Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Lava Jato: demonizar Janot não transformará corruptos em santos

Márcio Juliboni
há um mês4.7k visualizações

Políticos querem nos convencer de que, se o Diabo pecou primeiro, ninguém pode ser punido

Lava Jato: demonizar Janot não transformará corruptos em santos
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, descobriu do pior jeito que os bambus com que faz suas flechas estão cheios de farpas, a ponto de lhe espetarem os dedos sem saber, ao certo, onde estão cravadas. Marcelo Miller, um de seus assessores mais próximos, trocou a Procuradoria-Geral pela defesa da JBS. Como mostra de sua gratidão, a empresa forneceu novas gravações à Lava Jato em que o próprio Miller é citado como um aliado na Justiça. Nas conversas, a língua solta de Joesley Batista, um dos donos da JBS, alcança também o STF. Foi o suficiente para se armar o maior forrobodó em Brasília nos últimos dias. Do presidente Michel Temer e seus ministros ao Supremo, passando pelo Congresso, todos encontraram um belo motivo para pedir a cabeça de Janot. A gritaria geral, contudo, é apenas uma cortina de fumaça para desviar a atenção daquilo que realmente importa: demonizá-lo não transformará corruptos em santos.

Até agora, os argumentos mais fortes contra Janot e o acordo de delação premiada assinado com Joesley Batista e executivos da JBS seguem uma linha formalista do direito. Por esse raciocínio, se as provas foram coletadas de modo ilícito, então devem ser anuladas. No caso, a ilegalidade estaria no suposto envolvimento de Miller, que, ainda como procurador federal, teria orientado a JBS a gravar secretamente as vergonhosas conversas com políticos. Desse jeito, não valeriam nada num processo judicial.

É por esse caminho, que o advogado de Temer, Antônio Cláudio Mariz, seguiu em suas primeiras declarações após o próprio Janot afirmar, em coletiva à imprensa, que a JBS não havia entregue tudo o que sabia e, portanto, seu acordo de delação poderia ser cancelado. É por aí também que está indo o senador tucano Aécio Neves, gravado ao pedir R$ 2 milhões para Joesley. No Congresso, não é diferente. Romero Jucá, líder do governo no Senado, presidente do PMDB e investigado pela Lava Jato, afirmou que os parlamentares querem saber até onde vai “a armação” da JBS contra eles.

Dá pra confiar?

Uma segunda linha de ataque foca a própria reputação de Janot. Por aí, argumenta-se que Miller e o procurador-geral eram muito próximos e falar com um significava, na prática, falar com o outro. Logo, se Miller orientou deliberadamente a JBS a gravar as conversas, Janot teria dado a ordem ou, no mínimo, concordou com isso. Uma variação desse tema é mais perversa. Se Miller ganhou milhões, como alegam políticos, em pouco tempo ao assumir a defesa da JBS, quem garante que Janot não ficou com parte do dinheiro? Gilmar Mendes, que não faz questão de esconder sua bronca com Janot, é o representante desse pensamento no STF.

É claro que tudo isso é explosivo e há muita coisa mal explicada, a começar pelos motivos por que Joesley e a JBS enviaram novos áudios para a Lava Jato, sabendo que colocariam em risco seu acordo com a Justiça - aquele tão generoso, que nem uma tornozeleira para os delatores foi determinada. Janot errou? Janot foi enrolado pela empresa? Janot sabia e atropelou o rito processual? Janot sabia, atropelou o rito processual e ganhou dinheiro? Janot foi traído pelo auxiliar? Há mais perguntas do que se gostaria, a apenas 11 dias de seu mandato na PGR acabar.

Um erro anula o outro?

Mas, aqui da arquibancada, observando essa briga no campo, esse monte de pontapé, dedo no olho e pressão sobre o juiz, o que se pode dizer são duas coisas. Primeiro: se as gravações e o acordo de delação forem anulados por ferirem o rito processual, será a vitória do formalismo. Ninguém espera que a lei seja atropelada em busca de provas, mas o que se viu e ouviu nesses últimos meses não pode ser esquecido. Nenhuma sentença poderá ser dada com base nesse material, mas isso não significa que ele não seja testemunha de que muita coisa errada foi feita no país.

Segundo: mesmo que se prove que Janot errou, seja por incompetência, seja por má-fé, as evidências continuam falando por si. Temer recebeu Joesley fora da agenda para tratar de assuntos nada republicanos. Aécio pediu R$ 2 milhões ao empresário etc. etc. etc. Quem tenta anular a Lava Jato por esse caminho está, apenas, procurando apagar seus erros com base nos erros de outra pessoa. É como dizer que você não pode ser punido pelo Diabo, porque ele pecou primeiro. Enquanto isso, a Justiça queima lentamente em algum caldeirão do Inferno...

