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Hoje, eu votaria em Tiririca (e não é zoeira!)

Márcio Juliboni
há 3 meses2.0k visualizações

Se, mesmo assediado pelos cafetões partidários com lascivas propostas de toma-lá-dá-cá, Tiririca não quer se recandidatar, é porque é um dos poucos que mereceriam estar lá

Hoje, eu votaria em Tiririca (e não é zoeira!)
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(Foto: Divulgação/Página oficial de Tiririca no Facebook)

Quando Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, foi eleito deputado federal pelo PR-SP, em 2010, fiquei p... da vida. Candidato que não se levava a sério, com o insolente slogan “Pior que tá, não fica”, foi lançado pelo partido apenas por sua fama e a esperança de que puxasse muitos votos para carregar para a Câmara obscuros nomes cheios de terceiras intenções. Aceitou concorrer apenas para se autopromover como artista, como ele próprio admitiu. Foi o deputado mais votado do país, com 1,3 milhão de votos, o que, para mim, só mostrava o quanto os brasileiros deveriam, mesmo, se ferrar – afinal, em vez de melhorar nossos representantes, os rebaixavam. Eu não sabia quem era mais palhaço, naquela época: o eleitor que votou em Tiririca, ou o próprio. Mas a verdade é que, hoje, talvez eu votasse nele. E sem zoeira.

Não é que eu esteja descontente com o deputado em quem votei. Ao contrário da maioria da população, sei quem ele é, acompanho seu trabalho na Câmara, conheço seus projetos, paro para escutar suas intervenções nos debates em plenário e comissões, verifico seus votos em cada matéria. É claro que não concordo com tudo o que faz. Há posições que considero um tanto populistas. Há algum idealismo que me incomoda. Mas, no balanço geral, considero que fiz uma boa escolha e estou 75% satisfeito. Se ele se recandidatar, como espero que o faça, o apoiarei com um consciente prazer.

Mas Tiririca me comoveu. Em entrevista ao Estadão deste sábado (05), o palhaço demonstrou um aparente amadurecimento como parlamentar. Entendeu que a enxurrada de votos recebidos em 2010 e em 2014 não trazia, apenas, o entulho de protestos inconsequentes, gozações e falta de consciência dos eleitores. Junto, vinha, ainda que em menor quantidade, a sincera esperança de alguns de que Tiririca pudesse fazer algo. E ele resolveu atuar em nome dessa minoria.

Um popular zé-ninguém

Para sua grande desilusão, descobriu que era apenas o mais popular zé-ninguém do baixo clero. Bucha de canhão, massa de manobra de líderes partidários, deveria obedecer bovinamente às ordens, servir de número nas barganhas dos verdadeiros donos do poder no Congresso. Em oito anos, foi um dos deputados mais assíduos, mas aprovou apenas um projeto – o que permite que artes e shows circenses captem recursos pela Lei Rouanet. No mais, viu-se na incômoda posição de ser assediado por toda sorte de cafetão político.

Revoltou-se: votou pelo impeachment de Dilma Rousseff e, suprema heresia (para o seu partido, que fique claro), também rejeitou a orientação da liderança e votou pela aceitação da denúncia contra Michel Temer pelo STF, para que se investigasse a acusação de corrupção passiva no escândalo das gravações da JBS.

Agora, a pouco mais de um ano do fim do mandato, hesita em se lançar. A reeleição seria praticamente certa, dada a sua fama, mas ele dá uma inusitada demonstração de desapego ao poder – algo que escandaliza o senso comum em Brasília. “Para fazer o quê? Passar oito anos e aprovar um projeto?”, pergunta ao repórter, para desconforto dos que estão lá há décadas e com um desempenho igual ou pior – incluindo pré-candidatos à Presidência...

Consciência ou jogo de cena?

Tiririca jogou a toalha. “Não vai mudar. O sistema é esse. É toma lá dá cá”, suspira. Pode ser que tudo não passe de um grande jogo de cena para sensibilizar eleitores e angariar votos. Pode ser que seja apenas conversa para testar seu recall político e se relançar na base do “o povo me quer”. Mas, se esses oito anos realmente serviram para que tomasse consciência dos graves e criminosos defeitos de nosso sistema político, para que compreendesse quanto Brasília e suas sucursais estaduais e municipais violam os mais básicos direitos do povo, já terá valido a pena.

E se, mesmo diante dos milhares de voto que, com certeza, receberia se tentasse, mesmo com os cafetões partidários lhe acenando pornográficos favores e impunidades, ele não se sente tentado a continuar, porque não deseja se corromper e não se sente à vontade numa roda de corruptos ativos e passivos, então teríamos encontrado algo raro: alguém que realmente entendeu o que é o dever de um deputado. Alguém que, em última instância, mereceria estar lá.

