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Meirelles é um “excelente candidato” a presidente para quem?

Márcio Juliboni
há 22 dias1.8k visualizações

Entre o mercado e o Planalto, há um tal de povo, insatisfeito com a crise e com os remédios propostos

Meirelles é um “excelente candidato” a presidente para quem?
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No mercado de peixe em que está se transformando a eleição de 2018, com muita gritaria e mau cheio no ar, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, já não esconde seu desejo de também disputar a Presidência. Fala e é apontado, cada vez mais, como alguém com potencial. Quem o apoia afirma que Meirelles é o maior responsável pelos primeiros e débeis sinais de retomada da economia, com a inflação e os juros baixos e a geração de empregos saindo do vermelho. O último a lhe fazer um rapapé foi Romero Jucá, presidente do PMDB e líder do governo no Senado. Nesta terça-feira (26), Jucá declarou que o ministro é um “excelente quadro” para a Presidência por qualquer partido que disputasse. Mas... é mesmo? Para quem?

A resposta mais óbvia é que Meirelles agrada àquela entidade sobrenatural chamada mercado, um ser que paira sobre nossas cabeças e é mantido pelas preces de empresários e investidores brasileiros e estrangeiros. Num governo que se afoga em escândalos político-criminais, o ministro é o único alento do empresariado, para quem Meirelles é praticamente um Hércules lutando contra a hidra do fisiologismo que garante a permanência de seu chefe, Michel Temer, no Palácio do Planalto. As dificuldades para aprovar as reformas vão ao limite, diante da fraqueza política do presidente, e o grande capital põe na conta deste, e não de Meirelles, o fato de que ainda não tenham saído do Congresso.

Ruim de papo

Mas o Brasil não é habitado apenas por banqueiros, investidores e empresários. Há aquela parcela numerosamente incômoda – um tal de povo. Anônimo, sente na pele e no bolso a crise econômica, o desvio de dinheiro público para a corrupção, a falta de perspectivas e se ressente de arcar com a maior parte do prejuízo causado por Brasília, sempre que o governo tenta ajustar as contas públicas, seja aumentando impostos, seja cortando gastos. O povo não fala economês, não se preocupa com ajustes atuariais na Previdência, nem está convencido de que as medidas adotadas por Meirelles são as necessárias.

E é aí que a coisa toda entorta. Para ser competitivo e, sonhando alto, vencer a eleição, Meirelles terá de explicar, em português, o que pretende fazer para tirar o país da crise. Seu primeiro desafio será, portanto, de comunicação. Acostumado a falar para ouvidos refinados em ambientes climatizados, Meirelles não é, nem de longe, um grande comunicador, e isso pesa muito nestes tempos de vídeos, podcasts, redes sociais, streaming e, claro, televisão, rádio, jornais etc. O ministro não chega a usar mesóclises, como Temer, mas está longe de se fazer entender pelo cidadão médio.

Advogado do diabo

Sua segunda desvantagem: se, e coloque um “se” com muitas ressalvas, Meirelles conseguir encontrar um modo de falar com o povão que não seja nem caricato, a ponto de todos saberem que ele está forçando a amizade, nem técnico demais, a ponto de só o mercado o entender, virá a segunda e mais difícil etapa – explicar como medidas impopulares merecem apoio popular. No melhor cenário, o ministro entrará na disputa com a reforma da Previdência já votada e aprovada por Temer. No pior, terá que dar a cara a tapa e assumir que a fará. Trata-se de um tema de alta octanagem, capaz de incendiar debate e humores. Como explicar que os brasileiros demorarão mais tempo para se aposentar? E, pior, como justificar os privilégios de castas públicas que saírem intactas do processo? O mesmo vale para a reforma trabalhista. Ainda que Temer as aprove e poupe Meirelles do bombardeio de propô-las, o ministro ainda será lembrado em debates e peças publicitárias, como o responsável por elas. Será apontado como seu tenebroso mentor intelectual. E isso não é pouca coisa.

Outro obstáculo concreto à sua candidatura é sua ligação com Luiz Inácio Lula da Silva e com Michel Temer. Foi presidente do Banco Central, durante os dois governos de Lula. Caiu nas graças do petista, a ponto de ser cotado para salvar Dilma Rousseff da ruína, com o apoio explícito de seu padrinho político. Depois, aceitou o pepino de desempepinar a economia, como ministro de Temer – o mais impopular presidente de que se tem notícia. Defendê-lo será queimar o filme já na largada. Atacá-lo será cuspir no prato em que comeu. Ignorá-lo será impossível. Temer é tão radioativo, quanto Lula, para candidatos apoiados por eles.

Será preciso um esforço monumental de marketing político para que Meirelles consiga a proeza de se eleger com aquele famoso discurso de pais e mães: “hoje, parece ruim, mas, um dia, vocês me agradecerão pelo que fiz”. Se nem os filhos modernos gostam desse papo, imagine os eleitores.

EUA, Alemanha, Brasil... as democracias estão se suicidando?

