o presidente do Brasil

Márcio Juliboni
há 2 meses3.4k visualizações

Robôs serão determinantes para o resultado, ao espalharem mentiras nas redes sociais e tornarem o debate mais irracional

2018: o ano em que os robôs elegerão o presidente do Brasil
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(Exterminador do Futuro - Gênesis/ Divulgação)

A eleição de 2018 será uma verdadeira guerra, e não se trata apenas de um efeito retórico para abrir um texto. Além da radicalização de seus militantes de carne e osso, as facções ideológicas preparam um novo exército: os robôs (bots) que emporcalham as redes sociais com uma enxurrada de notícias falsas ou enviesadas. Naturalmente, disseminam opiniões favoráveis a seus candidatos e atacam brutalmente seus rivais e quem os apoiar. Uma pesquisa divulgada pela Diretoria de Análises de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP/FGV) mostra que a ameaça é real e, sobretudo, pode determinar o resultado da eleição. Se isso, de fato, ocorrer, teremos nosso primeiro presidente eleito por robôs.

O trabalho da FGV foi gigantesco: primeiro, identificou 1.925 geradores de postagens automáticas no Twitter, que distribuíram 7,8 milhões de mensagens. Desse grupo, extraiu 181 geradores que postaram 100 ou mais mensagens por dia. Desses, concentrou-se em 83 robôs que atuaram nos episódios políticos mais quentes dos últimos tempos no Brasil.

Tropas virtuais

Os números apurados preocupam: no debate do segundo turno das eleições de 2014, promovido pela Globo em 24 de outubro, nada menos que 19,4% das mensagens de apoio a Aécio Neves foram geradas por bots, ante 9,7% das de Dilma Rousseff. Quando o movimento pró-impeachment começava a embalar, a situação se inverteu. Em 13 de março de 2016, quando um ato pela saída de Dilma mobilizou milhões de pessoas, 21,4% das mensagens contrárias ao impeachment partiram de geradores automáticos, frente a 16,6% de posts favoráveis. Já nas eleições municipais paulistanas, no ano passado, as forças se equipararam: 11,5% das mensagens de apoio a Fernando Haddad eram automáticas, seguidas por 11,2% das de João Doria.

Se a geração de posts se limitasse apenas a uma versão moderna de distribuição de santinhos via correio ou e-mail, os danos seriam mínimos. Os robôs postariam, de tempos em tempos, a foto sorridente do candidato beijando criancinhas e um slogan qualquer. Iria poluir nossos murais de mensagens no Twitter, no Facebook e no Instagram, mas seria suportável. O diabo é que, com o avanço da inteligência artificial, os robôs não se limitam a isso. Sua missão mais importante é disseminar confusão, desinformação, más interpretações sobre fatos e mentiras (hoje pomposamente chamadas de fake news).

Votando com o fígado

A pesquisa mostra que as estratégias para que robôs se passem por seres humanos reais estão cada dia mais elaboradas. Com isso, está mais difícil discernir se aquela mensagem compartilhada por seu amigo real, oriunda de alguém que você não conhece, é fruto de um bot que enganou todo mundo, ou se é apenas um amigo do amigo que você não conhece.

Isso acrescenta um elemento poderoso de irracionalismo nas eleições de 2018. Já estamos cansados de saber que todos os sinais mostram que as urnas não serão uma pia de água benta que pacificará o Brasil e ungirá o eleito com as graças do povo. As urnas serão incapazes de acalmar a população, cada vez mais polarizada. Assim, os robôs servirão como nitroglicerina na fogueira em que os eleitores queimarão a razão e o bom senso antes e depois de votarem. Se você já acha insano discutir política nas redes hoje, prepare-se: será praticamente impossível manter a sanidade mental nos próximos meses. A menos que se reprima severamente o uso de bots. Mas, esqueci... estamos no Brasil...

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!