Ódio: a verdadeira herança maldita que o Brasil deve superar

Márcio Juliboni
há 3 meses1.9k visualizações

O debate público de ideias, hoje, não ocorre numa ágora grega, mas num octógono de UFC. Quem se expõe é um inimigo a ser finalizado

Ódio: a verdadeira herança maldita que o Brasil deve superar
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Há um mês, iniciei entusiasmado minha colaboração com o Storia, cuja proposta é “furar a bolha” em que a internet, em geral, e as redes sociais, em particular, nos meteram. Cutucar preconceitos, dogmas e radicalismos. Criticar conclusões apressadas e tendenciosas. Alertar os leitores de que o pior erro é o autoengano voluntário. Trata-se de uma das tarefas mais nobres que um jornalista pode receber! E também a mais difícil. Basta ver a área de comentários dos artigos. Mas o que mais espanta e preocupa é como o ódio se transformou em um escudo, um campo de força com que as pessoas repelem as dúvidas que alguém levanta sobre suas opiniões. Perguntas, hoje, tornaram-se coquetéis molotov capazes de incendiar a sociedade.

Outro dia, brinquei com um amigo que não há mais “debate de ideias”, apenas “abate de ideias”. O totalitarismo e a intolerância vestem camisetas de todas as cores, frequentam com a mesma letalidade grupos de discussão da esquerda e da direita. Já vi militantes de ambos os lados desejarem, por escrito, a morte de seus adversários políticos. Já fui banido de grupos de discussão por discordar. Fora as ofensas de praxe: palavrões e toda sorte de “VTNC” que se imagine. Sempre que vejo isso, respiro fundo, fecho os olhos e mentalizo o meu rivotril interior. O debate público de ideias, hoje, não ocorre numa ágora grega, mas num octógono de UFC. Quem se expõe é um inimigo a ser finalizado.

O que me preocupa não é o quanto podem me ofender; é o quanto essa sulfurosa atmosfera de ódio sufoca a democracia, justamente quando nos aproximamos de uma nova eleição. De um lado, a esquerda, com Lula e o PT à frente, esperam lavar a alma com uma chuva de votos, ungindo-se novamente com a legitimidade do povo para expiar seus pecados. De outro, conservadores e reacionários, a pretexto de que a crise brasileira é, antes de tudo, moral, endossam cada vez mais candidatos a tiranos.

Te pego em outubro

Mas há algo que une polos tão distantes da política nacional: uma raiva impiedosa, digna de Inquisição espanhola, em relação ao outro lado. Sob esse clima, as eleições de 2018 não servirão para reunificar o país e pacificá-lo, como pregam alguns ingênuos ou mal-intencionados. Servirão para acirrar ainda mais o conflito, já que eleitores de todos os lados encaram a votação como uma guerra, o dia da vingança contra o inimigo.

Seria, por isso, sensato, recomendável, urgente que os farrapos de liderança política que ainda nos restam baixassem o tom dos ataques aos rivais. O problema é que, à medida que a campanha ganhar as ruas, veremos justamente o contrário. Para se eleger, em 2002, Lula vestiu o figurino do “Lulinha paz e amor”. Pós-mensalão e com a Lava Jato em campo, para reeleger Dilma Rousseff, 12 anos depois, o ex-presidente, em parceria com o marqueteiro (e delator em Curitiba) João Santana, inventou o “nós contra eles”. Quem não queria o PT no poder era uma “elite branca de olhos azuis”. Agora, com a missão de defender seu legado e em guerra com Sérgio Moro, Lula deve desferir os ataques mais mortais de sua trajetória política. Será o “Lulinha faz o terror”...

Tampouco os partidários da direita querem baixar a bola. Basta lembrar que o atual segundo colocado nas pesquisas é ninguém menos que Jair Bolsonaro, da ultradireita reacionária e conservadora, que flerta com o militarismo e o autoritarismo, menospreza minorias e pretende tocar o país como quem comanda uma tropa. O que diz ou escreve em suas redes sociais torna-se sagrado para seus seguidores. Como ele age como incendiário e não como bombeiro no debate político, seus apoiadores tornaram-se piromaníacos dispostos a queimar vivo “esse lixo de esquerdopatas”.

Até onde a vista alcança, não há nada parecido com um movimento de pacificação social e política. Daqui, o que se enxerga é a escalada das hostilidades e dos ataques, das escaramuças de Facebook, das guerrilhas digitais, dos MAVs, dos robôs poluindo áreas de comentários e perfis pessoais com notícias falsas e agressivas contra o rival. Mais dia, menos dia, contudo, essa intolerância vazará para o mundo real. E, aí, todos nós estaremos lascados... é melhor pararmos, enquanto ainda há tempo.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!