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Doria se esqueceu do básico: cuidar de São Paulo (e isso pode ser fatal)

Márcio Juliboni
há 14 dias3.0k visualizações

De olho na Presidência, Doria não convence nem como bom gestor, nem como bom político – está mais para um bom marqueteiro de si mesmo

Doria se esqueceu do básico: cuidar de São Paulo (e isso pode ser fatal)
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(Foto: Heloísa Ballarini / Secom/ Prefeitura de São Paulo)

Faz algum tempo que eu me pergunto quando os paulistanos perceberão o óbvio: João Doria está mais preocupado em se lançar à Presidência, do que em administrar a maior cidade do país, missão que assumiu há apenas dez meses. Uma pesquisa do Datafolha, publicada neste domingo (8), me deu algum alento. Entre abril e outubro, a taxa de aprovação do prefeito de São Paulo, medida pela soma de avaliações ótimas e boas, recuou 9 pontos percentuais. Era de 43% e despencou para 32%. Já os que consideram sua gestão regular passaram de 33% para 40%. Outros 26% cravaram ruim ou péssima; em abril, eram 20%. Ao que parece, os paulistanos estão se cansando de serem usados como trampolim para políticos ambiciosos.

É verdade que 32% de aprovação deixa qualquer antecessor com inveja, mas o que impressiona, no caso de Doria, é a velocidade da deterioração de sua popularidade. Se continuar perdendo parcelas tão grandes de apoio em tempo tão curto, chegará ao fim do ano numa situação bastante complicada: sem os votos da cidade de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, será difícil convencer os tucanos a apoiar sua aventura rumo ao Planalto. Isso poderia ser compensado, em parte, se conquistasse os votos do Estado como um todo, mas a pretensão esbarraria na absoluta falta de vontade de Geraldo Alckmin, o governador paulista e seu criador, de apoiá-lo. Afinal, por mais sorrisos e tapinhas nas costas que trocam em público, até a grama do Palácio dos Bandeirantes já sabe que Alckmin não pretende encher a bola de seu pupilo. Por fim, mesmo que opte por mudar de partido para concorrer, Doria voltará à estaca zero: seu cacife é a popularidade na capital paulista. Sem ela, não há razão para outras legendas, como o DEM ou o PMDB, acolherem-no.

Falta o básico

As queixas dos paulistas sobre a gestão Doria são óbvias e numerosas. Vão da constante e irritante falha dos semáforos até o mau atendimento nos postos de saúde municipais e a má qualidade do transporte público. Não deixa de ser irônico que o prefeito seja criticado por aspectos que contradizem seu bordão de que é um gestor tarimbado a serviço da cidade, e não um político preocupado com conchavos. Mas, até onde o retrospecto mostra, Doria não é nem um bom gestor, nem um bom político – está mais para um bom marqueteiro de si mesmo. Quem o diz não é este jornalista, mas os entrevistados pelo Datafolha: dos 36% que afirmaram assistir aos vídeos que o tucano posta nas redes sociais, 21% acreditam que eles não passam de autopromoção. Apenas 15% acham que eles divulgam benfeitorias na cidade.

Os paulistanos também se cansaram de ver o prefeito mais na cidade dos outros, do que na sua: metade dos entrevistados consideram que Doria viaja demais. O pior, contudo, é a impressão negativa que têm desses passeios: 77% dos consultados afirmam que as viagens beneficiam apenas o projeto pessoal de Doria ser candidato a presidente; só 35% acham que suas escapadas ajudam a cidade.

Bombardeio "amigo"

Há alguns dias, o jornalista Pedro Zambarda escreveu, aqui no Storia, que suspeita de que Doria seja o próximo José Serra do PSDB. Seu argumento: a ambição megalomaníaca de Doria é comparável à de Serra, que abandonou, sucessivamente, a prefeitura paulistana e o governo paulista para desafiar Dilma Rousseff em 2010 na corrida pela Presidência. Perdeu e voltou com o rabo entre as pernas para disputar a prefeitura novamente em 2012. Tomou uma sova de Fernando Haddad – um claro sinal de que os paulistanos se cansaram de ser feitos de bobos.

No caso de Doria, há ainda um agravante: ele inspira muito menos respeito no PSDB do que Serra. O “prefeito-gestor” já disparou contra Fernando Henrique Cardoso (um pecado mortal no ninho tucano) e outros caciques. Está começando a colher a tempestade. Também neste domingo, também na Folha, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, lançou-se como pré-candidato do PSDB à Presidência com um pesado bombardeio contra Doria. O amazonense disparou:

“Acho que ele não tem legitimidade para ser candidato, não tem preparo. Ele vai dizer o quê? Que administrou a empresa dele? A empresa dele nunca produziu nada. A empresa dele produzia eventos com empresários e propunha algumas benemerências. (...) Está pleiteando por pura vaidade pessoal. Se embebedou com o poder. Em São Paulo, as pessoas já começam a reclamar. Ele tem nove meses de governo e o que ele fez muito foi mexer no Twitter, no Facebook e no Instagram.”

Se até em Manaus, Doria já não engana ninguém, o que dizer de São Paulo?

