Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Maracutaia, a verdadeira capital do Brasil, e o acordão para salvar Temer

Márcio Juliboni
há 3 meses983 visualizações

Os políticos eleitos por Maracutaia são péssimos, mas o mais triste, o mais aterrorizante, é seu povo. É com ele que temos que nos preocupar

Maracutaia, a verdadeira capital do Brasil, e o acordão para salvar Temer
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

Esqueçam Brasília. A verdadeira capital do país, desde seu descobrimento, é Maracutaia. Brasília é apenas uma grande cidade cenográfica. Nela, encenam-se histórias de indignação com as relações pornofinanceiras entre políticos, empresários, doleiros e atravessadores em geral. Mas é em Maracutaia que os verdadeiros rumos do Brasil são traçados e executados. É dela que saiu o acordão para salvar Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara nesta quinta-feira (13).

Como uma ilusão de óptica, Maracutaia está na nossa cara e não a vemos. Apenas sentimos seus reflexos no mundo visível: o desvio bilionário de dinheiro público, o abandono dos mais pobres, a deterioração revoltante dos serviços públicos, a burocracia enlouquecedora, os impostos criminosos, a perpetuação de “famiglias” e facções criminosas no poder, as decisões espantosas da Justiça e, sobretudo, a crise moral, econômica e social que entranha na alma como reumatismo.

Hábitos e costumes dos maracutaianos

O motivo é que Maracutaia foi habilmente projetada e construída sobre Brasília como uma holografia – como esses selos holográficos de CDs e DVDs. Olhe de um jeito, e você enxergará a cidade projetada por Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Olhe de outro, e verá os contornos de Maracutaia. Assim como a luz possui vários comprimentos de onda invisíveis aos olhos humanos, como o infravermelho e o ultravioleta, Maracutaia só é perfeitamente perceptível sob a luz negra. Sob ela, tudo se revela: Maracutaia é o paraíso das felações premiadas.

Petistas fornicam com empreiteiros, tucanos se amasiam com juízes do STF, sindicalistas calam-se em troca de dinheiro, novos “líderes populares” se candidatam por partidos comprovadamente corruptos (e posam para fotos com mestres em saquear a República), “cidadãos de bem” guardam as bem areadas panelas de aço inox diante da corrupção de seus bandidos de estimação. Os movimentos sociais “de esquerda” se lambuzam com dinheiro e cargos públicos.

A cor preferida em Maracutaia

Mas o mais triste, o mais aterrorizante, o que causa mais revolta e perplexidade, é o povo de Maracutaia. Sob os comprimentos visíveis da luz, suas camisetas são verdes, amarelas, vermelhas. Mas, sob a reveladora luz negra, todas são da mesma cor: o pastoso “cinza-cúmplice”. A indignação raivosa e teatral que encenam em Brasília e nas grandes cidades não dá conta de todas as suas nuances: a sonegação cotidiana de impostos, a pirataria de produtos, o desrespeito aos direitos (quaisquer direitos – da vaga para deficientes à lei do silêncio, passando por furar filas), a carteirada para obter privilégios e intimidar os menos favorecidos, as puxadas de tapete no trabalho em busca de promoções, as mentiras e traições conjugais, os preconceitos de cor, raça, gênero, religião, o desprezo pela educação e pela cultura...

As interferências cada vez mais explícitas de Maracutaia na realidade visível, seja em Brasília ou em qualquer parte do país, não têm nada de espantosas. É apenas uma questão demográfica: a população de Maracutaia cresce muito mais rapidamente que a do Brasil. Os deputados que participaram do acordão para salvar Temer na CCJ são uma minúscula parcela de seus cidadãos. Outros tantos deverão se assanhar em salvar a pele do presidente no plenário da Câmara no início de agosto. Mas a grande maioria dos maracutaianos está nas ruas, tocando sua vida de pequenos golpes e espertezas, orgulhando-se de seus jeitinhos, como se a impunidade fosse eterna. É com eles que temos que nos preocupar.

O PT condenaria FHC, Temer e Aécio com base em delações?

Márcio Juliboni
há 3 meses849 visualizações

Se delação não é prova e as provas nada provam, por que os adversários de Lula deveriam ser condenados?

