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Esqueça o Banco Central; os juros que deveriam cair são os do seu cartão

Márcio Juliboni
há 3 meses917 visualizações

Corte da Selic, anunciada nesta quarta, não significará rigorosamente nada para os brasileiros

Esqueça o Banco Central; os juros que deveriam cair são os do seu cartão
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(Foto: Grafite de Banksy)

Nesta quarta-feira (26), o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) anunciou mais um corte na taxa básica de juros, a famosa Selic. Com a economia destroçada por dois anos de recessão, elevado desemprego e inflação abaixo da meta, praticamente todas as videntes do Viaduto do Chá e todos os analistas da Faria Lima já esperavam o resultado: um corte de um ponto percentual. Assim, a Selic recuou para 9,25% ao ano. É a primeira vez, em quatro anos, que temos juros básicos de um dígito. Mas, o que isso quer dizer para você, na prática? A resposta: rigorosamente nada.

A Selic é uma referência para o mercado, mas pesa muito pouco nos juros que você paga no dia a dia. Do financiamento imobiliário ao cartão de crédito, passando pela compra da geladeira e do carro, você está careca de saber que as taxas são muito, mas muito, mas pornograficamente muito maiores. Exemplos? Basta ver a tabela abaixo, elaborada pela Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) com a taxa média de juros cobrada pelo mercado dos consumidores (as famosas pessoas físicas) no mês passado. Diga-me: em qual coluna, pagamos algo como 9,25% ao ano para alguém?

Esqueça o Banco Central; os juros que deveriam cair são os do seu cartão

(Tabela elaborada pela Anefac)

Mas há outro dado revelador. No mesmo relatório, a Anefac aponta que, entre março de 2013, quando começou o último ciclo de aumentos da Selic, e junho passado, a taxa básica de juros do BC subiu 3 pontos percentuais (de 7,25% para 10,25%). No mesmo intervalo, os gentis banqueiros encareceram o crédito ao consumidor em 53,96 pontos (de aviltantes 87,97% para zombeteiros 141,93%). Resumindo: para cada 1 ponto percentual de alta da Selic pelo BC, os bancos nos cobraram 17,98 pontos a mais pelo dinheiro que nos emprestam.

Zzzzzzz.....zzzz...

O que justifica isso? O lenga-lenga dos bancos é conhecido. Os juros altos são um misto de elevada inadimplência, taxas e impostos, burocracia, custos de oportunidade, incertezas políticas e econômicas, câmbio etc. É verdade: o governo brasileiro atrapalha qualquer cristão. Chegamos às raias da loucura, sempre que lidamos com impostos e burocratas. Mas nada disso justifica uma diferença tão gritante entre o que os banqueiros pagam pelo dinheiro que pegam (a Selic) e o que eles nos cobram pelo que emprestam (os juros à pessoa física).

Aliás, duas coisas justificam. Primeira: a extrema concentração do sistema financeiro nacional. Segundo reportagem do G1 de abril, os quatro maiores bancos brasileiros dominavam, no fim de 2016, 80% do mercado de crédito. Palmas para o Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa!

O que nos leva à segunda razão por que os juros são tão altos no país: a absoluta falta de vontade do governo de combater essa concentração. Candidatos de direita, de esquerda e de centro adoram subir no palanque e desancar de pau os banqueiros. Dá votos. Dilma Rousseff chegou a veicular, durante a campanha pela reeleição, a pungente propaganda em que uma família via a comida sumir dia a dia do prato, enquanto banqueiros enriqueciam. Como já escrevi neste mesmo espaço, o fato é que nem Fernando Henrique Cardoso, nem Luiz Inácio Lula da Silva e nem Dilma tiveram a coragem de abrir o setor de serviços financeiros e promover maior concorrência. Michel Temer, mais preocupado em se segurar na cadeira de presidente do que em governar, tampouco está fazendo alguma coisa. Nas próximas eleições, como de praxe, todos aparecerão na TV e nos palanques gritando contra os juros altos. Balela. No escurinho dos encontros privados com os banqueiros, falarão mansinho como sempre.

