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Pacto de sangue de Lula com a corrupção alimentou os “Geddéis” da vida

Márcio Juliboni
há um mês3.8k visualizações

O que os petistas não explicam, como sempre, é o mérito das declarações: por que, raios, Lula não denunciou propostas indecentes como a de Odebrecht?

Pacto de sangue de Lula com a corrupção alimentou os “Geddéis” da vida
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(Foto: Marcello Casal Jr. /Agência Brasil)

Antonio Palocci virou uma espécie de Kim Jong-un, capaz de pulverizar a estratégia de Luiz Inácio Lula da Silva de posar de vítima na Lava Jato. A bomba que detonou nesta quarta-feira (06) em Curitiba, durante depoimento a Sérgio Moro, espalhou ondas de choque por todo o PT, além de alcançar o sítio em Atibaia que Lula jura não ser seu, o terreno comprado para ser a futura sede de seu instituto e um conchavo de alcova com Emílio Odebrecht, o patriarca da empreiteira que chamava o ex-presidente de “amigo”. É do jogo agora que parte dos petistas crucifiquem Palocci e peçam sua expulsão, enquanto outros o apresentem como uma vítima da Inquisição curitibana – alguém torturado impiedosamente pela prisão, a ponto de dizer o que quiserem para aliviar a alma. O que os petistas não explicam, como sempre, é o mérito das declarações: por que, raios, Lula não denunciou propostas indecentes como a de Odebrecht?

Como um empreiteiro pede uma audiência com o então presidente da República e seu então ministro da Fazenda, acomoda-se confortavelmente na poltrona, e propõe, sem nenhum constrangimento, um pacote de propinas em troca do apoio de Lula à continuidade de seus pornográficos contratos com a União? Um pacote que, segundo Palocci, envolvia não apenas o que foi citado acima, mas também R$ 300 milhões para “o presidente fazer a atividade política dele” (palavras de Palocci). Outro mimo foram as palestras, ao preço de R$ 200 mil, fora impostos, para Lula supostamente promover o combate à fome em outros países, enquanto, às escondidas, exercia o vergonhoso papel de mascate dos interesses da empreiteira junto a ditadores africanos, por exemplo.

Coisa boba

O que impressiona, contudo, é a desenvoltura com que Lula, na narrativa de Palocci, lidava com a situação. Em vez de dispensar Emílio, de ordenar sua prisão por tentativa de corrupção, de cancelar seus contratos, de instaurar investigações, Lula limitou-se a tirar vantagem da situação, pois entendia, segundo o ex-ministro da Fazenda, que a Odebrecht estava com medo de que sua sucessora e cria, Dilma Rousseff, pudesse atrapalhar o bom andamento das negociatas.

Outro exemplo é a conversa narrada por Palocci, ocorrida no Palácio da Alvorada. Lula perguntou-lhe se achava que o nível de corrupção na Petrobras estava “adequado”. Ao saber que seu assessor considerava que isso estava “muito exagerado”, Lula prometeu-lhe tomar providências. Com a descoberta do pré-sal, porém, o presidente nunca mais tocou no assunto e o barco correu. Note-se: Lula não perguntou como poderia acabar com a corrupção; questionou, apenas, se a roubalheira estava dando muito na cara. Supõe-se, neste sentido, que as providências que Lula nunca tomou seria apenas pedir mais discrição aos envolvidos.

O pacto é deles, o sangue é nosso

Se o próprio presidente da República trata a corrupção apenas como uma questão de discrição, e não de crime, não é de espantar que seus subordinados façam o mesmo. O pacto de sangue que Lula selou com o assalto ao dinheiro público foi o salvo-conduto para que a base aliada dilapidasse os brasileiros.

Estão aí os R$ 51 milhões atribuídos a Geddel Vieira Lima para comprovar. Basta lembrar que Geddel é investigado, na Lava Jato, por crimes que cometeu quando era vice-presidente da Caixa Econômica Federal, entre 2011 e 2013, em pleno governo Dilma Rousseff. Antes disso, atuou como ministro da Integração Nacional do próprio Lula de 2007 a 2010. O pacto de sangue de Lula com o malfeito alimentou os Geddéis da vida – com o agravante de que o pacto é deles, mas o sangue é nosso.

