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Não idolatrem os militares: a lição da “Lava Jato” que investiga a PM de SP

Márcio Juliboni
há 15 dias6.0k visualizações

É pedagógico que um esquema de corrupção de R$ 200 milhões, envolvendo militares, ocorra num dos Estados que mais apoiam a intervenção

Não idolatrem os militares: a lição da “Lava Jato” que investiga a PM de SP
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(Foto: Uchôa Silva/Agência Fotos Públicas)

No fim de setembro, uma enquete do Instituto Paraná Pesquisas revelou um dado alarmante: 43% dos 2.540 entrevistados apoiam uma intervenção militar temporária (seja lá o que entendam por temporária) no Brasil. É verdade que outros 51% são contrários, mas é preciso destacar dois pontos. O primeiro, reconhecido pelo próprio instituto, é que a diferença entre intervencionistas e não-intervencionistas é pequena – apenas oito pontos percentuais. O segundo é que ela vem caindo rapidamente. Em dezembro do ano passado, 35% dos brasileiros apoiavam a intervenção, segundo o Paraná Pesquisas. O principal argumento (??!!) de quem a defende é que, sob um governo militar, a corrupção seria definitivamente extirpada do país. Só se pode dizer uma coisa sobre isso: trata-se de um profundo engano. Está aí a Operação Imperador, apelidada de “Lava Jato da PM”, para desmentir a ideia de fardas transformam pessoas em modelos angelicais de honestidade e retidão.

Deflagrada pelo Ministério Público Estadual de São Paulo, a Operação Imperador investiga um esquema de fraudes e desvio de dinheiro público na cúpula da Polícia Militar paulista. Estima-se que os desvios cheguem a R$ 200 milhões. No centro das investigações, está o coronel Álvaro Camilo, comandante-geral da PM entre 2009 e 2012 e atual deputado estadual pelo PSD – aquele partido criado pelo ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab para “não ser nem de esquerda, nem de direita”. Abaixo de Camilo, estava o tenente-coronel José Afonso Adriano Filho, que está preso desde março e negocia uma delação premiada com os procuradores estaduais. Adriano Filho chefiava o Departamento de Suporte Administrativo (DSA), responsável por contratos de manutenção das instalações da PM.

Se falar, morre

Os procuradores acusam a cúpula da PM de desviar dinheiro público, mediante contratos de prestação de serviço com empresas de fachada. Uma delas seria a Construworld, que fechou 207 negócios com a PM no período. Embora a empresa esteja em nome de Márcio Luiz dos Santos, o comerciante alega que seu verdadeiro proprietário é Adriano Filho, que o teria ameaçado de morte, caso não ficasse quieto. A declaração foi dada por Santos em maio à Justiça Militar. Agora, Adriano Filho quer provar que apenas cumpria ordens de Camilo, o então comandante-geral. Até o momento, segundo o Estadão, 16 policiais foram indiciados e dois processos já foram abertos. A Operação Imperador analisa 5 mil contratos de 523 empresas.

Não deixa de ser pedagógico que o esquema seja investigado em São Paulo, um dos Estados em que há mais gente defendendo a intervenção e idolatrando os militares. É justamente essa viseira ideológica que os corruptos fardados adoram: a predisposição à idolatria cega facilita muito os malfeitos, simplesmente porque há menos gente vigiando. E quem denuncia é atacado caninamente como petralha, comunista, encrenqueiro etc.

Agora me diga, caro intervencionista: o que o leva a pensar que os militares não trocarão a corrupção civil pela corrupção fardada? Como já escrevi neste mesmo espaço do Storia, é falsa a sensação de que não havia fraudes e corrupção durante a ditadura. Da mesma forma como Adriano Filho impôs o silêncio a Santos, jurando-o de morte caso denunciasse o esquema, a corrupção fardada intimidava, perseguia e matava quem ousasse desafiá-la. A falta de denúncias não refletia um governo puro e honesto. Era apenas a velha força bruta calando os mais fracos para que os mais fortes enriquecessem desavergonhadamente.

Jovens saudosistas

Se há alguma dúvida ainda, olhe para o que ocorreu com as Unidades de Polícia Pacificadora no Rio de Janeiro. Ao expulsarem os traficantes das comunidades cariocas, policiais civis e militares se fizeram de donos delas, criando as milícias que tristemente achacam e amedrontam os moradores. Quanto armamento e munição são roubados dos paióis das casernas, sob o nariz dos comandantes, e vão parar nas mãos do crime organizado? Quantos policiais civis e militares são pegos em sociedades com os criminosos?

