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O PT condenaria FHC, Temer e Aécio com base em delações?

Márcio Juliboni
há 3 meses849 visualizações

Se delação não é prova e as provas nada provam, por que os adversários de Lula deveriam ser condenados?

O PT condenaria FHC, Temer e Aécio com base em delações?
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No clássico livro 1984, George Orwell inventa uma palavra (doublethink) que foi vertida para o português como duplipensar. Trata-se de um achado: a capacidade de afirmar e negar uma ideia ao mesmo tempo. Sempre que vejo petistas falando da Lava Jato, tenho certeza de que o duplipensar existe mesmo – e que o PT se tornou um mestre em novilíngua. O partido é capaz de usar os mesmos fatos e os mesmos princípios para condenar qualquer um que se oponha ao seu projeto de poder, ao mesmo tempo em que inocenta Lula e a companheirada de qualquer pecado.

Seu argumento fundamental é de que delações premiadas não são provas. É necessário apresentar evidências materiais para corroborá-las. Em que pese que delação sem provas é falso testemunho (com razão), sempre que se avança com outros elementos (planilhas, fotos, gravações, imóveis, transações financeiras), os petistas insistem: as provas não provam nada. São circunstanciais. São paranoia e fixação dos procuradores. São armação etc.

Teste de lógica

Mas vamos a um pequeno exercício de lógica que adoro propor aos meus amigos petistas (eu ainda os considero amigos; não sei se a recíproca é verdadeira). Troque Lula por Fernando Henrique Cardoso; o sítio de Atibaia pela chácara do tucano em Ibiúna; o triplex no Guarujá pelo apartamento em Higienópolis. Imagine que foi o filho de FHC, e não o de Lula, quem recebeu um belo monte de dinheiro para montar um torneio de futebol americano e apresentou um trabalho baixado da internet para justificar uma “consultoria de marketing esportivo”. Pense que o Instituto FHC, e não o Instituto Lula, é acusado de ocultar um terreno pago pela Odebrecht para ser a sua futura sede.

Imagine, ainda, que as planilhas do departamento de propinas da Odebrecht apontam uma conta chamada “Mestre”, e não “Amigo”, que contém milhões de reais. Em depoimento a Sérgio Moro, Marcelo Odebrecht, um delator assumido, afirma que a planilha “Mestre” representa o dinheiro reservado a FHC e era movimentada por seu ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan, cujo codinome era "Real". Depois, a conta passou para Armínio Fraga, sob o codinome "Pós-Real". Ao mesmo tempo, vem à tona uma foto do tucano com o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro, na porta de um apartamento de cobertura em Higienópolis. O zelador afirma, em juízo, que FHC e seus familiares frequentavam o local. É demitido e se lança candidato a vereador.

Léo Pinheiro afirma, em juízo, que o imóvel é do ex-presidente. Sua defesa, no entanto, nega. Diz que não poderia sê-lo, já que foi dado em garantia pela OAS para dívidas. Diante de Moro, FHC afirma que esteve lá apenas uma vez, porque Léo Pinheiro era praticamente um corretor de imóveis querendo empurrar um apartamento “Minha Casa, Minha Vida” para ele. E que seria melhor perguntar detalhes à sua falecida esposa, Ruth Cardoso, que era a verdadeira interessada no apartamentão.

Vale para todos?

Agora, troque tudo isso por Aécio Neves, apartamento no Rio de Janeiro, fazenda em Cláudio, e o codinome “Mineirinho” (que consta, efetivamente, das planilhas da Odebrecht apresentadas à Lava Jato). Ou por Michel Temer (codinome "Sem Medo" na Odebrecht), reforma da casa da filha em São Paulo, mala de dinheiro de Rodrigo da Rocha Loures, gravação de conversa com Joesley Batista no escurinho do Jaburu. Com o adendo de que, efetivamente, Loures resistiu estoicamente a revelar quem era o destinatário dos R$ 500 mil em sua mala. Logo, só há uma “ilação” (como os advogados de Lula gostam de dizer) sobre quem era o Lorde Sith do caso.

Agora, convenhamos: alguém duvida de que os petistas, quaisquer petistas, não pensariam um segundo antes de condenar, nas ruas, nas redes sociais, nos botecos da Vila Madalena, FHC, Aécio e Temer? Não precisamos pensar muito para sabermos a resposta – muito menos, duplipensar...

