Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Escola é lugar de se ensinar tolerância, não religião

Márcio Juliboni
há 20 dias2.3k visualizações

Por trás do ensino religioso confessional, está uma confissão de incompetência: as igrejas já não conseguem atrair os jovens do modo tradicional

Escola é lugar de se ensinar tolerância, não religião
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: Márcio Juliboni)

Mais uma vez, o Brasil fez a mágica de estragar uma ideia boa. A vítima da vez é a liberdade religiosa, um princípio importante num Estado que se diz laico, isto é, que não possui religião oficial. Por 6 votos a 5, o STF rejeitou uma ação da Procuradoria-Geral da União, e liberou o ensino religioso confessional em escolas públicas. Com isso, os alunos passarão a ter aulas com professores que, assumidamente, seguem determinada crença. As entidades eclesiásticas comemoraram, com o argumento de que não se pode tirar, do aluno, o direito de aprofundar os conhecimentos em sua fé. E é aí que o bicho pega. Quem disse que a escola é lugar para isso?

O argumento de que fé se ensina do mesmo jeito que matemática e português é cheio de buracos. O primeiro, e mais gritante, é que há lugares em que se pode conhecer e cultivar uma crença com total liberdade e apoio: as igrejas, os templos, os terreiros etc. Se o aluno já sabe qual é a sua crença e tem dúvidas ou curiosidades sobre ela, nada melhor do que frequentar o catecismo, a crisma e a missa, no caso dos católicos, ou os cultos, no caso dos evangélicos e das religiões afro-brasileiras. Ler, ouvir, praticar seus ensinamentos e conversar com seus guias espirituais. Frequentar seus grupos de estudo. Engajar-se na comunidade que comunga de sua fé. É simples, gratificante e acolhedor.

Por trás da proposta, está implícita uma confissão de incompetência. As religiões, de um modo geral, simplesmente não falam mais a língua dos jovens e, portanto, são incapazes de atrair fieis. Neil Gaiman, o criador da cultuada série de graphic novel Sandman, foi muito feliz, quando escreveu que “os deuses morrem por falta de preces”. Seria possível acrescentar: e as igrejas fecham por falta de dízimos. Arrebanhar almas, para um padre ou um pastor, não é apenas uma missão sagrada. É questão de fechar as contas no fim do mês. É por isso que os críticos da decisão do STF afirmam que o ensino confessional, nas escolas, servirá, na prática, para arregimentar novos seguidores. Algo que as entidades religiosas negam, mas que não pode ser descartado a priori.

Vitrine do mundo

Para a maioria das pessoas, a escola é o primeiro lugar em que entram em contato com ideias diferentes das suas. Aprendem, na prática, que nem todos pensam, se vestem ou se comportam como elas. É uma representação, em miniatura, da sociedade. Os problemas de adaptação a esse universo – do bullying à violência, passando por intolerâncias em geral – também são um ensaio geral do que se encontrará lá fora. Por isso, a missão da escola não é apenas fazer o melhor “download” possível de disciplinas como Física, Química e História na cabeça dos alunos; é, também, ensinar os jovens a lidar com as diferenças, a compreendê-las e respeitá-las. Isso vale tanto para as diversas tribos (nerds, esportistas etc.), quanto para as religiões.

O ensino religioso, nas escolas, deveria ser ecumênico, para que os estudantes conhecessem diferenças e semelhanças entre os credos. O ideal seria promover mesas-redondas, seminários e debates em que representantes de várias religiões, lado a lado, falassem do que acreditam e de como construir um mundo melhor e plural. A decisão do STF vai na contramão do que o Brasil e o mundo precisam: incentiva os alunos a se fecharem em bolhas ungidas por sua própria fé, em vez de abençoá-los com uma visão mais ampla do mundo. Com isso, em vez de garantir a liberdade religiosa, dá espaço para mais sectarismo e incompreensão.

