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Exército na Rocinha: até agora, o único vencedor é o traficante Nem

Márcio Juliboni
há um mês8.6k visualizações

Sem um plano consistente de ação, que vá além das Forças Armadas, tudo o que o governo fará é dar a comunidade de presente a Nem

Exército na Rocinha: até agora, o único vencedor é o traficante Nem
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(Francisco Proner Ramos/AGIF)

As primeiras horas de cerco da Rocinha pelo Exército já produziram mais um tiroteio na madrugada, algumas apreensões de armas, milhares de fotos e gravações. Produziu também muita, mas muita retórica das autoridades competentes – tendo o ministro da Defesa, Raul Jungmann, como um dos mais loquazes. Saraivadas de palavras fortes são disparadas com a mesma desinibição com que os traficantes descarregam cartuchos a torto e a direito. Mas, quando se dissipa a cortina de fumaça das metralhadoras e das frases de efeito, o que se constata é embaraçoso: até aqui, o único vencedor efetivo do confronto de todos contra todos, na Rocinha, é o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem.

A versão mais popular do confronto conta que, desde o último domingo (17), homens de Nem tentam retomar a parte alta da Rocinha, dominada pelo seu ex-guarda-costas Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157. O objetivo, claro, seria garantir a Nem o controle de toda a área, e não apenas a parte baixa da comunidade. Outra versão cogita que a guerra foi detonada pela mulher de Nem, Danúbia Rangel, “herdeira” dos negócios, mas expulsa da Rocinha por Rogério 157, enquanto seu marido cumpre pena numa prisão federal de segurança máxima em Porto Velho (RO). Essa é a tese cogitada pelo jornalista britânico Misha Glenny, autor de uma biografia do traficante (O dono do Morro, Companhia das Letras).

Dúvida boba...

A esta altura, importa pouco quem atirou primeiro. A pergunta que falta, na cobertura espetaculosa da mídia sobre o tema, é a mais simples: e agora? Suponhamos que, com a retaguarda do Exército, a Polícia Militar e o Bope entrem na comunidade, esquadrinhem todas as casas, desentoquem e prendam Rogério 157 e seus aliados. Depois, desçam para a entrada da Rocinha, espalhem armas, munições e drogas para delírio dos fotógrafos e dos cinegrafistas, exibam os presos como troféus de caça, enfiem-nos nos camburões e saiam a toda velocidade com sirenes ligadas.

Como numa vinheta de Carnaval da Globo, a Rocinha respirará aliviada: a paz voltará, as crianças jogarão bola nos campinhos e empinarão pipas nas lajes, as rodas de samba alegrarão novamente tardes bucólicas em lajes que desfrutam de vistas majestosas da orla carioca. Ao mesmo tempo, políticos se autopromoverão em entrevistas coletivas, dizendo que seu pulso firme foi determinante para que a bandidagem fosse derrotada.

O crime odeia o vácuo

Mas, no mundo real, longe das câmeras e da marquetagem política, restará um enorme vácuo de poder na Rocinha. Negócios apetitosos, como o controle dos pontos de tráfico, as taxas do “gatonet” e da distribuição de gás, entre outros, estarão à espera do próximo empreendedor destemido que ocupe a área e assuma o comando. Sem Rogério 157 no caminho, abrem-se dois cenários. No primeiro, Nem e Danúbia também são impedidos de completar a retomada da área. Nesse caso, o rigor com que o traficante será tratado no presídio aumentará, suas conversas com advogados e parentes serão monitoradas. Já Danúbia será localizada e presa. Tudo resolvido, então? Claro que não. Sem Rogério 157, Nem e Danúbia, a Rocinha será um território sem dono, atraindo a cobiça de traficantes de outros morros. A guerra pelo seu controle será apenas uma questão de tempo.

No segundo cenário, com o poder público pegando leve, Nem (ou Danúbia) poderá concluir seu plano com tranquilidade: dominar toda a Rocinha. Contará, para tanto, com uma tropa de primeira: os 950 militares do Exército, Marinha e Aeronáutica mobilizados para cercar seu inimigo, além dos policiais militares e do Bope que subirão o morro para prendê-lo.

O próprio Nem não poderia imaginar um reforço tão importante em sua guerra para voltar a ser o único dono do morro. Sem um plano de ação consistente, que vá além de encarar o Exército apenas como um esparadrapo camuflado, e inclua o reforço da UPP, o combate à corrupção policial, o fim das milícias, a implantação efetiva de bons equipamentos públicos (escolas, hospitais, delegações, serviço de assistência social etc.), tudo o que o governo fará será dar a Rocinha de presente para o traficante e antigo dono. Nem agradece!

