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Imposto não é roubo! Sonegação e corrupção é que são

Márcio Juliboni
há 3 meses1.2k visualizações

Pare de chororô: cidadania é cobrar a correta aplicação do nosso dinheiro, sem fazer birra dizendo que não vai pagar imposto

Imposto não é roubo! Sonegação e corrupção é que são
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(Foto: José Cruz/ Agência Brasil)

Apenas para manter as aparências, a Fiesp publicou, nesta sexta-feira (21), um protesto de página inteira nos jornais contra o aumento do PIS/Cofins sobre os combustíveis. Também para alimentar o faz-de-conta, inflou seu famoso pato amarelo na avenida Paulista. Ao mesmo tempo, as redes sociais fervem contra Michel Temer. Desde os tempos pré-impeachment de Dilma Rousseff, ganha corpo um movimento contra a cobrança de impostos. Seus apaixonados defensores afirmam que qualquer tributo é um roubo e, portanto, ninguém deve pagá-los. Se você é um deles, por favor: apenas pare!

Se você realmente acredita que pagar imposto é um assalto e que seu dinheiro ficaria muito melhor no seu bolso, para que você faça com ele o que quiser, quando quiser e se quiser, seja coerente: da próxima vez que a lâmpada no poste em frente à sua casa queimar, vá a uma loja de materiais de construção, compre outra, pegue uma escada, suba lá e a troque. Da mesma forma, quando você passar por um (ou vários) buracos entre sua residência e seu trabalho, liste-os, contrate uma construtora para tapá-los e pague-a.

Falta segurança pública? Não tem problema: contrate seus próprios guardas. Precisa de um passaporte? Ora! Crie o seu próprio modelo, imprima-o, carimbe-o e convença a alfândega do país para onde quer viajar a aceitá-lo! É suave! Sua operadora de celular está fazendo cobranças indevidas? Seu plano de saúde não quer cobrir uma despesa urgente? Não se faça de rogado: contrate o advogado, vá até um tribunal privado e peça justiça. Pague, depois, os honorários de quem o defendeu e os dos juízes, escrivães, ajudantes de ordens, auxiliares administrativos. E, se você perdeu, logicamente, pague as custas do advogado da empresa.

Raciocínio medieval

Estes são apenas alguns exemplos que costumo dar aos meus alunos da Graduação de Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie, quando pregam a desobediência tributária. É verdade que os brasileiros pagam muitos impostos, proporcionalmente, à péssima qualidade dos serviços públicos que recebem. É verdade que desanima (e muito), quando vemos que parte do nosso suado dinheiro é desviado por ladrões com foro privilegiado. É claro que estamos sendo roubados. Mas vamos aos fatos: o imposto, em si, não é um roubo. Desviá-lo ou sonegá-lo é que é.

O raciocínio de que o imposto é roubo remonta aos tempos em que o povo era governado por reis que, arbitrariamente, confiscavam parte de sua renda, fosse ela a colheita ou o dinheiro ganho. Naquela época, a desculpa era de que o produto recolhido pertencia ao rei, já que ele era proprietário das terras e de tudo o mais. Sim, era revoltante. Um homem livre que trabalhasse nos campos de um senhor, na Roma Antiga, por exemplo, lhe entregava cinco sextos (cerca de 80%) de sua produção. Era o sextanário. O mesmo princípio foi aplicado na Idade Média, com a talha, pela qual metade da produção ficava com o senhor feudal.

Caloteiro de condomínio

Mas, quando se trata de uma república, o que fazer? Por princípio, numa república, o poder emana do povo. Elegemos um “síndico” para tomar conta de nossos bens, que são representados por toda a infraestrutura e todos os equipamentos públicos (escolas, hospitais, delegacias, museus, centros de pesquisa etc). Isso ocorre, simplesmente, porque nós, os “donos” desses bens, não temos tempo para tocar a nossa vida e cuidar disso tudo.

Como todo síndico, o governo precisa de dinheiro para manter esses serviços – salários de funcionários, papelaria, instalações, contas etc. A “taxa de condomínio” que pagamos são os impostos. Sem eles, esse síndico não nos entregaria nada.

