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Ditadura militar não teve corrupção?? Risos. Muitos risos...

Márcio Juliboni
há um mês6.8k visualizações

Farda não é uma blindagem contra o roubo de dinheiro público, sobretudo por quem a veste

Ditadura militar não teve corrupção?? Risos. Muitos risos...
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(Foto: Tony Winston/Agência Brasília)

Há ideias que devem ser mortas no berço. Uma delas é a de que só uma intervenção militar será capaz de colocar ordem no país, banir a corrupção da política, punir severamente as organizações criminosas de colarinho branco, coibir rigorosamente criminosos pés-de-chinelo, pacificar a sociedade e impor bons costumes a libidinosos lascivos besuntados de chantilly e champagne (ai... ai...). O general do Exército Antonio Hamilton Martins Mourão admitiu, com todas as letras, a possibilidade de as Forças Armadas “imporem uma solução” para o escândalo político-criminal que envergonha o Brasil, caso os poderes constituídos não o façam. Mourão é mais um que se ilude (ou que quer nos iludir), enxergando a ditadura militar como uma época de cândida honestidade, digna de coroinhas de igreja. A verdade é que os militares cultivaram a corrupção, tanto quanto qualquer um que ocupou o poder no Brasil, antes ou depois.

Contrabandistas na Polícia do Exército, delegados linha-dura fazendo segurança para traficantes, extorsão de empreiteiros por governadores biônicos, concessão irregular de crédito pelo então BNDE (ainda sem o “S” de social) a empresas de políticos do regime; ministros da área econômica envolvidos em favorecimentos ilegais a banqueiros e empresários. Como se vê, a lista é ampla, e só não é maior, porque nunca devemos nos esquecer de que a imprensa e os procuradores viviam sob severa censura – aquela que se impunha na base do tiro, porrada e bomba.

É hora de amadurecermos

E, se ainda resta um pingo de ingenuidade (ou um oceano de más intenções) em quem defende que homens de farda são, automaticamente, blindados contra corrupção, basta lembrar que os malfeitos continuaram com a redemocratização. A eterna novela da construção do submarino nuclear, cujo projeto está a cargo, obviamente, da Marinha; as propinas na Eletronuclear, quando estava sob o comando de um almirante; o sumiço de armas e munições de quartéis no Rio de Janeiro... está bom, ou quer mais?

Já passou da hora de os brasileiros pararem de buscar soluções mágicas e infantis, depositando esperanças num grande líder que desça dos céus ungido pelo povo, ou chegue guiando uma coluna de tanques. O Brasil precisa amadurecer e compreender, urgentemente, que o combate à corrupção e a faxina política precisa ser feita por todos nós. É difícil. É desesperador. É deprimente. Mas é algo do qual não podemos abrir mão – até porque, quando demos a mão aos militares, logo eles estavam arrancando nossas unhas e torcendo o nosso braço.

Raquel Dodge terá de escolher entre a harmonia política e a Justiça

Márcio Juliboni
há um mês2.9k visualizações

Procuradora deve se preocupar em combater a corrupção, não em acalmar poderosos encurralados pela Lava Jato

Raquel Dodge terá de escolher entre a harmonia política e a Justiça
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(Foto: Marcos Corrêa/PR)

Enfim, Raquel Dodge é oficialmente a nova procuradora-geral da República. A sucessora de Rodrigo Janot tomou posse na manhã desta segunda-feira (18), para esperança de uns e preocupação de outros. Nas seis páginas de seu discurso, Dodge citou três vezes a palavra harmonia. Referiu-se a ela, quando tratou da relação entre a PRG e o Supremo Tribunal Federal (STF). Depois, quando aludiu à relação entre as instituições da República. Por fim, afirmou que ela é necessária entre os três poderes. Depois da chuva de flechas disparadas por Janot em seus últimos dias como chefe do Ministério Público, a voz suave de professora de etiqueta de Dodge foi providencial para os acuados pela Lava Jato. O problema é que, mais dia, menos dia, a nova procuradora-geral terá de escolher entre manter a harmonia com poderes carcomidos pela corrupção ou promover a Justiça.

Não se trata de maniqueísmo fácil de jornalista, mas de uma observação baseada em alguns elementos. Primeiro: o Ministério Público é uma instância independente no Judiciário brasileiro. Essa independência é assegurada pela própria Constituição de 1988 e foi apontada, pelos estudiosos, como uma condição fundamental para que avançasse o combate à corrupção nos altos escalões da República. Embora indicada por Michel Temer, o chefe do Executivo, e sabatinada pelo Senado, Dodge tem, a partir de agora, a prerrogativa constitucional de não dar satisfações a ninguém – sobretudo, a quem está atolado até o nariz no pântano das negociatas que apodreceram o país.

Segundo: como bem lembrou a própria procuradora, em seu discurso, a intolerância com a corrupção anda alta. É verdade que, diante do sumiço das “lideranças populares” que encamparam o Fora Dilma (MBL? Vem Pra Rua? Revoltados Online? Alexandre Frota?), do silêncio das ruas e das panelas caladinhas, a indignação dos brasileiros contra o roubo do dinheiro público pode ter sido apenas fogo de palha ou um surto histérico decorrente da falta de ansiolíticos no mercado. Mas, mesmo que o povo tenha se acomodado (ou se cansado, ou se desiludido), ainda haverá olhos vigiando atentamente cada ato ou omissão de Dodge. Falo da imprensa e, sobretudo, da oposição (ou o que sobrou dela). A última tem especial interesse no que a procuradora fará, pois, qualquer conivência com o PMDB e seus comparsas será um prato cheio para discursos inflamados em palanques até as eleições de 2018.

Ofensa é elogio

Terceiro: a função primordial do Ministério Público é zelar pelos interesses dos brasileiros, o que inclui uma luta renhida contra qualquer tentativa de assaltá-los, mesmo que os bandidos vistam ternos caros, gravatas de grife, apareçam na TV em cargos poderosos e reajam com a indignação de um monge franciscano, quando acusados de crimes como os investigados pela Lava Jato. Dodge não precisa ser adorada, mimada, cortejada ou se orgulhar de tirar selfies com o alto escalão da política brasileira, se ele estiver do lado errado da lei. Deve, sim, encarar cada ataque de corruptos como um elogio, como o sinal de que está no caminho correto.

Por isso, é preciso saber exatamente o que Dodge entende por “harmonia”. Se estiver se referindo ao respeito às leis e a uma convivência civilizada entre atores políticos que a Constituição, sabiamente, coloca em polos opostos para servirem de pesos e contrapesos, então tudo bem. É o que se espera de quem está na cúpula do poder no país. Mas, se estiver pensando que harmonia é não contrariar, não melindrar, nem irritar poderosos com perguntas incômodas, investigações urgentes e denúncias duras contra quem merecer, então a palavra certa não é essa; é subserviência.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!