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O dilema de Bolsonaro: pequeno demais para uns; grande demais para outros

Márcio Juliboni
há 3 meses1.3k visualizações

Entre ser apenas mais um numa estrutura gigante, e ser um elefante na sala, deputado não se encaixa em lugar nenhum

O dilema de Bolsonaro: pequeno demais para uns; grande demais para outros
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O fora que Jair Bolsonaro tomou do PSDC nesta terça-feira (18), quando a legenda negou oficialmente qualquer interesse em tê-lo como candidato à Presidência, é um banho de realidade no estridente ex-militar. O episódio mostra o verdadeiro dilema de Bolsonaro: para alguns partidos, ele é pequeno demais; para outros, é grande o bastante para incomodar seus “donos”.

Por ora, o que se vê é o desejo efetivo do representante da ultradireita de sair do seu minúsculo PSC para viabilizar sua candidatura. Mas, quando bate à porta de legendas mais parrudas, como o PR do ex-governador fluminense Anthony Garotinho, é tratado como um grande nanico. É verdade que sua força entre conservadores e reacionários não pode ser ignorada. Afinal, 21% de intenções de votos (segundo o DataPoder360) não é de se jogar fora.

Mas grandes partidos têm grandes interesses e Bolsonaro parece não atendê-los. Primeiro, o tempo de TV com que contam, fruto de suas numerosas bancadas, é valioso para qualquer aspirante ao Planalto em 2018. E, em tempos de Lava Jato, “valioso” deve ser lido ao pé da letra – essas legendas vendem minutos a peso de ouro, como se viu nas delações. Por que, então, desperdiçar um bom negócio apenas para atender ao sonho de Bolsonaro? Não é por acaso, que o ex-capitão é cobiçado apenas como puxador de votos para a Câmara. O próprio PR, que estaria negociando sua filiação, não lhe garante até agora o direito a concorrer à Presidência. Ele até pode estar em ascensão, mas não tem cacife para desafiar velhos capitães da política tradicional. Seria apenas mais um no salão.

Sentando na janelinha

Quando se volta para partidos menores, como o PSDC de José Maria Eymael, as proporções se invertem. Bolsonaro é um gigante para essas legendas, que desejam apenas fazer sua figuração de sempre na disputa. Seria, portanto, um incômodo elefante no meio da sala, incapaz de ser ignorado. Isso causaria uma ciumeira danada entre os caciques encastelados na estrutura partidária. Afinal, por menor que seja, o repasse do fundo partidário sempre rende alguns milhões de reais por ano. Quem abriria mão de controlar esse dinheiro, considerando que um partido pequeno seria forçado a engolir o ex-capitão como uma liderança proeminente?

Por incrível que pareça, os movimentos de Bolsonaro revelam um idealismo ingênuo para os padrões brasileiros. Ele vem afirmando que busca um partido “honesto, patriota e cristão”. Mesmo que seja apenas retórica para entreter o eleitorado e posar de salvador da Pátria, não deixa de ser irônico: há tempos, não se veem partidos honestos, patriotas ou cristãos - e Bolsonaro é vítima, justamente, desses vícios que promete expurgar da política nacional. 

Antecipar as eleições não resolve nosso maior problema

Márcio Juliboni
há 3 meses555 visualizações

Do jeito como são feitas no Brasil, eleições são apenas um grande negócio: garantem lucro e imunidade aos políticos, e não pacificam o país

Antecipar as eleições não resolve nosso maior problema
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Em entrevista na manhã desta terça-feira (18) à rádio Capital, de São Paulo, Luiz Inácio Lula da Silva voltou a insistir na antecipação das eleições. Candidato declarado à Presidência no ano que vem, o petista, que foi condenado na semana passada a nove anos e meio de prisão por Sérgio Moro, não é o único a defender a ideia. Seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, do arqui-inimigo PSDB, também a apoia publicamente. Ainda que haja argumentos razoáveis para tanto, a realização das eleições, por si só, não resolverá o maior problema do Brasil: a grave crise de representatividade política. Em bom português: o povo já não se identifica com ninguém e as torcidas uniformizadas provavelmente não aceitarão a derrota de seus candidatos.

