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Eleições 2018: como eleger um candidato com mais de 50% de rejeição?

Márcio Juliboni
há 2 meses2.8k visualizações

O Brasil chegará mais dividido do que nunca em outubro de 2018. E sairá tão ou mais cindido das urnas

Eleições 2018: como eleger um candidato com mais de 50% de rejeição?
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(Foto: Nelson Jr./ ASICS/ TSE)

A pesquisa Ipsos publicada neste domingo pelo Estadão levanta sérias dúvidas sobre a capacidade de as eleições do ano que vem pacificarem, efetivamente, o Brasil. O motivo é o elevadíssimo índice de rejeição de todos os pré-candidatos à Presidência. O tucano Aécio Neves é desaprovado por 91% dos entrevistados, seguido por José Serra (82%), FHC (79%), Geraldo Alckmin (73%), Lula (66%), Marina Silva (65%), Ciro Gomes (63%), Henrique Meirelles (62%), Jair Bolsonaro (56%), Tasso Jereissati (55%) e João Doria (52%). Na prática, isso significa que, até agora, nenhum nome é capaz de serenar os ânimos. O Brasil chegará mais dividido do que nunca em outubro de 2018. E sairá tão ou mais cindido das urnas.

Nessa situação, é possível imaginar alguns cenários, não necessariamente excludentes. Ei-los:

1) taxa recorde de abstenções, brancos e nulos: diante da elevada rejeição dos atuais candidatos, se não surgir nenhum nome capaz de galvanizar parte considerável dos eleitores, pode-se esperar um recorde de abstenções e votos brancos e nulos. Seria uma forma de parte da população protestar contra a falta de boas opções. Na verdade, isso já vem ocorrendo a cada eleição. Em 2014, por exemplo, quando Dilma Rousseff derrotou Aécio Neves e se reelegeu, a taxa somada de ausências, brancos e nulos foi de 19,4%, a mais alta desde a eleição presidencial de 1998 (21,8%). Embora numericamente menor, ela foi o resultado de um aumento sucessivo do percentual a partir de 2006 (16,8%). Se as eleições municipais de 2016 servirem de aviso, aí vai: nelas, o percentual de faltosos e votos inválidos alcançou 32,5%.

2) uma eleição com baixa representatividade: um recorde de abstenções, brancos e nulos não invalida a eleição, segundo o senso comum. O cientista político Jairo Nicolau, especialista em sistemas eleitorais, lembra que a confusão se deve a uma má interpretação dos artigos 222 e 224 do Código Eleitoral. Neles, é permitido o cancelamento da votação, desde que 50% mais um dos votos válidos sejam, comprovadamente, fraudados ou viciados por abuso de poder econômico. Há uma diferença entre anular um voto por fraude, e um voto nulo por vontade própria do eleitor. Neste último caso, a eleição segue, seja qual for o total de válidos.

3) um eleito com baixa legitimidade: a lógica da eleição é delegar legitimidade a uma chapa, que se apresenta perante o eleitor com um programa de governo e um leque de alianças. O vencedor recebe, então, da sociedade um mandato para que execute aquilo que propôs. Assim, num cenário em que todos os pré-candidatos têm mais de 50% de rejeição e o risco de uma ausência recorde de eleitores é real, qualquer que seja o eleito terá 50% mais um dos votos válidos, no segundo turno, mas não 50% mais um do total de brasileiros aptos a votar. Logo, somando-se quem se recusar a participar da eleição, seja pela ausência ou por anular ou votar em branco, mais os votos do seu rival direto no segundo turno, é possível imaginar que o vencedor terá um apoio popular frágil. Será eleito por menos da metade dos brasileiros, seja quem for.

4) O descontentamento da outra metade: assim, desde o começo, o apoio popular do novo presidente será escorregadio. Qualquer que seja sua linha ideológica, veremos pulular nas redes sociais os famosos memes: “Eu não votei nele.” O acirramento de ânimos só tenderá a crescer, após a famosa lua-de-mel que o recém-empossado experimenta nos primeiros meses. Neste caso, contudo, premido por uma eleição conturbada, pela desconfiança do eleitorado e pela necessidade de acelerar o crescimento, é possível que essa trégua com os brasileiros seja bem curta.

5) O toma-lá-dá-cá continuará no Congresso: sem apoio popular, com resistências crescentes à sua pauta, não restará muito ao futuro presidente, além de retomar a velha política fisiologista. Alianças espúrias, caciques reprováveis, emendas milionárias, nanicos falando grosso... tudo o que já estamos enojados de ver em Brasília.