Condenação de Lula: a Lava Jato começa agora

Márcio Juliboni
há 3 meses932 visualizações

Só há duas opções para o desfecho do caso nas instâncias superiores: ou se condena Lula, ou se condena a Lava Jato

Condenação de Lula: a Lava Jato começa agora
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A esta altura, se você não estiver em Marte (e sem internet), já sabe que Lula foi condenado a nove anos e seis meses de prisão por Sérgio Moro por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá. A sentença foi como uma bala de mentos numa garrafa de Coca-Cola: fez jorrar manifestações igualmente acaloradas a favor e contra Lula. Não sou advogado e, portanto, não tenho conhecimento técnico para avaliar Moro. Ainda assim, há motivos políticos e sociais para dizer que, com a condenação de Lula, a Lava Jato começou de fato.

É um direito de Lula, como de qualquer brasileiro, recorrer em liberdade à segunda instância. Alguns observadores estimam que é improvável que ela tome uma decisão ainda neste ano. Até lá, pode-se enxergar o seguinte cenário:

1) A esquerda se dividirá em três grupos. O primeiro, fiel a Lula, pregará sua inocência até o fim. Ainda que sua sentença seja mantida pelo Tribunal Federal Regional de Porto Alegre, e o caso vá, inevitavelmente, parar em Brasília, esse núcleo duro dirá que tudo não passa de uma cassação política do maior líder popular que o país já teve. Para esses leais companheiros, nunca houve, não há, nem haverá provas convincentes. Quem são eles? Basicamente, o PT, a CUT, o MST e o MTST.

2) O segundo grupo de esquerda radicalizará seu discurso e aproveitará a deixa para acusar Lula de ter traído seus ideais e sua classe. Exigirá que o PT faça uma autocrítica digna de flagelo de monge enclausurado e, uma vez purificado pelo sangue de seu mártir, abandone o ideário capitalista e abrace de vez o socialismo. Quem fará esse papel? As alas radicais do PT e os partidos mais à esquerda.

3) O terceiro grupo serão os malufistas de esquerda. Dirão que, mesmo que Lula tenha se corrompido, ninguém fez tanto pelos mais pobres quanto ele. Logo, resumirão a situação com o manjado: “Ele rouba, mas faz”. De quem estamos falando? Por parte do povo comum, será quem sente na pele dois anos (indo para três) de recessão e se ressente da falta de perspectivas e da deterioração dos programas de assistência social. Por parte dos movimentos sociais e grupos políticos, uma salada ideológica também pautada pela “realpolitik”, o termo que eles descobriram na contracapa de algum livro de política e virou moda entre cervejas na mesa do bar, para justificar o injustificável.

Os "cidadãos de bem"

4) A direita arrumará um pretexto para voltar a bater panela. Seu corrupto favorito, finalmente, recebeu a primeira sentença. Afinal, não há nada de mais embaraçoso para os novos “líderes populares” do que defender o fim da corrupção e se calar diante das estripulias de seus corruptos de estimação. Moro, que andava desacreditado entre algumas alas direitistas, devido à demora em mandar Lula para o xadrez, voltará a ser idealizado como o paladino da Justiça. Quem são? O MBL, o Vem Pra Rua, Revoltados Online etc.

5) No meio disso tudo, a Justiça andará descalça em arame farpado sobre o precipício da desmoralização. Se Lula for inocentado em segunda instância, a polarização das torcidas uniformizadas irá às últimas consequências. Petistas e companheiros dirão que é a prova definitiva de que Moro e a Lava Jato não pensavam em outra coisa, além de fabricar provas mequetrefes contra Lula. Direitistas e “cidadãos de bem” dirão que a Justiça deseja desmoralizar a força-tarefa e que isso não ficará assim.

6) Adicione ao caldeirão um bom punhado de políticos (com ou sem mandato) tão enrolados com a Lava Jato, quanto Lula. Se a segunda instância repetir o que fez com Vaccari e alegar que delação não é prova, estará aberta a porteira para que todos se safem. Não adiantará Rodrigo Janot insistir que corrupto não passa recibo. A sensação de impunidade será mais forte que a Lei da Gravidade.

Como se vê, só há dois desfechos para o caso: condenar Lula ou condenar a Lava Jato. A sorte está lançada.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!