Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Eleição de 2018 já conta com 12 milhões de mentirosos (e você pode ser um)

Márcio Juliboni
há um mês2.6k visualizações

Um bando de trolls, haters, bots, MAVs e mentirosos promoverá uma hecatombe zumbi nas redes, em busca de cérebros para devorar

Eleição de 2018 já conta com 12 milhões de mentirosos (e você pode ser um)
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Imagem: Banksy/Reprodução/Site oficial de Banksy)

Definitivamente, 2018 sufocará qualquer sanidade mental, quando o assunto for política. Desde a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, os estudiosos brasileiros se preocupam com o efeito das fake news por aqui. A má (e verdadeira) notícia é que há motivos de sobra para sermos pessimistas. Um estudo do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), da USP, constatou que nada menos que 12 milhões de brasileiros compartilharam notícias falsas de política apenas em junho pelas redes sociais. Com base numa estimativa conservadora de que 200 amigos tenham visto o material, o alcance chegaria virtualmente a toda a população do país.

Publicado pelo Estadão deste domingo (17), o estudo é um alerta sobre como será difícil combater boatos e mentiras nas próximas eleições. Segundo o Gpopai, a fonte dos fake news são 500 páginas na internet. Como já escrevi aqui no Storia (2018: o ano em que os robôs elegerão o presidente do BrasilFake news e boatos: por que os fatos não bastam para acabar com essas pragas), o diabo é que desmentir algo assim é trabalho para um Hércules pós-moderno, versado tanto em computação, quanto em ciências cognitivas – e, mesmo assim, não haverá garantias de sucesso.

O motivo é simples: psicólogos comportamentais, psiquiatras, psicanalistas, neurocientistas e cientistas da cognição estão convencidos de que enxergamos apenas o que desejamos, e descartamos aquilo que contradiz nossas crenças. Em situações extremas – como num embate impiedoso para defender seus valores e seus candidatos -, nos aproximamos perigosamente daquilo que, a rigor, a ciência já chamou de paranoia, mas cuja nomenclatura moderna é transtorno delirante. Sim, caro leitor, é duro dizer, mas alguns fanáticos são, literalmente, doentes mentais.

Hecatombe zumbi

O problema é que eles influenciam outras pessoas. Antes, doenças eram transmitidas apenas por meios físicos, como o contato humano. Agora, corremos o risco de descobrir que paranoias (no sentido científico) podem ser contagiosas e se propagar por redes sociais. O caso piora, quando se lembra que, ao lado dos 500 sites que divulgam mentiras deslavadas, há outro grupo, um pouco menor, de sites que distorcem descaradamente os fatos. Eles foram classificados pelos pesquisadores da USP como “junk news”. Não chegam a mentir, mas carregam nas tintas e entortam a verdade até caber em suas crenças, ideologias e conveniências. Há, é claro, fake news e junk news de todos os sabores – coxinhas e mortadelas são igualmente servidas.

Então, ficamos assim: em 2018, as redes sociais sofrerão uma hecatombe zumbi. Bandos de robôs (softwares que simulam interação humana para espalhar notícias, atacar perfis etc.), trolls (internautas que entram em discussões apenas para tumultuá-las), haters (pessoas que despejam ódio contra quem discorda de suas ideias), MAVs (militantes em ambientes virtuais, gente paga para promover partidos e candidatos), e 12 milhões de mentirosos estarão nas redes sociais, famintos por cérebros para devorar. E você pode ser um deles – se já não é.

Janot, STF, Moro e a Lava Jato: a Justiça se mete mesmo demais na política?

Márcio Juliboni
há 22 dias2.7k visualizações

Tudo bem que o Brasil não seja para principiantes. O que se lamenta é que agora só quem possui PhD em sem-vergonhice entenda o que se passa

Janot, STF, Moro e a Lava Jato: a Justiça se mete mesmo demais na política?
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: José Cruz/EBC/FotosPúblicas)

Boa parte dos manda-chuvas da política brasileira, do presidente Michel Temer ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conta as horas para que este fim de semana acabe. Embora o último dia útil de Rodrigo Janot como procurador-geral da República tenha ficado para trás, nunca se sabe se ele sacará uma flecha de última hora. De qualquer modo, os pesados ataques contra Janot são mais recente exemplo do azedume que o Judiciário desperta na classe política. O mau humor começou já no longínquo julgamento do mensalão e chegou ao limite com a Lava Jato. Do juiz Sérgio Moro a Janot, passando pelos tribunais regionais e o Supremo Tribunal Federal (STF), não há quem escape da acusação de parcial, partidário, autoritário, tirano, inquisidor, perseguidor, justiceiro etc. Tudo isso, claro, dito em termos bem mais chulos pelos atingidos e sua seita de seguidores. A pergunta, portanto, é: o Judiciário está, mesmo, se metendo onde não deve? Deixou de ser uma corte de Justiça para ser um antro de conspiradores?