Lava Jato: demonizar Janot não transformará corruptos em santos

Márcio Juliboni
há um mês4.7k visualizações

Políticos querem nos convencer de que, se o Diabo pecou primeiro, ninguém pode ser punido

Lava Jato: demonizar Janot não transformará corruptos em santos
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(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, descobriu do pior jeito que os bambus com que faz suas flechas estão cheios de farpas, a ponto de lhe espetarem os dedos sem saber, ao certo, onde estão cravadas. Marcelo Miller, um de seus assessores mais próximos, trocou a Procuradoria-Geral pela defesa da JBS. Como mostra de sua gratidão, a empresa forneceu novas gravações à Lava Jato em que o próprio Miller é citado como um aliado na Justiça. Nas conversas, a língua solta de Joesley Batista, um dos donos da JBS, alcança também o STF. Foi o suficiente para se armar o maior forrobodó em Brasília nos últimos dias. Do presidente Michel Temer e seus ministros ao Supremo, passando pelo Congresso, todos encontraram um belo motivo para pedir a cabeça de Janot. A gritaria geral, contudo, é apenas uma cortina de fumaça para desviar a atenção daquilo que realmente importa: demonizá-lo não transformará corruptos em santos.

Até agora, os argumentos mais fortes contra Janot e o acordo de delação premiada assinado com Joesley Batista e executivos da JBS seguem uma linha formalista do direito. Por esse raciocínio, se as provas foram coletadas de modo ilícito, então devem ser anuladas. No caso, a ilegalidade estaria no suposto envolvimento de Miller, que, ainda como procurador federal, teria orientado a JBS a gravar secretamente as vergonhosas conversas com políticos. Desse jeito, não valeriam nada num processo judicial.

É por esse caminho, que o advogado de Temer, Antônio Cláudio Mariz, seguiu em suas primeiras declarações após o próprio Janot afirmar, em coletiva à imprensa, que a JBS não havia entregue tudo o que sabia e, portanto, seu acordo de delação poderia ser cancelado. É por aí também que está indo o senador tucano Aécio Neves, gravado ao pedir R$ 2 milhões para Joesley. No Congresso, não é diferente. Romero Jucá, líder do governo no Senado, presidente do PMDB e investigado pela Lava Jato, afirmou que os parlamentares querem saber até onde vai “a armação” da JBS contra eles.

Dá pra confiar?

Uma segunda linha de ataque foca a própria reputação de Janot. Por aí, argumenta-se que Miller e o procurador-geral eram muito próximos e falar com um significava, na prática, falar com o outro. Logo, se Miller orientou deliberadamente a JBS a gravar as conversas, Janot teria dado a ordem ou, no mínimo, concordou com isso. Uma variação desse tema é mais perversa. Se Miller ganhou milhões, como alegam políticos, em pouco tempo ao assumir a defesa da JBS, quem garante que Janot não ficou com parte do dinheiro? Gilmar Mendes, que não faz questão de esconder sua bronca com Janot, é o representante desse pensamento no STF.

É claro que tudo isso é explosivo e há muita coisa mal explicada, a começar pelos motivos por que Joesley e a JBS enviaram novos áudios para a Lava Jato, sabendo que colocariam em risco seu acordo com a Justiça - aquele tão generoso, que nem uma tornozeleira para os delatores foi determinada. Janot errou? Janot foi enrolado pela empresa? Janot sabia e atropelou o rito processual? Janot sabia, atropelou o rito processual e ganhou dinheiro? Janot foi traído pelo auxiliar? Há mais perguntas do que se gostaria, a apenas 11 dias de seu mandato na PGR acabar.

Um erro anula o outro?

Mas, aqui da arquibancada, observando essa briga no campo, esse monte de pontapé, dedo no olho e pressão sobre o juiz, o que se pode dizer são duas coisas. Primeiro: se as gravações e o acordo de delação forem anulados por ferirem o rito processual, será a vitória do formalismo. Ninguém espera que a lei seja atropelada em busca de provas, mas o que se viu e ouviu nesses últimos meses não pode ser esquecido. Nenhuma sentença poderá ser dada com base nesse material, mas isso não significa que ele não seja testemunha de que muita coisa errada foi feita no país.

Segundo: mesmo que se prove que Janot errou, seja por incompetência, seja por má-fé, as evidências continuam falando por si. Temer recebeu Joesley fora da agenda para tratar de assuntos nada republicanos. Aécio pediu R$ 2 milhões ao empresário etc. etc. etc. Quem tenta anular a Lava Jato por esse caminho está, apenas, procurando apagar seus erros com base nos erros de outra pessoa. É como dizer que você não pode ser punido pelo Diabo, porque ele pecou primeiro. Enquanto isso, a Justiça queima lentamente em algum caldeirão do Inferno...

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!