Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Emenda Lula: por que pagaremos para condenados escaparem da Justiça

Márcio Juliboni
há 3 meses930 visualizações

Candidatos à prisão pela Lava Jato cobrarão de você as contas das campanhas com que escaparão da Justiça, sob as bênçãos da Emenda Lula

Emenda Lula: por que pagaremos para condenados escaparem da Justiça
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Um dos assuntos mais comentados no Twitter na manhã deste sábado (15) foi a Emenda Lula (#emendalula). Trata-se de um artigo que proíbe que candidatos sejam presos oito meses antes da eleição. A esta altura, o PT nem disfarça mais sua intenção de blindar, custe o que custar, o ex-presidente, condenado em primeira instância por Sérgio Moro a nove anos e meio de prisão. O problema, o grande problema, o escandaloso problema, é que, mesmo feito sob medida para Lula se livrar do xadrez e concorrer à eleição em 2018, o artigo também beneficiará outros réus da Lava Jato. A impunidade vai virar lei.

Relator da reforma política, o deputado federal Vicente Cândido (PT-SP) é o responsável pela proposta, segundo o Estadão. Ele incluiu o artigo no projeto de lei um dia, apenas um dia, após Moro condenar Lula. E, com toda a candura do mundo, admitiu ao jornal que se trata mesmo de uma manobra para blindar seu líder, mas tentou justificar-se com uma análise política de manual mimeografado de militante. Disse que a norma é “para todos, para esse momento que vive o Brasil. Nós estamos vivendo um momento anormal no Brasil, de muita judicialização da política, de uma política muito policialesca”. Não poderia ser mais cândido...

A proposta tem tudo para ser aprovada. Se há algo, nos dias de hoje, capaz de unir rivais políticos de todos os tons ideológicos, é a tentativa de escapar da Lava Jato. Não ser preso oito meses antes de uma eleição garante muitas regalias, inclusive, o de se eleger e ganhar, assim, foro privilegiado, entrando na vagarosa fila de casos que se acumulam nas mesas do STF. Basta comparar o número de sentenças da operação em primeira instância (e mantidas pelos desembargadores), e a pilha de casos empeirando em Brasília.

Tem pra todos

Não apenas Lula, mas candidatos à eleição ou reeleição em todos os níveis do Legislativo e do Executivo seriam blindados. Faça as contas: candidatos a deputados estaduais, deputados federais, senadores, além de candidatos a governador e a presidente. Tudo isso, apenas em 2018. Depois, em 2020, também entrarão na farra candidatos a vereador e a prefeito. E de todos os partidos campeões em citações na Lava Jato: PP, PMDB, PT, PSDB...

Agora, imaginem todos esses réus, com salvo-conduto de oito meses, disputando o foro privilegiado com o seu dinheiro, caros leitores. Sim, porque, com a proibição das doações de empresas, as campanhas serão financiadas com dinheiro público (o tal fundo partidário e o tal fundo de campanhas que o Congresso pretende criar). Resumindo, você, eu, todos os brasileiros estaremos, literalmente, pagando para que condenados escapem da Justiça.

Diante de tudo isso, só há uma coisa em que Vicente Cândido está correto: vivemos, realmente, "um momento anormal no Brasil".

Maracutaia, a verdadeira capital do Brasil, e o acordão para salvar Temer

Márcio Juliboni
há 3 meses983 visualizações

Os políticos eleitos por Maracutaia são péssimos, mas o mais triste, o mais aterrorizante, é seu povo. É com ele que temos que nos preocupar

Maracutaia, a verdadeira capital do Brasil, e o acordão para salvar Temer
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Esqueçam Brasília. A verdadeira capital do país, desde seu descobrimento, é Maracutaia. Brasília é apenas uma grande cidade cenográfica. Nela, encenam-se histórias de indignação com as relações pornofinanceiras entre políticos, empresários, doleiros e atravessadores em geral. Mas é em Maracutaia que os verdadeiros rumos do Brasil são traçados e executados. É dela que saiu o acordão para salvar Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara nesta quinta-feira (13).

Como uma ilusão de óptica, Maracutaia está na nossa cara e não a vemos. Apenas sentimos seus reflexos no mundo visível: o desvio bilionário de dinheiro público, o abandono dos mais pobres, a deterioração revoltante dos serviços públicos, a burocracia enlouquecedora, os impostos criminosos, a perpetuação de “famiglias” e facções criminosas no poder, as decisões espantosas da Justiça e, sobretudo, a crise moral, econômica e social que entranha na alma como reumatismo.

Hábitos e costumes dos maracutaianos

O motivo é que Maracutaia foi habilmente projetada e construída sobre Brasília como uma holografia – como esses selos holográficos de CDs e DVDs. Olhe de um jeito, e você enxergará a cidade projetada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Olhe de outro, e verá os contornos de Maracutaia. Assim como a luz possui vários comprimentos de onda invisíveis aos olhos humanos, como o infravermelho e o ultravioleta, Maracutaia só é perfeitamente perceptível sob a luz negra. Sob ela, tudo se revela: Maracutaia é o paraíso das felações premiadas.

Petistas fornicam com empreiteiros, tucanos se amasiam com juízes do STF, sindicalistas calam-se em troca de dinheiro, novos “líderes populares” se candidatam por partidos comprovadamente corruptos (e posam para fotos com mestres em saquear a República), “cidadãos de bem” guardam as bem areadas panelas de aço inox diante da corrupção de seus bandidos de estimação. Os movimentos sociais “de esquerda” se lambuzam com dinheiro e cargos públicos.

A cor preferida em Maracutaia

Mas o mais triste, o mais aterrorizante, o que causa mais revolta e perplexidade, é o povo de Maracutaia. Sob os comprimentos visíveis da luz, suas camisetas são verdes, amarelas, vermelhas. Mas, sob a reveladora luz negra, todas são da mesma cor: o pastoso “cinza-cúmplice”. A indignação raivosa e teatral que encenam em Brasília e nas grandes cidades não dá conta de todas as suas nuances: a sonegação cotidiana de impostos, a pirataria de produtos, o desrespeito aos direitos (quaisquer direitos – da vaga para deficientes à lei do silêncio, passando por furar filas), a carteirada para obter privilégios e intimidar os menos favorecidos, as puxadas de tapete no trabalho em busca de promoções, as mentiras e traições conjugais, os preconceitos de cor, raça, gênero, religião, o desprezo pela educação e pela cultura...

As interferências cada vez mais explícitas de Maracutaia na realidade visível, seja em Brasília ou em qualquer parte do país, não têm nada de espantosas. É apenas uma questão demográfica: a população de Maracutaia cresce muito mais rapidamente que a do Brasil. Os deputados que participaram do acordão para salvar Temer na CCJ são uma minúscula parcela de seus cidadãos. Outros tantos deverão se assanhar em salvar a pele do presidente no plenário da Câmara no início de agosto. Mas a grande maioria dos maracutaianos está nas ruas, tocando sua vida de pequenos golpes e espertezas, orgulhando-se de seus jeitinhos, como se a impunidade fosse eterna. É com eles que temos que nos preocupar.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!