Márcio Juliboni
há 23 dias2.9k visualizações

Países brincam de roleta-russa com o autoritarismo a cada eleição, mas é possível parar a tempo

EUA, Alemanha, Brasil... as democracias estão se suicidando?
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(Imagem: Euronews/Reprodução/YouTube)

Dois fatos deste fim de semana ainda repercutem pela imprensa nesta segunda-feira (25). O primeiro é o confronto entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e os jogadores da NFL, a liga de futebol americano. Na maioria dos jogos, os atletas protestaram contra o racismo mais ou menos descarado dos eleitores de Trump. Em troca, o republicano disparou uma saraivada de tuítes exigindo que os clubes demitissem quem se manifestou. Seu argumento era de que não se tratava de um ato contra a discriminação racial, mas de uma afronta à bandeira americana. O segundo episódio foi o avanço da extrema-direita na Alemanha. Pela primeira vez, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, um partido neonazista ocupará acentos no parlamento alemão. E não serão poucos: a AfD (Alternativa para a Alemanha) ficou com 94 cadeiras, formando a terceira maior bancada.

A grande contradição disso tudo é que o avanço do obscurantismo político ocorreu por vias democráticas, tanto nos Estados Unidos, quanto na Alemanha. Também passou raspando nas eleições francesas, quando Marine Le Pen deixou a Europa e o mundo de cabelos em pé, antes de ser derrotada por Emmanuel Macron. A maioria dos analistas políticos concorda que, se Macron não fizer um bom governo (e parece que não está), Le Pen tem tudo para dar o troco em 2022. Diante de tudo isso, a dúvida é: as democracias são suicidas? Ou, pelo menos, as democracias atuais arriscam se matar?

Parece, mas não é

Para o cientista político Giovanni Sartori, um dos maiores especialistas em democracia do mundo, o primeiro erro é supor que todas as democracias sejam iguais. O segundo, mais grave, é acreditar que todos os governos que se dizem democráticos o sejam, de fato (basta ver no que se transformou a Venezuela). Para Sartori, vivemos numa era de “democracia confusa”, em que a mesma palavra é capaz de designar sistemas completamente opostos. Além disso, esse é o único sistema, segundo Sartori, em que realidade e ideal se relacionam intimamente. A democracia é, ao mesmo tempo, uma experiência real (votamos, criamos leis, depomos presidentes etc.) e um ideal (sempre buscamos melhorá-la, incorporando mais gente).

Mas o principal problema é tão antigo, quanto a própria ideia de democracia. Trata-se do risco de “tirania da maioria versus o direito da minoria”. Desde que os gregos se reuniam nas praças das cidades-Estados até hoje, esse é o equilíbrio mais delicado do sistema democrático. Um sistema verdadeiramente aberto deve garantir o direito de oposição. Não é à toa que a liberdade de expressão é tão cara aos americanos, por exemplo. A maioria não pode, simplesmente, esmagar e calar a minoria, e esta é uma preocupação desde os tempos de Aristóteles, passando pelos constitucionalistas americanos.

Entre a vida e o voto

Mas o que fazer, quando os eleitores dão 13% das cadeiras do parlamento alemão a neonazistas? Ou quando Trump é eleito presidente e choca até mesmo republicanos? No livro “A Teoria da Democracia Revisitada” (Ed. Ática), Sartori dá uma dica: não podemos ser reducionistas. A democracia eleitoral é apenas um processo de seleção de representantes. Há outros tipos de democracia. Uma delas é a democracia social, que não deve ser confundida com social democracia. Segundo o cientista político, sua principal característica é a ideia de que nenhum homem vale menos que outro. Isso é bastante diferente de afirmar que cada homem vale um voto. O que a democracia social defende é que cada pessoa deve merecer a mesma dignidade de vida que as demais. Quando o governo se esquece desse princípio básico, os ignorados encontram meios de serem ouvidos.

Um deles é eleger representantes, por mais horripilantes que sejam. Não é por acaso, portanto, que Trump foi eleito, sobretudo, com votos de uma classe média masculina branca, de ensino médio, moradora dos rincões dos Estados Unidos. Esse foi o grupo que mais perdeu na era globalizada de Barack Obama (ou, pelo menos, diz que perdeu). Não é gratuito, também, que o avanço dos neonazistas alemães foi sustentado pelos Estados da ex-Alemanha Oriental. Desde a reunificação, trata-se da parcela mais pobre do país e, por isso, a que se enfurece mais com a disputa de vagas com imigrantes acolhidos por Angela Merkel.

As democracias estão, portanto, se suicidando? Ainda não, mas correm o risco. Se os países se acomodarem com a visão simplista de que democracia é apenas um sistema eleitoral, brincarão de roleta russa a cada pleito – e, um dia, a bala será disparada contra a própria cabeça. Mas, se compreenderem que a democracia também envolve outras dimensões, como um esforço deliberado para melhorar as condições de vida de todos, aliviando ao máximo o impacto de mudanças demográficas, tecnológicas e econômicas, talvez haja esperança. A exclusão social gera tanto radicais muçulmanos prontos a se explodirem em metrôs da Europa, quanto militantes da Klu Klux Klan, ou neonazistas alemães.

Votar é um ponto fundamental da democracia, mas não é o único. Sentir-se inserido na sociedade é a melhor forma de evitar que uma parte da população se revolte e escolha, democraticamente, escolher um governo autoritário para se fazer ouvir. É claro que isso vale para o Brasil de 2018.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!