Infelizmente, para o raivoso desespero dos rasos sábios de Facebook, a resposta está longe de ser simples, porque envolve, pelo menos, quatro partes: a ampliação das atribuições do STF, promovida pela Constituição de 1988; a ampliação do acesso ao STF, também pela Carta Magna; a consolidação da autonomia do Ministério Público; e o comportamento do Supremo. Uma análise bastante completa e equilibrada foi publicada por Rogério Bastos Arantes, professor da USP (Judiciário: entre a Justiça e a Política, no livro Sistema Político Brasileiro: Uma introdução, publicado pela Unesp).

Peixe morre pela boca

Vamos à primeira parte. Arantes relembra o acalorado debate sobre as atribuições do STF, durante a Constituinte de 1988. Havia três correntes. Uma defendia a criação de uma Corte Constitucional, responsável apenas por temas que ferissem as leis supremas do país; assim, caberia ao STF ser a corte suprema de apelação para casos comuns. Outra propunha a criação de uma seção autônoma no STF focada apenas em temas constitucionais, composta por ministros temporários. O terceiro grupo, liderado pelos juízes do STF, era irredutível em centralizar todas as funções na corte que compunham. Como é de se imaginar, essa foi a turma que venceu a briga. Com isso, o Supremo passou a acumular as tarefas de corte constitucional, federal (julgar infrações a normas federais) e tribunal de última instância. Concluindo: o STF atuou descaradamente para conquistar mais poder.

O segundo ponto é que a Constituição de 1988 garantiu, também, a ampliação do acesso ao STF. Em bom português, permitiu que mais gente tenha direito a apelar à turma de Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e companhia. Segundo Arantes, antes, apenas a Procuradoria-Geral da República podia recorrer ao STF. Após a promulgação da nova Carta, a porteira foi escancarada ao presidente da República, aos senadores, deputados federais, partidos com representação no Congresso, OAB, confederações sindicais e entidades de classe de âmbito nacional. Além, claro, da PRG. Para atender a toda essa gente, foram criados quatro tipos de ações, desde a conhecida Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) até a pomposa Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF).

Feitiços e feiticeiros

O terceiro ponto é a consolidação do Ministério Público, que ganhou autonomia com a Constituição, já que antes era subordinada ao presidente da República. Ironicamente, foi nos governos petistas que os procuradores ganharam poderosos instrumentos para exercer seu trabalho. São dessa época, por exemplo, a regulamentação da delação premiada e a prática de indicar, para a chefia da PGR, o nome mais votado de uma lista tríplice encaminhada pelos próprios procuradores (prática essa, agora, ignorada por Michel Temer, ao indicar Raquel Dodge para o lugar de Janot, mesmo sendo a segunda mais votada na eleição interna).

Agora, é hora de amarrar os pontos. Imagine um STF guloso, que está morrendo pela boca, desde que, há quase 30 anos, quis garantir para si todas as funções de última instância de uma corte de Justiça. Esse STF “Bombril, com mil e uma utilidades”, ao mesmo tempo, tornou-se acessível a um sem-número de atores políticos e sociais. Do Sindicato Nacional dos Críticos de Game of Thrones ao Partido Nanico do Congresso (PNC), muita gente pode inundar as gavetas dos ministros com demandas. Imagine esse sistema funcionando num ambiente de grave crise política, em que partidos absolutamente sem representatividade parasitam o Congresso, simplesmente por se multiplicarem por meiose em meio a um sistema eleitoral apodrecido. Incapazes de encontrarem “soluções políticas”, isto é, negociações no Legislativo e no Executivo que gerem respostas capazes de contentar a todos, qualquer briguinha de boteco acaba no STF.

Só é bom, quando é a favor

É por isso que tenho azia, sempre que ouço “ilibados” chefetes de partidos políticos atacarem o STF, dizendo que ele se mete onde não pode, enquanto apresentam pilhas de recursos à mesma corte para contestar decisões executivas ou votações legislativas de que não gostam. Isso, na prática, é criticar a intervenção do Supremo apenas quando lhe é inconveniente. Mas é claro que os ministros do Supremo não são santos. Basta ver a saraivada de habeas corpus que Gilmar Mendes disparou para libertar Barata Filho, o dono de companhias de ônibus do Rio, de cuja filha foi padrinho de casamento e cuja esposa trabalha na banca de advogados que defende o investigado. Há estudos que mostram que o maior problema, no STF, ocorre quando os ministros decidem sozinhos (ou, em juridiquês, monocraticamente). É aí que se veem os maiores abusos e as decisões mais polêmicas. Logo, quando um partido ou político dá a “sorte” de ter sua apelação analisada pelo “ministro certo”, a decisão tem tudo para irritar seus adversários, que a acusarão de política, ideológica, partidária. Como não dar, ao menos em parte, razão para as críticas?

Que o Brasil não seja para principiantes, já é um ponto pacífico. O que se lamenta é que, ultimamente, só quem possui PhD em sem-vergonhice entenda o que se passa.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!