O Paraná Pesquisas constatou um dado igualmente alarmante: a maior taxa de apoio à intervenção militar está entre os jovens de 16 a 24 anos (46%). A faixa etária menos favorável à ideia é a acima de 60 anos, com 37% de apoiadores. É um sinal claro de que os jovens estão idealizando um Brasil que nunca existiu – um Brasil vendido pelos intervencionistas como puro, honesto e ordeiro. Quem realmente viveu sob o regime militar tem uma visão bem menos romântica. Infelizmente, se não pararmos a tempo, esses jovens de hoje serão os portadores das cicatrizes de um novo ciclo autoritário no país. Só saberão o que fizeram, quando tiverem 60 anos. 

É hora de perguntar: Bolsonaro sonha com um autogolpe?

Márcio Juliboni
há 16 dias2.5k visualizações

Não dá para confiar nos valores democráticos de quem pede palmas para um general que defende a intervenção militar

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(Foto: Divulgação/Página Oficial de Jair Bolsonaro/Facebook)

Se o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) quer, mesmo, ser levado a sério como candidato à Presidência, precisa responder algumas perguntas cruciais. Uma delas é se, uma vez no Palácio do Planalto, cairá na tentação de promover um autogolpe com o apoio de parte das Forças Armadas, sob o pretexto de purificar a política brasileira de toda a porcalhada descoberta pela Lava Jato. E é preciso que responda a essa questão com toda a clareza. Em tempos normais, seria impensável cogitar que um presidente democraticamente eleito buscasse se autoproclamar ditador, mas o Brasil está longe de viver tempos normais. Primeiro, porque estamos vivendo uma crise política sem precedentes. Segundo, porque Bolsonaro nunca escondeu sua admiração pela ditadura e por seus carrascos.

A mais recente demonstração pública foi dada, por ele, em Belém nesta quinta-feira (6). Ao ser recebido por admiradores no aeroporto local, Bolsonaro discursou sobre um carro de som. Seria uma cena normal de campanha, se não fosse por uma passagem horripilante. Lá pelas tantas, o ex-capitão do Exército pediu uma salva de palmas para o general Antonio Hamilton Mourão, aquele que defendeu, há alguns dias, uma intervenção militar, caso os políticos e a Justiça sejam incapazes de livrar o Brasil da corrupção. Se a declaração de Mourão já pegou mal, imagine o que pensar de um candidato a presidente que o aplaude com entusiasmo?

Por acaso, Bolsonaro se esqueceu de que, se chegar ao Planalto, será graças à democracia, e não apesar dela? Ou será que o pré-candidato apenas a tolera como um modo prático de conquistar o poder? Exagero histérico de um jornalista petralha? Nem de longe: Bolsonaro já elogiou publicamente o coronel Ustra, notório torturador dos anos de chumbo. Já afirmou que o maior erro dos governos militares foi apenas torturar, e não matar, os presos políticos. Defende abertamente o fim do Estatuto do Desarmamento e, por tabela, quer que os brasileiros possam se armar. Convenhamos: Bolsonaro está longe de inspirar democracia.

Com as armas do inimigo

Neste caso, concorrer democraticamente ao Planalto seria apenas um movimento tático (bem ao gosto dos exercícios de guerra), dentro de uma estratégia maior: o de erradicar todos os corruptos, todos profanadores da moral, todos os divergentes. Pela visão autoritária do presidenciável, a crítica e a oposição não passam de ruído. São uma perturbação à marcha do Brasil rumo ao progresso ordeiro. Tal como uma tropa, não há lugar para os fracos, para os que hesitam, para os que param no meio do deslocamento para pensar.

Tal como o militar que é, só há uma saída: gritar com aqueles que bagunçam a marcha. Intimidar quem não bate os pés no mesmo ritmo que os demais. Coibir quem não saúda a autoridade a plenos pulmões. Como lidar com os dissidentes? Nas Forças Armadas, é fácil: basta expulsá-los com requintes de humilhante desonra. Mas, como reproduzir isso na política? Como transformar o Brasil numa caserna ordeira e bovinamente submissa à autoridade? Trocando a faixa presidencial pela farda? Seria derrotar a democracia, utilizando suas próprias armas – os votos dos brasileiros.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!