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Não se anime: o crescimento do PIB ainda é de má qualidade

Márcio Juliboni
há 2 meses2.8k visualizações

Não foi o Brasil que cresceu, na comparação com um ano atrás; foi o agronegócio

Não se anime: o crescimento do PIB ainda é de má qualidade
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(Foto: Pedro Revillion/ Palácio Piratini)

Há um certo frenesi em relação aos resultados do PIB (Produto Interno Bruto) divulgados nesta sexta-feira (1) pelo IBGE. Em comparação com o primeiro trimestre, o Brasil cresceu 0,2% entre abril e junho. Já em relação ao segundo trimestre de 2016, a alta foi de 0,3%, interrompendo uma sequência de 12 quedas. Que o governo festeje, já era esperado. Faz parte do jogo de cena político. Que a imprensa destaque, faz parte. Afinal, trata-se de um número relevante. Mas ainda é muito cedo para cantar, a plenos pulmões, que saímos da crise. O motivo é simples: essa alta do PIB é sustentada por maus fundamentos.

O cálculo do PIB considera duas partes que devem chegar ao mesmo resultado: a da oferta e a da demanda. Na primeira, entra tudo o que foi produzido no país, bem como os serviços prestados. Na segunda, entra tudo o que foi consumido. Vejamos, então, o lado da oferta, isto é, de quem produz alguma coisa por aqui. Na comparação com o primeiro trimestre, dos três setores (agropecuária, indústria e serviços), apenas o de serviços cresceu: míseros 0,6%. A indústria, coitada, continuou em queda livre, com recuo de 0,5%. A agropecuária, que carregou o Brasil nas costas nos últimos tempos, simplesmente zerou.

Qual é o truque?

Do lado da demanda, a euforia da imprensa e do governo concentra-se na retomada do consumo das famílias, com aumento de 1,4% do primeiro para o segundo trimestre. É notável? Sim, claro que é, mas o que não se pode perder de vista é como as famílias aumentaram suas compras, num cenário com mais de 13 milhões de desempregados. Aí é que estão as pulgas atrás da orelha. Primeiro, os economistas creditam parte disso à liberação do FGTS das contas inativas. Segundo, à queda da inflação. Terceiro, à queda dos juros, que facilita o financiamento. Quarto, à queda do preço dos alimentos, devido à safra recorde.

Sejamos realistas. Dos quatro fatores citados, apenas a queda de juros é consistente com um cenário de retomada do consumo no longo prazo. Os outros três motivos são circunstanciais. O dinheiro do FGTS já virou fumaça e não impulsionará novamente a demanda. A queda da inflação tende a se estabilizar, simplesmente porque, agora, o governo aproveitará a chance para aumentar impostos, a fim de tapar o rombo das contas públicas. Logo, se dará ao direito de ficar com aquele dinheirinho que os brasileiros pensaram que começaria a sobrar no fim do mês. Veja, por exemplo, o que já ocorreu com os combustíveis. Por fim, alimentos dependem de um fator imponderável: o clima. Basta chover mais ou menos que o desejado, que a safra se perde e os preços sobem.

PIB de uma nota só

Olhando um corte maior de tempo, a comparação do segundo trimestre deste ano com o mesmo período de 2016, o cenário não melhora em nada. Do lado da oferta, a alta de 0,3% foi sustentada unicamente pelo agronegócio, com sua expansão de quase 15%. A indústria encolheu 2,1%, e os serviços, 0,3%. Traduzindo: não é o Brasil que está bem, na comparação com um ano atrás, é o agronegócio. Do lado do consumo, o das famílias subiu 0,7%. Os motivos são os mesmos vistos no parágrafo anterior. Logo, as ressalvas também.

Ninguém gosta de dar más notícias, nem ser o desmancha-prazeres da festa, mas comemorar um resultado frágil não nos ajudará em nada. Para que o país volte a crescer de modo saudável, contínuo e com inclusão social, não podemos depender de lances casuais, como a liberação do FGTS, ou contar com a boa vontade de São Pedro para não estragar nossas lavouras. Precisamos de muito mais. Precisamos de um verdadeiro projeto de desenvolvimento. Algo que faz tempo que os brasileiros não veem por aí.