Sim, é verdade: ele nos entrega muito pouco. E o que entrega é uma porcaria. Mas o primeiro erro é se recusar a pagar o “condomínio”. O segundo é abrir mão de nossa cidadania e de nosso dever de fiscalizar, sem tréguas, quanto entra no caixa do governo, quanto gasta, no quê e por quê. Sonegar impostos é um ato tão criminoso, quanto desviar dinheiro público para enriquecimento ilícito ou para bancar caixa dois de campanha. O resto é chororô de militante de sofá, repassador de meme de Facebook, caloteiro de condomínio e bobo que enche o pato da Fiesp.

Aumento de impostos: enfim, chegou a hora de você pagar o pato!!

Márcio Juliboni
há 3 meses942 visualizações

Brasileiros não se cansam de cair, como patinhos, na conversa de quem quer usá-los para atingir seus próprios interesses

Aumento de impostos: enfim, chegou a hora de você pagar o pato!!
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(Foto: Márcio Juliboni)

Se há algo que os brasileiros não se cansam de provar é que gostam de ser tapeados. Na República dos Espertalhões, uma das mais poderosas bandeiras pelo impeachment de Dilma Rousseff foi a raivosa indisposição de contribuintes e empresários de pagarem mais impostos para cobrir os rombos das contas públicas. “Cidadãos de bem” foram à Avenida Paulista, com suas camisas verdes e amarelas, para tirar selfies com o pato-símbolo do protesto em frente à Fiesp – uma das entidades que lideraram o Fora Dilma e mãe do pato. Pois bem, parabéns! Menos de um ano após Michel Temer assumir, chegou a hora de você pagar o pato.

A partir desta quinta-feira (20), o governo fará você, cidadão, cobrir R$ 10 bilhões do buraco previsto no Orçamento deste ano. Como? Elevando impostos sobre o preço dos combustíveis, uma medida que não depende de aprovação do Congresso. Isto é, basta a canetada de Temer. Nos próximos dias, a equipe econômica também pode anunciar novas tungadas no seu bolso, como o aumento das alíquotas de IOF para operações de câmbio à vista (sim, aquela sua viagem à Disney ou a Bariloche ficará mais cara, paciência...) e para operações de crédito (isso, sim, atinge o povão que precisa de financiamento para tocar a vida, como o crédito rotativo do cartão).

Tudo porque Henrique Meirelles já avisou Temer de que a meta fiscal não será cumprida, se nada for feito. Não estamos falando de um governo que quer gerar superávit (isto é, fechar o ano com as contas públicas no azul), nem mesmo de ficar no zero a zero. Trata-se de uma meta já ridícula: chegar a dezembro com um rombo de R$ 139 bilhões. Ou seja, sem o dinheiro que a equipe econômica está tirando do seu bolso, a partir de hoje, o Brasil encerraria 2017 com um prejuízo de quase R$ 150 bilhões.

Pague mais, leve menos

Mas isso não é tudo. Além de cobrar mais impostos para sustentar os gastos já previstos neste ano, o governo também pretende promover um novo contingenciamento de recursos. Em bom português: reduzir gastos. Temer começou o ano segurando cerca de R$ 40 bilhões do orçamento. Agora, deve apertar ainda mais as despesas. É meritório? Sim e não. Sim, porque racionalizar os gastos e promover a eficiência da máquina pública deveria ser, sempre, a primeira opção de qualquer governo, antes de elevar a carga tributária. Não, porque não se vê reestruturação racional de despesas. Temer, pura e simplesmente, suspenderá os pagamentos, sem melhorar a gestão – o que geraria uma saudável e bem-vinda economia de recursos públicos.

Chegamos, então, ao seguinte ponto: os moradores do Edifício Brasil se rebelaram contra a antiga síndica, acusando-a de incompetência e corrupção. Disseram que não aceitariam, nem a pau, que o condomínio fosse reajustado para cobrir tamanha desfaçatez. Foram à varanda e bateram panelas dias seguidos, em protesto contra a administradora do prédio. O subsíndico, com o apoio dos condôminos (inclusive os proprietários da cobertura), assumiu a função com o compromisso explícito de não aumentar o boleto. Menos de um ano depois, em julho, sem precisar passar por nenhuma assembleia de moradores, o agora síndico... aumentou o condomínio, assinala com outro reajuste e já avisou que, diante do rombo nas contas do prédio, cortará despesas. Esqueçam a manutenção do elevador, por exemplo. No edifício Brasil, quem quiser subir, que vá pela escada de incêndio – e leve sua própria lanterna. As luzes de emergência não funcionam. Ninguém cumprimenta mais o síndico e finge que não apoiou sua eleição, mas as panelas continuam bem guardadas. Caíram como patinhos...

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!