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Lula quer empresário como vice. Mas ele não é contra a elite?

Márcio Juliboni
há 2 meses3.5k visualizações

Se Josué Alencar for confirmado como vice de Lula, militantes petistas vão rebolar muito para atacar os grandes empresários, tendo um no palanque

Lula quer empresário como vice. Mas ele não é contra a elite?
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(Foto: Filipe Araújo/Fotos Públicas)

Desde que assumiu sua candidatura, Luiz Inácio Lula da Silva parece querer repetir, linha por linha, a estratégia que lhe garantiu a vitória em 2002. Estão lá as caravanas da cidadania, representadas pela viagem que faz pelo Nordeste neste momento, as promessas de inclusão social e de redenção dos mais pobres. Os ataques à elite econômica. Agora, Lula periga até mesmo ter José Alencar, seu vice-presidente, de volta. Ok, não em pessoa, mas na figura de seu filho, Josué Alencar, dono da Coteminas, uma das maiores tecelagens do país. Opa, opa, opa... empresário?!?! Mas o Lula versão 2017 não é contra a elite? Não vendeu o impeachment de Dilma Rousseff como um golpe da “elite branca de olhos azuis, em conchavo com a imprensa golpista”?

Há detalhes que tornam a escolha ainda mais contraditória. Primeiro, Josué é filiado ao PMDB, ex-aliado do PT e seu novo arqui-inimigo, após a ascensão de Michel Temer ao poder. Segundo o Estadão desta quinta-feira (24), isso é relativamente fácil de resolver: para integrar a chapa de Lula, Josué estaria de mudança para outro partido. Qual? Aqui, entra o segundo ponto engraçadinho: para o PR, legenda à qual seu pai era filiado. Comovente? Bastante. Marqueteiro? Idem. Mas também revelador: o PR é dirigido, entre outros, por Valdemar Costa Neto, condenado a sete anos e dez meses de prisão no escândalo do mensalão. Por que, Santo Deus, esse amor todo de Lula pelo PR?

Haja saliva pra explicar

Josué já é endossado publicamente por petistas de muitas estrelas. Jorge Viana, senador pelo Acre, afirmou ao Estadão que o empresário é o tipo de gente que o PT precisa atrair. Reginaldo Lopes, ex-presidente do partido em Minas Gerais, não tem dúvidas de que Lula e Josué estarão lado a lado no ano que vem. E o atual presidente do PR, Antonio Carlos Rodrigues, diz que é “o maior defensor da aliança com Lula”. Por que, Santo Deus, esse amor todo do PR pelo Lula?

Desconfianças sobre a pureza desse amor e passados sórdidos à parte, se Lula levar adiante a intenção de montar uma chapa com o filho de José Alencar, não realizará apenas uma reencenação burlesca do que foi sua primeira campanha vitoriosa ao Planalto. Confirmará, sobretudo, que foi incapaz de aprender com os erros dos governos petistas, apontados por estudiosos como André Singer, José de Souza Martins e Renato Janine Ribeiro. Qual é? O de selar uma aliança conservadora com tudo o que há de mais atrasado e deplorável na política brasileira, em troca de um pequeno espaço de aumento da qualidade de vida dos brasileiros, por meio da concessão de crédito e do acesso ao consumo de bens e serviços e de reformas graduais.

Como o tempo da política difere do dos pobres mortais, outubro de 2018 está a eras de distância do presente. Pode ser que tudo não passe de um grande balão de ensaio. Afinal, em política, nada é mais eficiente para abater um candidato do que expô-lo publicamente com o máximo de antecedência. Neste sentido, mencionar em voz alta o nome de Josué pode ser apenas um meio de colar um alvo em sua testa, a fim de tirá-lo do caminho o quanto antes. Mas, se essa aliança se confirmar, os militantes petistas terão dificuldades sobre-humanas para justificar como, caramba, atacam os donos do capital na TV, nas rodas de bares e nas redes sociais, enquanto seu líder desfila com um capitalista a tiracolo pelos comícios da vida. Como mudarão algo, no Brasil, repetindo a parceira pegajosa que arrastou o partido e o país para o buraco?

