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Lula falsificou recibos de aluguel? A pergunta que não quer calar

Márcio Juliboni
há 20 dias3.7k visualizações

Revirar as gavetas de Dona Marisa, em busca dos documentos, levou quase um ano – ô família bagunçada, hein?

Lula falsificou recibos de aluguel? A pergunta que não quer calar
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(Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula)

Luiz Inácio Lula da Silva, definitivamente, não se dá bem com imóveis. Depois de ser condenado a nove anos e meio de prisão por Sérgio Moro, por causa do tríplex do Guarujá, outro apartamento o atormenta. Trata-se daquele vizinho ao seu, no prédio onde mora em São Bernardo. A versão oficial é de que sua esposa, Marisa Letícia, o alugou para guardar coisas da família. Já a história contada pela força-tarefa da Lava Jato é outra: Lula é o seu verdadeiro dono, e o aluguel é só uma fachada. Nada mais simples do que apresentar o contrato, os recibos de aluguel, e cruzá-los com os depósitos na conta do alegado dono, não? Mas, na vida de Lula, nada é tão simples. A polêmica, agora, é sobre a autenticidade dos recibos apresentados pela sua defesa.

Falando claramente, há quem desconfie que Lula falsificou os documentos para sustentar sua versão dos fatos. Seria apenas uma paranoia de antipetistas ou de jornalistas que querem ver o circo pegar fogo, se não fosse por um elemento importante. Glaucos da Costamarques, o suposto proprietário do apartamento, afirmou a Moro que tudo não passou de uma farsa. Segundo o Estadão desta sexta-feira (29), Costamarques assinou todos os recibos num único dia, em novembro de 2015, enquanto estava internado no Hospital Sírio-Libanês.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República, em 2010, a Odebrecht bancou a compra do imóvel com dinheiro de propinas destinadas a Lula. Costamarques entrou apenas como laranja, atendendo a um pedido de seu primo, o pecuarista José Carlos Bumlai, amigão de Lula. Naquele dia de autógrafos no Sírio-Libanês, outro aliado do ex-presidente, o advogado Roberto Teixeira, teria garantido ao acamado que, dali em diante, o aluguel passaria, efetivamente, a ser pago.

Haja bagunça

A defesa de Lula, naturalmente, nega as declarações de Costamarques. O inegável, porém, é como esses recibos demoraram para aparecer. Em audiência, o próprio Moro perguntou a Lula, algumas semanas atrás, como esses papeis ainda não haviam aparecido, já que as suspeitas sobre o apartamento de São Bernardo se avolumam desde o ano passado. Não seria natural, portanto, que eles fossem apresentados o quanto antes? Lula tergiversou, fez piadas, mas não respondeu. Limitou-se a dizer que sua esposa, Marisa Letícia, morta no início do ano, é quem cuidava disso. Ao finalmente apresentar os documentos, a defesa do petista afirmou que estavam perdidos entre os pertences da falecida.

Pode ser que Lula seja apenas mal organizado. Pode ser que Dona Marisa fosse uma baita bagunceira. Mas, vamos lá: a não ser que ela fosse uma acumuladora contumaz de papeis, dessas psiquiatricamente diagnosticadas com problemas mentais, não é razoável pensar que seria necessário quase um ano para que se revirasse suas gavetas até encontrar os recibos de alugueis.

Se a documentação é falsa, como sustenta Costamarques, Lula não está apenas apelando para se salvar. Está cometendo um crime para se safar de outro. Como ele mesmo disse a Moro, quando se referiu ao bombástico depoimento de Antonio Palocci, o mal do mentiroso é que, depois da primeira, precisa contar sucessivas mentiras para escapar. Será que o ex-presidente estava falando com conhecimento de causa?

Escola é lugar de se ensinar tolerância, não religião

Márcio Juliboni
há 20 dias2.3k visualizações

Por trás do ensino religioso confessional, está uma confissão de incompetência: as igrejas já não conseguem atrair os jovens do modo tradicional

Escola é lugar de se ensinar tolerância, não religião
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(Foto: Márcio Juliboni)

Mais uma vez, o Brasil fez a mágica de estragar uma ideia boa. A vítima da vez é a liberdade religiosa, um princípio importante num Estado que se diz laico, isto é, que não possui religião oficial. Por 6 votos a 5, o STF rejeitou uma ação da Procuradoria-Geral da União, e liberou o ensino religioso confessional em escolas públicas. Com isso, os alunos passarão a ter aulas com professores que, assumidamente, seguem determinada crença. As entidades eclesiásticas comemoraram, com o argumento de que não se pode tirar, do aluno, o direito de aprofundar os conhecimentos em sua fé. E é aí que o bicho pega. Quem disse que a escola é lugar para isso?

O argumento de que fé se ensina do mesmo jeito que matemática e português é cheio de buracos. O primeiro, e mais gritante, é que há lugares em que se pode conhecer e cultivar uma crença com total liberdade e apoio: as igrejas, os templos, os terreiros etc. Se o aluno já sabe qual é a sua crença e tem dúvidas ou curiosidades sobre ela, nada melhor do que frequentar o catecismo, a crisma e a missa, no caso dos católicos, ou os cultos, no caso dos evangélicos e das religiões afro-brasileiras. Ler, ouvir, praticar seus ensinamentos e conversar com seus guias espirituais. Frequentar seus grupos de estudo. Engajar-se na comunidade que comunga de sua fé. É simples, gratificante e acolhedor.

Por trás da proposta, está implícita uma confissão de incompetência. As religiões, de um modo geral, simplesmente não falam mais a língua dos jovens e, portanto, são incapazes de atrair fieis. Neil Gaiman, o criador da cultuada série de graphic novel Sandman, foi muito feliz, quando escreveu que “os deuses morrem por falta de preces”. Seria possível acrescentar: e as igrejas fecham por falta de dízimos. Arrebanhar almas, para um padre ou um pastor, não é apenas uma missão sagrada. É questão de fechar as contas no fim do mês. É por isso que os críticos da decisão do STF afirmam que o ensino confessional, nas escolas, servirá, na prática, para arregimentar novos seguidores. Algo que as entidades religiosas negam, mas que não pode ser descartado a priori.

Vitrine do mundo

Para a maioria das pessoas, a escola é o primeiro lugar em que entram em contato com ideias diferentes das suas. Aprendem, na prática, que nem todos pensam, se vestem ou se comportam como elas. É uma representação, em miniatura, da sociedade. Os problemas de adaptação a esse universo – do bullying à violência, passando por intolerâncias em geral – também são um ensaio geral do que se encontrará lá fora. Por isso, a missão da escola não é apenas fazer o melhor “download” possível de disciplinas como Física, Química e História na cabeça dos alunos; é, também, ensinar os jovens a lidar com as diferenças, a compreendê-las e respeitá-las. Isso vale tanto para as diversas tribos (nerds, esportistas etc.), quanto para as religiões.

O ensino religioso, nas escolas, deveria ser ecumênico, para que os estudantes conhecessem diferenças e semelhanças entre os credos. O ideal seria promover mesas-redondas, seminários e debates em que representantes de várias religiões, lado a lado, falassem do que acreditam e de como construir um mundo melhor e plural. A decisão do STF vai na contramão do que o Brasil e o mundo precisam: incentiva os alunos a se fecharem em bolhas ungidas por sua própria fé, em vez de abençoá-los com uma visão mais ampla do mundo. Com isso, em vez de garantir a liberdade religiosa, dá espaço para mais sectarismo e incompreensão.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!