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Ódio: a verdadeira herança maldita que o Brasil deve superar

Márcio Juliboni
há 3 meses1.9k visualizações

O debate público de ideias, hoje, não ocorre numa ágora grega, mas num octógono de UFC. Quem se expõe é um inimigo a ser finalizado

Ódio: a verdadeira herança maldita que o Brasil deve superar
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Há um mês, iniciei entusiasmado minha colaboração com o Storia, cuja proposta é “furar a bolha” em que a internet, em geral, e as redes sociais, em particular, nos meteram. Cutucar preconceitos, dogmas e radicalismos. Criticar conclusões apressadas e tendenciosas. Alertar os leitores de que o pior erro é o autoengano voluntário. Trata-se de uma das tarefas mais nobres que um jornalista pode receber! E também a mais difícil. Basta ver a área de comentários dos artigos. Mas o que mais espanta e preocupa é como o ódio se transformou em um escudo, um campo de força com que as pessoas repelem as dúvidas que alguém levanta sobre suas opiniões. Perguntas, hoje, tornaram-se coquetéis molotov capazes de incendiar a sociedade.

Outro dia, brinquei com um amigo que não há mais “debate de ideias”, apenas “abate de ideias”. O totalitarismo e a intolerância vestem camisetas de todas as cores, frequentam com a mesma letalidade grupos de discussão da esquerda e da direita. Já vi militantes de ambos os lados desejarem, por escrito, a morte de seus adversários políticos. Já fui banido de grupos de discussão por discordar. Fora as ofensas de praxe: palavrões e toda sorte de “VTNC” que se imagine. Sempre que vejo isso, respiro fundo, fecho os olhos e mentalizo o meu rivotril interior. O debate público de ideias, hoje, não ocorre numa ágora grega, mas num octógono de UFC. Quem se expõe é um inimigo a ser finalizado.

O que me preocupa não é o quanto podem me ofender; é o quanto essa sulfurosa atmosfera de ódio sufoca a democracia, justamente quando nos aproximamos de uma nova eleição. De um lado, a esquerda, com Lula e o PT à frente, esperam lavar a alma com uma chuva de votos, ungindo-se novamente com a legitimidade do povo para expiar seus pecados. De outro, conservadores e reacionários, a pretexto de que a crise brasileira é, antes de tudo, moral, endossam cada vez mais candidatos a tiranos.

Te pego em outubro

Mas há algo que une polos tão distantes da política nacional: uma raiva impiedosa, digna de Inquisição espanhola, em relação ao outro lado. Sob esse clima, as eleições de 2018 não servirão para reunificar o país e pacificá-lo, como pregam alguns ingênuos ou mal-intencionados. Servirão para acirrar ainda mais o conflito, já que eleitores de todos os lados encaram a votação como uma guerra, o dia da vingança contra o inimigo.

Seria, por isso, sensato, recomendável, urgente que os farrapos de liderança política que ainda nos restam baixassem o tom dos ataques aos rivais. O problema é que, à medida que a campanha ganhar as ruas, veremos justamente o contrário. Para se eleger, em 2002, Lula vestiu o figurino do “Lulinha paz e amor”. Pós-mensalão e com a Lava Jato em campo, para reeleger Dilma Rousseff, 12 anos depois, o ex-presidente, em parceria com o marqueteiro (e delator em Curitiba) João Santana, inventou o “nós contra eles”. Quem não queria o PT no poder era uma “elite branca de olhos azuis”. Agora, com a missão de defender seu legado e em guerra com Sérgio Moro, Lula deve desferir os ataques mais mortais de sua trajetória política. Será o “Lulinha faz o terror”...

Tampouco os partidários da direita querem baixar a bola. Basta lembrar que o atual segundo colocado nas pesquisas é ninguém menos que Jair Bolsonaro, da ultradireita reacionária e conservadora, que flerta com o militarismo e o autoritarismo, menospreza minorias e pretende tocar o país como quem comanda uma tropa. O que diz ou escreve em suas redes sociais torna-se sagrado para seus seguidores. Como ele age como incendiário e não como bombeiro no debate político, seus apoiadores tornaram-se piromaníacos dispostos a queimar vivo “esse lixo de esquerdopatas”.

Até onde a vista alcança, não há nada parecido com um movimento de pacificação social e política. Daqui, o que se enxerga é a escalada das hostilidades e dos ataques, das escaramuças de Facebook, das guerrilhas digitais, dos MAVs, dos robôs poluindo áreas de comentários e perfis pessoais com notícias falsas e agressivas contra o rival. Mais dia, menos dia, contudo, essa intolerância vazará para o mundo real. E, aí, todos nós estaremos lascados... é melhor pararmos, enquanto ainda há tempo.