Somos todos cariocas: guerra na Rocinha é culpa dos donos dos morros de Brasília

Márcio Juliboni
há um mês4.1k visualizações

Não há diferença entre a disputa de traficantes pelo controle de pontos de droga, e a briga de caciques políticos para dominar as bocas do Executivo, Legislativo e Judiciário

Somos todos cariocas: guerra na Rocinha é culpa dos donos dos morros de Brasília
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(Foto: Divulgação/PMERJ/Página oficial no Facebook)

A guerra travada, desde domingo (17), pelo controle da Rocinha é uma metáfora do Brasil dilacerado por organizações criminosas de todos os tipos e tamanhos. Cada uma enfrenta as demais e coage a população em nome de seus próprios e mesquinhos interesses. Tão ou mais perigosas que as quadrilhas de traficantes, são as quadrilhas políticas travestidas de partidos que saqueiam o país sem a menor vergonha. Ao dominarem a máquina pública e os bilhões de reais que a movimentam, atuam como os gerentes de bocas de fumo – definem áreas de influência, armam escaramuças para abater adversários e ampliar seus domínios, declaram guerra contra quem os desafie. No meio desse fogo cruzado, estão os acuados brasileiros, incapazes de tocar uma vida minimamente normal.

Desde domingo, facções criminosas disputam o controle do tráfico na Rocinha. Os confrontos intensificaram-se ao longo da semana e atingiu seu ápice nesta sexta-feira (22), quando a Polícia Militar e o Bope decidiram entrar na área e caçar os líderes da bandidagem. A intervenção foi incapaz de controlar a situação e, agora à tarde, 950 homens da Polícia do Exército foram mobilizados para tentar colocar ordem no caos. Enquanto isso, mulheres são fotografas deitadas no piso de uma passarela para se proteger de tiros, estudantes não podem ir à escola, estilhaços de cartuchos atingiram uma adolescente, pessoas são impedidas de ir trabalhar, e ruas estão bloqueadas, desorganizando todo o trânsito da capital fluminense.

Isso soa familiar? Que tal isso: nos últimos anos, facções criminosas disputam o controle da máquina pública brasileira. Emboscadas são armadas contra adversários políticos, a fim de dominar qualquer rota de dinheiro público (orçamentos, emendas parlamentares, financiamento a empresas etc.) e tráfico de influência. Os confrontos intensificaram-se, quando uma força-tarefa composta pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e por tribunais de primeira instância decidiram intervir e caçar os líderes da bandidagem. A intervenção, batizada de Operação Lava Jato, contudo, foi recebida pelos donos dos morros de Brasília com uma chuva de balas verbais e medidas parlamentares que miraram sua capacidade de ação, como as tentativas de amordaçar procuradores, policiais e juízes.

Somos todos cariocas

A aguerrida determinação com que as organizações criminosas travestidas de partidos políticos se defendem mostra como é fundamental, para elas, o controle das bocas do Congresso e da Esplanada dos Ministérios. Como ocorre entre poderosos chefões, cada máfia garante para si um naco de recursos públicos e prestígio político. Quando alguém ousa invadir o território de outro, o tiroteio verbal, legal e fisiológico é imediato.

Enquanto isso, o povo morre em filas de hospitais; é alvejado por bandidos pés-de-chinelo em roubos de celulares; perde o futuro de suas crianças, devido a um sistema educacional horrível; sofre com o desemprego, as dívidas, a falta de perspectivas, dois anos de recessão, projeções ridículas de crescimento neste ano, a burocracia, a má vontade dos servidores públicos, o abuso do poder econômico, o superfaturamento de obras, a infestação de corruptos nas estatais, o desvio de dinheiro para malas em apartamentos de Salvador, e as alianças políticas nojentas entre pessoas que querem, apenas, salvar sua própria barba da Lava Jato.

Diante dessas quadrilhas, parte da população já sonha com uma intervenção militar ou, no mínimo, com um governo forte (que, para ser sincero, vejo apenas como autoritário) que seja capaz de ocupar os morros de Brasília, prender os líderes das facções criminosas que dominam as bocas no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, e trazer um pouco de tranquilidade aos brasileiros. O problema é que não há nenhuma garantia de que isso funcione. Basta ver o que ocorreu com as comunidades que receberam UPPs no Rio de Janeiro. Saíram os traficantes; entraram as milícias policiais resguardadas por políticos. Mais do que nunca, somos todos cariocas.

(Atualizado às 21h com o número mais recente de militares mobilizados para a Rocinha)

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!