Vamos ao básico. Há dois tipos de democracia: a direta e a indireta. Na primeira, todos os cidadãos literalmente se reúnem para votar algo. Há remanescentes dela nos plebiscitos e referendos, por exemplo. Mas o mais comum é a indireta: elegemos pessoas com quem temos, teoricamente, afinidades ideológicas para nos representar na criação de leis (Legislativo) e na gestão pública (Executivo). O argumento de quem, como Lula e FHC, defende eleições antecipadas é aceitável: elas seriam a oportunidade de o povo decidir, novamente, que rumos o país deve tomar e a cargo de quem esse novo projeto ficará. No jargão político, devolveria a legitimidade ao governo.

Renan abriria mão de um ano de imunidade?

Mas... ah, se a vida fosse assim tão simples! Primeiro, há obstáculos de ordem prática. A antecipação das eleições valeria para todo mundo cujo mandato vencerá em 2018? Isto é, presidente, deputados federais, deputados estaduais, senadores e governadores? Em caso afirmativo, é possível convencê-los a abrir mão de um ano de foro privilegiado em plena Lava Jato? Basta lembrar do neo-oposicionista Renan Calheiros, que passou a malhar publicamente Michel Temer para ter esperança de se reeleger ao Senado e continuar longe de Moro.

Se a eleição valer apenas para a Presidência: que condições terá o eleito de governar até outubro de 2018, com parlamentares e governadores em fim de mandato? Se já se souber quem é o presidente, as articulações de aliados e oposicionistas serão intensificadas. Ele será o Judas a ser malhado em praça pública, ou o Cristo de quem se espera a unção para conduzir os eleitos ao reino da imunidade. Isso apenas acentuaria a polarização política, dificultaria as votações no Congresso e transformaria outubro de 2018 em um novo terceiro turno.

A última questão prática é: há dinheiro para fazer uma eleição nos próximos meses? Basta lembrar que as doações empresariais estão proibidas. A reforma política ainda não foi votada e, portanto, ainda não se sabe de onde os políticos vão tirar recursos para bancar as campanhas. Há a expectativa de que recorram ao óbvio: um fundo de campanha com dinheiro público (sim, o meu, o seu, o nosso – menos o deles), além da ampliação do fundo partidário.

Alguém vai aceitar perder?

Mas, vamos supor que os políticos sejam criativos o suficiente para resolver essas questões práticas. Restam os dois pontos mais importantes. O primeiro: em quem votar? Não se trata apenas da crescente rejeição do povo aos políticos atuais. Mesmo que surjam novas lideranças, há o corporativismo pelo caminho que as sufoca e impede que se destaquem. A reforma política, que deveria mobilizar tanto quem veste verde e amarelo, quanto quem veste vermelho, está sendo montada para preservar os atuais grupos de poder. Será uma mudança feita sob encomenda para não mudar nada. Na prática, ela alterará a ordem em que o cardápio é apresentado e seu preço, mas os pratos continuarão intragáveis.

A segunda dúvida é: os candidatos mais fortes aceitarão o resultado da eleição, caso percam? Falando claramente, Lula e os petistas defendem a antecipação, com o argumento de que um pleito sem o ex-presidente seria ilegítimo. Se participar e perder, ele e seus militantes aceitarão civilizadamente o resultado dar urnas? Ou dirão que sua derrota foi produzida por um bombardeio inclemente, de mais de um ano, das elites, da imprensa, do governo golpista e do “czar” Sérgio Moro?

Da mesma forma: se Lula vencer, as camisetas verdes e amarelas aceitarão? Ou dirão que Lula se escondeu atrás do foro privilegiado para não ser preso? Que a Justiça não serve para nada por aqui? Que é preciso depô-lo, pois seria indecoroso ser comandado por alguém condenado em primeira instância? Pediriam seu impeachment? E qual seria a reação petista? Acusá-los de que foram coniventes com os escândalos do governo Temer?

A democracia é apenas um bom negócio

Sinceramente, não há sinais de que antecipar a eleição pacifique o país por si só. Mesmo em 2018, aliás, ela não será capaz disso. Enquanto o sistema eleitoral não mudar seriamente, com cláusulas de barreira, proibição de coligações em eleições proporcionais, voto distrital puro, mais dificuldade para a troca de partidos etc, as votações não passarão de um grande faz-de-conta de que somos democráticos.

Assim como estão, as eleições só atendem aos interesses dos próprios políticos. Por um lado, são um negócio lucrativo; afinal, quem fiscaliza seriamente quanto das doações vai para a campanha e quanto vai para o bolso dos distintos candidatos? Por outro, lhes garante poder e imunidade para fechar suas negociatas, achacar quem quiserem e intimidar quem os ameaça, sem que paguem por isso.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!