Fica Temer: duas desculpas dos deputados que não colam meeesmo

Márcio Juliboni
há 3 meses2.2k visualizações

No Brasil, um presidente fraco sempre é um bom negócio para seus aliados. Literalmente...

Fica Temer: duas desculpas dos deputados que não colam meeesmo
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(Valter Campanato/Agência Brasil)

Os 263 deputados que votaram pelo arquivamento da denúncia contra Michel Temer por corrupção passiva, encaminhada por Rodrigo Janot, dividiram-se em três grupos: os que alegaram que foram obrigados a apoiá-lo por ordem das lideranças partidárias; os que disseram que é melhor investigar Temer após o término de seu mandato; e os que defenderam que sua permanência garante a estabilidade política e econômica tão importante para que os brasileiros voltem a respirar. Desses três grupos, o único sincero foi o que disse que apenas cumpria ordens. Os outros dois limitaram-se a desculpas que não colam.

Vamos à primeira. Quem, realmente, põe a mão no fogo e garante que serão retomadas as investigações sobre os elos entre Temer, a JBS e Rodrigo Rocha Loures, o deputado indicado pelo presidente para “tratar de tudo” com Joesley Batista e preso após ser filmado correndo com uma mala com R$ 500 mil? O primeiro obstáculo é jurídico: como reabrir um processo criminal arquivado pela maioria da Câmara? Pode? Não pode? Juridicamente, se os deputados votaram contra a denúncia, ela não perde a validade? Até onde se sabe, a lei garante que ninguém seja processado duas vezes pela mesmíssima acusação.

Ainda que se encontre uma solução jurídica, há o outro elemento: politicamente, alguém estará disposto a mexer nesse vespeiro? Em 1º de janeiro de 2019, quando Temer descer da rampa do Planalto como um cidadão comum, sem foro privilegiado, Raquel Dodge, sua indicada, será a procuradora-geral da República. A força-tarefa da Lava Jato já poderá ter se dissolvido. E, dependendo a conjuntura, o PMDB poderá estar, ainda, na base de apoio do novo governo – e o métier de Temer sempre foi operar nos bastidores. Logo, ele pode ser uma peça-chave para garantir a sustentação de seu sucessor.

Desencana

A segunda desculpa foi de que é preciso garantir a estabilidade do governo, para que as reformas sejam aprovadas e a economia saia da UTI. Essa conversa evaporou logo após a votação. Em entrevista à GloboNews, no fim da noite de ontem, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, detonou o conto-de-fadas de que, agora, a base aliada e Temer nos conduzirão para a estrada de tijolos amarelos. Segundo Maia, os 263 votos são bons em relação às chances, que chegaram a ser reais, de Temer perder a briga, mas são insuficientes para garantir apoio às reformas.

As mais ambiciosas, como a da Previdência, precisam ser encaminhadas como proposta de emenda constitucional (PEC). Para aprová-la, portanto, é necessário um quórum de dois terços da Casa, ou 308 deputados. Espremendo muito, mas muito mesmo, os líderes políticos calculam que Temer conta, atualmente, com 287 parlamentares.

Se já é politicamente desgastante para deputados votarem a favor de Temer, em meio à Lava Jato e em um ano pré-eleitoral, imagine o que é comprar a briga da reforma da Previdência... os "cidadãos de bem" podem estar mais tolerantes (ou desiludidos) com a corrupção, após o Fora Dilma. Mas o bolso sempre foi a parte mais sensível de qualquer brasileiro – coxinha ou mortadela.

Tirando o corpo fora

As primeiras declarações de políticos nesta quinta-feira (03) já mostram um refluxo geral na disposição de aprovar qualquer medida que azede o humor dos eleitores. Logo, a grande preocupação com o avanço da economia, a reforma das estruturas econômicas etc, evocada ontem à noite como uma preocupação sincera com a melhoria da vida no país, não passou de um monumental caô.

Infelizmente, o que garantirá a alardeada estabilidade econômica e política é aquilo que você já suspeita: dinheiro, bastante dinheiro. Liberação de emendas parlamentares, indicações de apadrinhados para cargos em estatais e outros vícios manjados. No Brasil, um presidente fraco sempre é um bom negócio para seus aliados. Literalmente.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!