Decadente, Aécio Neves vira escudo humano do Senado contra o STF

Márcio Juliboni
há 21 dias2.0k visualizações

Apoio de PT, PMDB e PSDB ao senador é apenas pretexto para manter quem realmente importa longe da Justiça

Decadente, Aécio Neves vira escudo humano do Senado contra o STF
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: Lula Marques/ Agência Fotos Públicas)

Vamos ser simples: o futuro de Aécio Neves é o que menos interessa aos senadores neste momento. A gritaria contra a decisão do STF de afastar o senador tucano e determinar seu recolhimento noturno não tem nada de defesa da Constituição e da soberania dos poderes, como os parlamentares vociferam. Decadente, Aécio Neves é apenas um pretexto para o que realmente importa ao Senado: evitar que políticos realmente importantes sejam atingidos pelos ministros do Supremo. Acuado e enfraquecido, o tucano virou apenas um escudo humano na guerra entre o Congresso e a Justiça.

Aécio, em si, tem pouca importância política atualmente. Desde que foi derrotado por Dilma Rousseff, no segundo turno da eleição presidencial de 2014, sua carreira política descambou ladeira abaixo. Em outubro daquele ano, com seus 51 milhões de votos, o senador tucano encarnava a principal liderança de oposição ao petismo. Seus erros e suas hesitações, contudo, corroeram rapidamente seu prestígio.

(Desa)tino político

Um exemplo: como presidente nacional do PSDB, Aécio conseguiu meter o partido numa situação pra lá de constrangedora, ao tentar cassar a chapa Dilma-Temer no TSE, ao mesmo tempo em que era o principal aliado do novo presidente no governo. Por isso, amarelou e evitou críticas à corrupção que ainda persiste, com membros do primeiro escalão enrolados até a alma com a Lava Jato, como os ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha. Para quem combatia os escândalos do PT com alma de jihadista, o PSDB passou a ser manso como um cordeiro – o que fez com que ficasse com pecha de traidor dos movimentos pró-impeachment.

O tiro de misericórdia foi a conversa gravada com Joesley Batista, dono da JBS, em que Aécio pede, sem nenhuma cerimônia, R$ 2 milhões. Por mais que jure, até hoje, que se tratou de um pedido pessoal, sem nenhuma conotação política, o senador ainda sente as ondas de choque abalando seu mandato. Basta lembrar que a decisão do STF de afastá-lo e colocá-lo em recolhimento noturno baseia-se nesse caso. Ao mesmo tempo, Aécio perdeu espaço dentro de seu partido. Presidente afastado, teve de engolir a ascensão do senador Tasso Jereissati, uma rebelião dos parlamentares mais novos (os chamados “cabeças pretas”) e ataques públicos do prefeito de São Paulo, João Doria, que pediu sua renúncia ao comando do partido.

Tudo somado, o apoio dos eleitores a Aécio derreteu mais rápido que sorvete no verão carioca. Segundo a última pesquisa CNT/MDA, a intenção espontânea de votos no mineiro despencou de 2,2% para irrisório 0,3% entre fevereiro e setembro. Com isso, ele aparece tecnicamente empatado com o presidente Michel Temer, que conta com um vergonhoso 0,4%. Sua rejeição é enorme: quase 70% dos entrevistados dizem que não votariam nele de jeito nenhum. Logo, politicamente, Aécio está na lona.

Os Aécios que importam

O fato de sua condenação pelo STF unir o PT, o PSDB e o PMDB não tem nada a ver, por isso, com a tentativa de reparar uma injustiça a um baluarte da democracia. Os maiores partidos do Senado são, também, os que possuem o maior número de senadores investigados e denunciados na Lava Jato. Permitir que o Supremo afaste Aécio é fazer a fila andar. Depois dele, viriam outros caciques realmente importantes para o bom andamento dos “negócios” na Casa.

Segundo a colunista Sônia Racy, no Estadão desta quinta-feira (28), Aécio é o terceiro político mais enrolado no STF, com 12 processos contra si. Com 14 denúncias, o vice-campeão é Romero Jucá, presidente nacional do PMDB e líder do governo no Senado. Já o campeão é ninguém menos que Renan Calheiros, também senador pelo PMDB de Alagoas. Renan ostenta o desonroso plantel de 18 processos. Dá ou não dá para entender toda a comoção de Vossas Excelências com o desaventurado colega?

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!