Estamos condenados a ser a República das Malas?

Márcio Juliboni
há um mês8.0k visualizações

Os brasileiros são simplesmente incapazes de seguir a lei, se não gostarem dela (e, geralmente, não gostam)

Estamos condenados a ser a República das Malas?
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Imagem: Jornal Hoje/YouTube/Reprodução)

Houve um tempo em que o maior escândalo era pegar um assessor parlamentar com dólares na cueca. Visto de hoje, o episódio parece um esquete de humor no pior estilo pastelão. Nos últimos meses, aprendemos que envelopes de tamanho ofício comportam R$ 200 mil e mochilas e malas de pequeno porte são ideais para transportar R$ 500 mil. Mesmo caixas de uísque podem ocultar propinas. O último exemplo do novo uso que os políticos encontraram para as malas ocorreu nesta terça-feira (5), quando a Polícia Federal encontrou oito delas, além de caixas de papelão, cheias de dinheiro atribuído a Geddel Vieira Lima, ex-ministro de Michel Temer, em um apartamento em Salvador. Até as 21h30, a equipe da PF já havia contado R$ 40 milhões. Será que o Brasil está condenado a deixar de ser uma República de Bananas para se tornar a República das Malas?

O senso comum diria que não. Basta que se combata a corrupção com pulso firme e que corruptos e corruptores sejam punidos com rigor, confirmando que ninguém está acima da lei, por mais alto que se encontre na escala de poder. É uma resposta razoável, claro, mas, infelizmente, esbarra num obstáculo fundamental e terrível: os brasileiros, simplesmente, são incapazes de seguir leis. Não... não se trata de implicância ou de crítica boba. Trata-se da constatação de um dos mais agudos observadores da nossa alma: o historiador Sérgio Buarque de Holanda.

De coração

Em seu clássico Raízes do Brasil, um livro que deveria ser leitura obrigatória nas escolas, Buarque de Holanda explica de onde vem a nossa atávica aversão a seguir leis e suas óbvias consequências. Primeiro, é preciso desfazer um grande engano, fruto da má interpretação de uma ideia fundamental do autor: o famoso “homem cordial”. Quando ele diz que os brasileiros são cordiais, não está, nem de longe, afirmando que somos bonzinhos, hospitaleiros e recebemos gringos com sorrisos, caipirinha, samba e futebol. Cordial, para Buarque de Holanda, quer dizer movido pelo coração. Ou seja: somos movidos pela emoção. Ou, segundo suas próprias palavras:

“Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. (...) Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. (...) Nada mais significativo dessa aversão ao ritualismo social, que exige, por vezes, uma personalidade fortemente homogênea e equilibrada em todas as suas partes, do que a dificuldade em que se sentem, geralmente, os brasileiros, de uma reverência prolongada ante um superior. (...) O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade. (...) Um negociante de Filadélfia manifestou certa vez a André Siegfried seu espanto ao verificar que, no Brasil como na Argentina, para conquistar um freguês tinha necessidade de fazer dele um amigo.”

Aos amigos, tudo; aos desconhecidos, o desprezo

Essa necessidade brasileira de estabelecer vínculos afetivos entre as pessoas, em vez de seguir normas abstratas de convívio social, como na Europa e na América do Norte, é baseada, segundo Buarque de Holanda, no espírito ibérico da Idade Média, que privilegiava os laços familiares sob o poder patriarcal.

As consequências disso são óbvias. Primeiro, em pleno século XXI, ainda somos incapazes de seguir leis, se não SENTIRMOS que elas são corretas (olhe aí a emoção julgando como devemos nos comportar). Eis por que há leis que “pegam” e leis que “não pegam” neste país. Segundo, não damos o devido valor à sociedade, pois preferimos estar entre nossos entes queridos (seja a família, sejam os amigos). Basta ver como a lei do silêncio é quebrada com irritante frequência. A confraternização com quem nos é querido se sobrepõe ao direito dos “não-amigos” ao descanso.

E, terceiro, se somos movidos pela emoção e privilegiamos laços de amizade, quem está fora do nosso círculo não merece crédito nem atenção. Assim, tudo o que é “público” é do “povo”, e se é do “povo” não é de ninguém. De jogar lixo na rua a roubar dinheiro público, as pessoas se sentem no direito de fazer o que bem quiserem. Afinal, o “outro” é só um desconhecido por quem não sentimos nada – nem simpatia, nem amizade, nem compaixão. Portanto, ele que se lixe. O importante é ser feliz – de preferência, repartindo malas de dinheiro entre os amigos e desrespeitando o direito dos outros.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!