Não idolatrem os militares: a lição da “Lava Jato” que investiga a PM de SP

Márcio Juliboni
há 15 dias6.0k visualizações

É pedagógico que um esquema de corrupção de R$ 200 milhões, envolvendo militares, ocorra num dos Estados que mais apoiam a intervenção

Não idolatrem os militares: a lição da “Lava Jato” que investiga a PM de SP
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(Foto: Uchôa Silva/Agência Fotos Públicas)

No fim de setembro, uma enquete do Instituto Paraná Pesquisas revelou um dado alarmante: 43% dos 2.540 entrevistados apoiam uma intervenção militar temporária (seja lá o que entendam por temporária) no Brasil. É verdade que outros 51% são contrários, mas é preciso destacar dois pontos. O primeiro, reconhecido pelo próprio instituto, é que a diferença entre intervencionistas e não-intervencionistas é pequena – apenas oito pontos percentuais. O segundo é que ela vem caindo rapidamente. Em dezembro do ano passado, 35% dos brasileiros apoiavam a intervenção, segundo o Paraná Pesquisas. O principal argumento (??!!) de quem a defende é que, sob um governo militar, a corrupção seria definitivamente extirpada do país. Só se pode dizer uma coisa sobre isso: trata-se de um profundo engano. Está aí a Operação Imperador, apelidada de “Lava Jato da PM”, para desmentir a ideia de fardas transformam pessoas em modelos angelicais de honestidade e retidão.

Deflagrada pelo Ministério Público Estadual de São Paulo, a Operação Imperador investiga um esquema de fraudes e desvio de dinheiro público na cúpula da Polícia Militar paulista. Estima-se que os desvios cheguem a R$ 200 milhões. No centro das investigações, está o coronel Álvaro Camilo, comandante-geral da PM entre 2009 e 2012 e atual deputado estadual pelo PSD – aquele partido criado pelo ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab para “não ser nem de esquerda, nem de direita”. Abaixo de Camilo, estava o tenente-coronel José Afonso Adriano Filho, que está preso desde março e negocia uma delação premiada com os procuradores estaduais. Adriano Filho chefiava o Departamento de Suporte Administrativo (DSA), responsável por contratos de manutenção das instalações da PM.

Se falar, morre

Os procuradores acusam a cúpula da PM de desviar dinheiro público, mediante contratos de prestação de serviço com empresas de fachada. Uma delas seria a Construworld, que fechou 207 negócios com a PM no período. Embora a empresa esteja em nome de Márcio Luiz dos Santos, o comerciante alega que seu verdadeiro proprietário é Adriano Filho, que o teria ameaçado de morte, caso não ficasse quieto. A declaração foi dada por Santos em maio à Justiça Militar. Agora, Adriano Filho quer provar que apenas cumpria ordens de Camilo, o então comandante-geral. Até o momento, segundo o Estadão, 16 policiais foram indiciados e dois processos já foram abertos. A Operação Imperador analisa 5 mil contratos de 523 empresas.

Não deixa de ser pedagógico que o esquema seja investigado em São Paulo, um dos Estados em que há mais gente defendendo a intervenção e idolatrando os militares. É justamente essa viseira ideológica que os corruptos fardados adoram: a predisposição à idolatria cega facilita muito os malfeitos, simplesmente porque há menos gente vigiando. E quem denuncia é atacado caninamente como petralha, comunista, encrenqueiro etc.

Agora me diga, caro intervencionista: o que o leva a pensar que os militares não trocarão a corrupção civil pela corrupção fardada? Como já escrevi neste mesmo espaço do Storia, é falsa a sensação de que não havia fraudes e corrupção durante a ditadura. Da mesma forma como Adriano Filho impôs o silêncio a Santos, jurando-o de morte caso denunciasse o esquema, a corrupção fardada intimidava, perseguia e matava quem ousasse desafiá-la. A falta de denúncias não refletia um governo puro e honesto. Era apenas a velha força bruta calando os mais fracos para que os mais fortes enriquecessem desavergonhadamente.

Jovens saudosistas

Se há alguma dúvida ainda, olhe para o que ocorreu com as Unidades de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro. Ao expulsarem os traficantes das comunidades cariocas, policiais civis e militares se fizeram de donos delas, criando as milícias que tristemente achacam e amedrontam os moradores. Quanto armamento e munição são roubados dos paióis das casernas, sob o nariz dos comandantes, e vão parar nas mãos do crime organizado? Quantos policiais civis e militares são pegos em sociedades com os criminosos?

O Paraná Pesquisas constatou um dado igualmente alarmante: a maior taxa de apoio à intervenção militar está entre os jovens de 16 a 24 anos (46%). A faixa etária menos favorável à ideia é a acima de 60 anos, com 37% de apoiadores. É um sinal claro de que os jovens estão idealizando um Brasil que nunca existiu – um Brasil vendido pelos intervencionistas como puro, honesto e ordeiro. Quem realmente viveu sob o regime militar tem uma visão bem menos romântica. Infelizmente, se não pararmos a tempo, esses jovens de hoje serão os portadores das cicatrizes de um novo ciclo autoritário no país. Só saberão o que fizeram, quando tiverem 60 anos. 

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!