Além da Eletrobras, é hora de privatizar a Petrobras e os Correios

Márcio Juliboni
há 2 meses2.4k visualizações

Dizer que as estatais são estratégicas para o país é apenas uma mentira para ocultar interesses mesquinhos de seus “donos”

Além da Eletrobras, é hora de privatizar a Petrobras e os Correios
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(Foto: Felipe Dana / Agência Petrobras)

Michel Temer resolveu fazer uma coisa certa, por vias tortas. Devido à absoluta falta de dinheiro, o governo decidiu privatizar parte da Eletrobras, a jurássica estatal responsável por parte da geração e transmissão de energia no país. Ficarão de fora, apenas, a Eletronuclear (responsável por Angra) e a binacional Itaipu. Há uma dupla vantagem na iniciativa. A primeira e mais imediata é obter dinheiro. Estima-se que a fatia da empresa em poder da União alcance R$ 12 bilhões. A segunda é a economia no longo prazo. O próprio Ministério de Minas e Energia estimou que a má gestão da Eletrobras rendeu perdas de R$ 250 bilhões nos últimos 15 anos – o equivalente a R$ 83 por ano para cada brasileiro, ou R$ 1.250 no total. É uma atitude louvável. Seria ainda mais, se o pacote de privatização incluísse a Petrobras e os Correios.

Primeiro, o papel do Estado não é ser empresário, nem dono de meios de produção. Um Estado moderno promove o desenvolvimento de outras formas. Atrai investimentos, incentiva a liberdade de empreender, supervisiona, corrige e pune os excessos do mercado. A receita arrecadada com taxas e impostos é (ou deveria ser) utilizada para melhorar o bem-estar geral, nas áreas em que a iniciativa privada não tem interesse em atuar ou são socialmente estratégicas: saúde, educação, segurança etc. A ideia de que o Estado deve produzir algo é um arcaísmo dos tempos do Absolutismo, quando o rei participava diretamente do lucro da exploração ultramarina, por meio de concessões a companhias de comércio.

Nem Keynes gosta tanto

Mesmo Keynes, ao buscar saídas para a crise de 1929, observou que o Estado só deve assumir funções produtivas em último caso, para incentivar demanda e, a partir daí, limitar-se a corrigir desequilíbrios e atuar como um moderador do apetite desenfreado de alguns empresários mais saidinhos. Já naquela época, o papel nobre do governo era estimular investimentos produtivos, como em infraestrutura, gerando empregos e pagando salários que, depois, retornariam duplamente: as obras melhorariam a competitividade do país, e os salários fariam a economia girar.

Logo, em nenhum manual de economia, justifica-se que o governo precise controlar os poços de petróleo, a geração de energia e a troca de cartas. Em vez de defender com unhas e dentes a Petrobras, o ideal seria livrar-se dela e investir recursos em fontes renováveis de energia, como a eólica, a elétrica, a solar etc. Em 2010, a Agência Internacional de Energia já alertava que o pico de produção e consumo de petróleo ocorrerá por volta de 2035. Depois disso, as reservas entrarão em declínio. É provável que, na virada do século, o mundo esteja se movendo com outras fontes de recursos. Assim, enquanto empresas e governos mais avançados investem recursos em carros elétricos e outras inovações, o Brasil se prende ao passado apenas por motivos corporativistas (os sindicatos dos petroleiros) e fisiológicos (os cabides de emprego e a corrupção que a Petrobras rende a partidos de todos os matizes).

Bem público, usufruto privado

O monopólio dos Correios é outra prova de um país com mentalidade atrasada. Historicamente, o controle estatal de correspondências fazia sentido num mundo em que a troca de documentos era física. Papeis confidenciais circulavam pelo território nacional e alhures e o risco de caírem em mãos erradas era real. Mas estamos falando de uma era pré-internet. Hoje, as informações realmente importantes para o governo circulam em meios eletrônicos. É com a segurança da informação digital que o Brasil deveria se preocupar, e não com o envio de malas diretas promocionais de empresas de dieta. Um exemplo claro foi o escândalo causado pela revelação de que os EUA andavam espionando Dilma Rousseff e seus ministros. Os americanos não precisaram subornar carteiros para isso. Bastou dominar a internet.

O fato é que, há muito tempo, a história de que manter estatais é estratégico para a soberania nacional é apenas uma mentira vendida com alarmismo para ocultar as más intenções de quem se fez de dono delas: políticos, sindicalistas e aspones em geral. Mal geridas, inchadas, ineficientes, as estatais servem apenas a interesses espúrios, criminosos e reprováveis – de acomodar apadrinhados políticos a ser fonte de desvio de verbas para caixa dois de campanhas e enriquecimento ilícito. Atendem a todos os tipos de interesses – menos ao único que importa: o dos brasileiros que esperam um governo digno, que lhes preste os serviços e a assistência que merecem.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!