6) O perigo de um aventureiro: a última possibilidade é que um aventureiro se apresente para a eleição e caia nas graças do povo. Já vimos isso ocorrer com Fernando Collor de Mello em 1989. Foi um desastre que culminou no primeiro impeachment da história brasileira. Não faltam balões de ensaio, a esta altura. O próprio instituto Ipsos colocou um: o apresentador Luciano Huck, cortejado por aliados de Aécio Neves como seu plano B, caso o mineiro não consiga se viabilizar. Huck tem apenas 42% de desaprovação. Outros 44% o aprovam e 14% lhe dão o crédito de se confessarem mal informados sobre ele para opinar. Governar um país, contudo, é muito mais complexo do que entreter os telespectadores com uma mistura de bom mocismo e música moderninha. O problema é se a maioria dos eleitores pensar o contrário.

Lula elogia Renan e Sarney: isso é lutar contra a elite?

Márcio Juliboni
há 2 meses3.4k visualizações

É com essas forças que Lula pretende governar novamente? Já não sabemos o preço que esses senhores cobram em troca de apoio?

Lula elogia Renan e Sarney: isso é lutar contra a elite?
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(Foto: Dilvugação/Perfil Oficial de Renan Calheiros/Facebook)

Dê uma boa olhada nesta foto. Ela foi postada no perfil oficial de Renan Calheiros. Nela, o senador peemedebista, que votou pelo impeachment de Dilma Rousseff, e o governador de Alagoas, Renan Filho, ciceroneiam Luiz Inácio Lula da Silva pelo interior daquele Estado. Dividem um palco, posam sorridentes para fotos. A calorosa acolhida de Renan foi retribuída por Lula, em entrevista coletiva a rádios universitárias de Pernambuco nesta sexta-feira (25). Sua declaração foi, literalmente:

“O Renan pode ter todos os defeitos. Agora, o Renan me ajudou a governar esse país. Se ele cometeu algum erro, eu sou da opinião de que todo mundo é inocente até que se prove o contrário. Se eu quero para mim a inocência até que provem o contrário, vou querer para os outros também”.

Na mesma entrevista, afirmou sobre outro peemedebista conhecido por seus interesses pouco republicanos, José Sarney: “Eu sou grato ao Sarney, é importante dizer. Eu sou grato ao Sarney como presidente do Senado.” Depois de desfilar, todo pimpão e serelepe com Renan Calheiros e Renan Filho pelo interior de Alagoas, Lula deve se encontrar com Sarney, quando chegar ao Maranhão.

"Num tô intendeeendoo..."

Agora, por favor, algum lulista ou petista pode me explicar o que, raios, faz Lula em tão desabonadora companhia? Logo ele, que se vende como vítima de um golpe das elites? Como Lula confraterniza com coronéis da velha política, representantes do que há de mais ultrajante e arcaico no país, responsáveis por grande parte do atraso social, econômico e histórico? Logo, ergueram-se vozes defendendo o pragmatismo político de Lula e os arautos da realpolitik.

Mas há uma diferença fundamental entre fazer pactos de governabilidade com forças políticas rivais e vender a alma aos demônios que representam tudo o que há de mais nefasto, carcomido, podre e atrasado no cenário político brasileiro. Ser pragmático não deve servir de salvo-conduto para apertar mãos sujas.

"Lula sendo Lula"

É com essas forças que Lula pretende governar novamente? É com Renan, Sarney e outros de igual quilate que garantirá sua governabilidade? Já não sabemos o preço que esses senhores e os de sua laia cobram em troca de apoio? Anos de Lava Jato não serviram para nada? Quando digo que Lula fez um pacto com conservadores e reacionários, sou criticado pela esquerda, que me toma como um coxinha obtuso e burro. Mas quem, entre os eloquentes defensores de Lula, é capaz de justificar tamanha contradição?

Logo dois caciques do PMDB, partido que protagonizou o impeachment de Dilma Rousseff, naquilo que os petistas vendem como “golpe parlamentar”? Logo Renan Calheiros, que literalmente votou pela saída do poste eleito por Lula? É isto, a essência da nova política que o petista pretende levar para o Palácio do Planalto, se eleito?

Questionado a respeito, um dirigente petista, que só aceitou falar anonimamente com a Folha de S.Paulo, saiu-se com uma lacônica declaração: “É Lula sendo Lula.” Poder-se-ia acrescentar: no mau sentido.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!