Desemprego em queda: o Brasil não melhorou; apenas decidiu se virar sozinho

Márcio Juliboni
há 2 meses3.0k visualizações

Famintos por oportunidades, os brasileiros começaram a devorar seus próprios direitos

Desemprego em queda: o Brasil não melhorou; apenas decidiu se virar sozinho
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(Foto: Pedro Ventura / Agência Brasília)

Esqueça esse lenga-lenga de Michel Temer e companhia de que a queda do desemprego, anunciada nesta quinta-feira (31) pelo IBGE, é um claro sinal de melhora da economia. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego ficou em 12,8% no trimestre de maio a julho. Ela é menor que os 13,6% do trimestre imediatamente anterior (fevereiro a abril). Olhando os números com calma, contudo, é possível ver sinais de que o Brasil não melhorou de fato; os brasileiros apenas resolveram se virar sozinhos, sem esperar nada do governo, nem da economia formal.

O mais eloquente desses sinais é que o desemprego só caiu, porque um maior número de pessoas aceitou trabalhar sem carteira assinada – entrando, assim, para o famoso mercado informal. Em números, o total de desempregados recuou 5%, para 13,3 milhões de pessoas. Como o contingente de pessoal com carteira assinada cresceu bem menos do que isso (1,6% sobre o período de fevereiro a abril), a conclusão é óbvia: mais gente trabalhando sem direito a nada, além do salário. O mercado informal avançou 4,6%.

Contra o relógio

Após dois anos de recessão e com indícios de que 2017 seja um ano indigente, em termos de crescimento econômico, é compreensível o aumento da informalidade. Em bom português, a pessoa simplesmente se cansa de procurar algo com carteira assinada e começa a topar qualquer coisa, desde que gere alguma renda. Segundo o Dieese, o tempo médio para encontrar uma vaga subiu de 35 semanas, no ano passado, para 43 semanas em agosto (cerca de nove meses e meio). Quem consegue ficar tanto tempo sem receber algum dinheiro? Como pagar as contas, ainda que somente as básicas? Num determinado momento, a pessoa não pensa duas vezes: entre esperar indefinidamente para conseguir um emprego formal, com todos os direitos, e ter dinheiro para pagar as contas e colocar comida na mesa, dane-se a carteira! Trocamos direitos que só receberemos no futuro pelo dinheiro que precisamos aqui e agora.

Outro dado mostra como os brasileiros desistiram de esperar que indústrias, varejistas e prestadores de serviço abram vagas. O número de trabalhadores autônomos aumentou 1,6% sobre o período de fevereiro a abril. São, agora, 22,6 milhões de pessoas tentando a vida sozinhas.

A situação fica ainda mais difícil, quando se constata que a renda média praticamente não subiu nos últimos meses. De acordo com o IBGE, a renda média habitual (aquela que o entrevistado costuma receber todo mês) caiu ligeiramente de R$ 2.111 para R$ 2.106 desde o último trimestre.

Nem suave, nem favorável

Se, no curto prazo, a informalidade é o salva-vidas que nos impede de afundarmos na crise, no longo prazo, ela traz mais prejuízos do que benefícios. Para os brasileiros em geral, significa abrir mão de direitos trabalhistas como férias, décimo terceiro, comprovação de renda para crediários, seguro-desemprego, tempo de contribuição para a aposentadoria e nenhuma poupança no FGTS, além de não conseguir comprovar a experiência acumulada naquele emprego. Para empresas que se aproveitam da situação e contratam informalmente, representa o risco de grandes (e justificados) processos trabalhistas.

Já para o governo, a informalidade chega na forma de queda de arrecadação de impostos sobre salário e renda, menor arrecadação para a previdência social e menos dinheiro entrando no FGTS, entre outros. Após dois anos de recessão, com o cofre praticamente vazio, universidades federais paradas, serviços públicos moribundos e Estados quebrados, Temer não pode se dar ao luxo de jogar dinheiro fora, mas é o que faz, ao festejar uma queda do desemprego baseada nos motivos errados. Famintos por oportunidades, os brasileiros começaram a devorar seus próprios direitos. Dá para acreditar que estamos melhores?

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!