(atualizado às 19h com a decisão do Copom)

Precisamos de uma Lava Jato para investigar a Justiça

Márcio Juliboni
há 3 meses1.2k visualizações

Já passou da hora de o Brasil descobrir o que os juízes varrem para baixo da toga

Precisamos de uma Lava Jato para investigar a Justiça
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(Foto: Gil Ferreira/SCO/STF)

Precisamos, com urgência, de uma Operação Lava Jato que investigue as entranhas da Justiça. Enquanto alguns juízes, como Sérgio Moro, Marcelo Bretas e Vallisney de Souza Oliveira, provocam a ira de empresários, políticos, lobistas e militantes obtusos, ao desmantelarem esquemas bilionários de corrupção, outros magistrados preocupam-se com assuntos muito mais prosaicos: acobertar, com a própria toga, favores corporativistas e relações reprováveis com os outros poderes e com os donos do dinheiro (lícito e ilícito).

O caso mais recente é o de Breno Fernando Solon Borges, filho da presidente do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul, Tânia Garcia Freitas. Como você já deve saber, Borges foi preso preventivamente em uma operação da Polícia Federal em 8 de abril. Ele foi pego com 130 quilos de maconha, junto com sua namorada e um funcionário, além de 270 cartuchos de munição, sendo 199 para fuzis calibre 762 e 71 para pistolas 9 mm. Ambos são de uso restrito no Brasil.

Acrescentem-se dois agravantes. O primeiro: ele era investigado pela PF havia meses. Nesse período, os agentes encontraram indícios de que Borges se associara ao tráfico e transportava regularmente drogas e munição entre Mato Grosso do Sul e o interior de São Paulo. Segundo, por meio de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, a PF descobriu que o filho da desembargadora participou de um plano de fuga de um detento do presídio de Três Lagoas, em Minas.

Tadinho...

Trata-se de uma capivara (ficha corrida, no jargão policial) e tanto. Em situações normais, o sujeito estaria preso, mas, sendo filho de quem é, conseguiu trocar a prisão preventiva pela autorização para se tratar numa clínica particular. O argumento da defesa: ele sofre de transtorno de personalidade borderline – ou seja, não responde por seus atos. Os desembargadores acataram prontamente a justificativa. Mais: decretaram segredo de Justiça. Em bom português: varreram o caso para baixo da toga.

Pergunta simples: Borges tem 37 anos e é filho de uma família rica e influente. Ninguém havia percebido, até agora, que o pobre sujeito precisava de ajuda psiquiátrica? Será ele apenas mais uma vítima de pais ausentes, tentando chamar a atenção para ganhar carinho? Até onde psiquiatras sabem, um borderline manifesta comportamentos bem sintomáticos. Não é algo que ocorre do dia para a noite... ele se cortava? Já havia tentado se matar? Negligenciava a higiene pessoal? Bebia em excesso? Se drogava? Tinha uma vida autodestrutiva? Até onde se sabe, ele era bem integrado: tinha uma serralheria, funcionários, namorada de 18 anos, viajava regularmente, gostava das boas coisas da vida e tirava fotos na beira da piscina. Quisera eu ser borderline assim...

Juiz não é Deus, porque não se rebaixaria a tanto...

A imprensa não se cansa de registrar casos de abuso de juízes, como carteiradas e vendas de decisões. Um exemplo famoso de carteirada ocorreu há alguns anos. Em 2014, a agente de trânsito carioca Luciana Tamburini foi condenada a pagar uma indenização de R$ 5 mil ao juiz João Carlos de Souza Correa. Seu crime? Tê-lo parado em uma blitz da Lei Seca, em 2011, por dirigir um veículo sem placas e estar sem a carteira de motorista. Ao saber “com quem estava falando”, Tamburini não se intimidou: “Juiz não é Deus”. Correa lhe deu voz de prisão por desacato à autoridade e o resto virou notícia.

Um caso muito mais recente é o do procurador da República Ângelo Villela, preso há alguns meses. Ele é acusado de vender, à JBS, informações sobre investigações contra a empresa. E o que dizer dos indícios encontrados pela Polícia Federal de que membros do Tribunal de Contas da União protegeram os esquemas escabrosos da UTC na construção de Angra 3? De graves desvios éticos, como as carteiradas, até a prática de corrupção, alguns juízes são tão condenáveis, quanto os autores dos crimes que julgam. Não é à toa que muitos juízes antiéticos se irritam, quando alguém diz que juiz não é Deus: é verdade, eles não se rebaixariam a tanto! Já passou da hora de termos uma Operação Lava Toga.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!