O PT condenaria FHC, Temer e Aécio com base em delações?
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

No clássico livro 1984, George Orwell inventa uma palavra (doublethink) que foi vertida para o português como duplipensar. Trata-se de um achado: a capacidade de afirmar e negar uma ideia ao mesmo tempo. Sempre que vejo petistas falando da Lava Jato, tenho certeza de que o duplipensar existe mesmo – e que o PT se tornou um mestre em novilíngua. O partido é capaz de usar os mesmos fatos e os mesmos princípios para condenar qualquer um que se oponha ao seu projeto de poder, ao mesmo tempo em que inocenta Lula e a companheirada de qualquer pecado.

Seu argumento fundamental é de que delações premiadas não são provas. É necessário apresentar evidências materiais para corroborá-las. Em que pese que delação sem provas é falso testemunho (com razão), sempre que se avança com outros elementos (planilhas, fotos, gravações, imóveis, transações financeiras), os petistas insistem: as provas não provam nada. São circunstanciais. São paranoia e fixação dos procuradores. São armação etc.

Teste de lógica

Mas vamos a um pequeno exercício de lógica que adoro propor aos meus amigos petistas (eu ainda os considero amigos; não sei se a recíproca é verdadeira). Troque Lula por Fernando Henrique Cardoso; o sítio de Atibaia pela chácara do tucano em Ibiúna; o triplex no Guarujá pelo apartamento em Higienópolis. Imagine que foi o filho de FHC, e não o de Lula, quem recebeu um belo monte de dinheiro para montar um torneio de futebol americano e apresentou um trabalho baixado da internet para justificar uma “consultoria de marketing esportivo”. Pense que o Instituto FHC, e não o Instituto Lula, é acusado de ocultar um terreno pago pela Odebrecht para ser a sua futura sede.

Imagine, ainda, que as planilhas do departamento de propinas da Odebrecht apontam uma conta chamada “Mestre”, e não “Amigo”, que contém milhões de reais. Em depoimento a Sérgio Moro, Marcelo Odebrecht, um delator assumido, afirma que a planilha “Mestre” representa o dinheiro reservado a FHC e era movimentada por seu ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan, cujo codinome era "Real". Depois, a conta passou para Armínio Fraga, sob o codinome "Pós-Real". Ao mesmo tempo, vem à tona uma foto do tucano com o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, na porta de um apartamento de cobertura em Higienópolis. O zelador afirma, em juízo, que FHC e seus familiares frequentavam o local. É demitido e se lança candidato a vereador.

Léo Pinheiro afirma, em juízo, que o imóvel é do ex-presidente. Sua defesa, no entanto, nega. Diz que não poderia sê-lo, já que foi dado em garantia pela OAS para dívidas. Diante de Moro, FHC afirma que esteve lá apenas uma vez, porque Léo Pinheiro era praticamente um corretor de imóveis querendo empurrar um apartamento “Minha Casa, Minha Vida” para ele. E que seria melhor perguntar detalhes à sua falecida esposa, Ruth Cardoso, que era a verdadeira interessada no apartamentão.

Vale para todos?

Agora, troque tudo isso por Aécio Neves, apartamento no Rio de Janeiro, fazenda em Cláudio, e o codinome “Mineirinho” (que consta, efetivamente, das planilhas da Odebrecht apresentadas à Lava Jato). Ou por Michel Temer (codinome "Sem Medo" na Odebrecht), reforma da casa da filha em São Paulo, mala de dinheiro de Rodrigo da Rocha Loures, gravação de conversa com Joesley Batista no escurinho do Jaburu. Com o adendo de que, efetivamente, Loures resistiu estoicamente a revelar quem era o destinatário dos R$ 500 mil em sua mala. Logo, só há uma “ilação” (como os advogados de Lula gostam de dizer) sobre quem era o Lorde Sith do caso.

Agora, convenhamos: alguém duvida de que os petistas, quaisquer petistas, não pensariam um segundo antes de condenar, nas ruas, nas redes sociais, nos botecos da Vila Madalena, FHC, Aécio e Temer? Não precisamos pensar muito para sabermos a resposta – muito menos, duplipensar...

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!