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Por que a esquerda deveria apoiar as privatizações

Márcio Juliboni
há 2 meses2.0k visualizações

A esquerda deveria parar com o fetichismo das estatais e focar no que interessa: como prestar os melhores serviços à população e assegurar justiça social

Por que a esquerda deveria apoiar as privatizações
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(Foto: Ricardo Stuckert/PR - Agência Brasil)

Ontem (26), perdi um casal de amigos no Facebook, devido ao texto que publiquei aqui no Storia, defendendo a privatização de estatais (Além da Eletrobras, é hora de privatizar a Petrobras e os Correios). Representantes da esquerda tradicional, espumaram de raiva, juraram que eu vendi minha alma ao demônio capitalista e desfizeram a amizade virtual (a atitude mais radical nos dias de hoje). Tudo bem. Sem rancores; só tristeza. Espero que sigam felizes. Mas isso me fez pensar quanto a esquerda erra, quando tenta se reinventar repisando velhas ideias, dogmas e pressupostos. Quanto a esquerda não ganharia, se ousasse passar a limpo tudo em que acreditava? É por isso que defendo que uma esquerda do século XXI deveria, sim, apoiar a privatização.

Antes que você me xingue de “FDP-VTNC-vendido-imbecil-porco-capitalista-boçal-débil-mental-coxinha-direita-trumpista-bolsonarista-animal-etc”, dê-me, pelo menos, o direito de me explicar. Depois, sinta-se à vontade de me queimar em praça pública. Vamos lá!

Três motivos iniciais

Critico a atuação das estatais e defendo sua privatização, não por ser 'neoliberal', mas por entender que, estrategicamente, elas são obsoletas para o desenvolvimento. Primeiro: a Petrobras, mesmo privatizada, continuaria pagando royalties pelo petróleo que explorasse (e esses royalties, por lei, deverão ser aplicados em educação etc.). Se não pagasse, se atrasasse, poderia ser punida com multas e, no limite, a perda da concessão. Afinal, se os donos privados disserem que têm condições de cumprir com suas obrigações, terão que cumpri-las.

Segundo, continuaria pagando seus impostos. Aqui, cabe um parênteses: uma das passagens mais tragicômicas do governo Dilma Rousseff foi quando a Petrobras, estatal, defendida por uma mentalidade ultrapassada de esquerda, aderiu ao REFIS, o programa de parcelamento de dívidas fiscais. Na época, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, era o presidente do conselho de administração. Como uma estatal presidida por um ministro sonega impostos? É assim que ela é um patrimônio inestimável para os brasileiros e gera riquezas para a gente?

Terceiro, evitaria o aparelhamento político da empresa, os desvios graves e escandalosos de conduta. Lula sequer se deu ao trabalho de combater o esquema de corrupção na empresa. O PT se limitou a dizer que o esquema existia desde FHC (conveniente e contraditoriamente, com base numa delação premiada - a mesma que condena, quando se refere a petistas).

Peças de museu

Quarto: para que fazer o governo perder tempo e recursos com estatais da ERA INDUSTRIAL?? Lembrem-se: a Petrobras foi criada num contexto de formação da indústria de base, em meados do século passado, por iniciativa do governo, porque os capitalistas brasileiros não tinham recursos suficientes para fundar uma petrolífera privada, nem apetite ao risco para tanto. A Petrobras atendeu, portanto, à necessidade de colocar o país em pé de igualdade na fase do capitalismo industrial. Mas estamos entrando numa nova era: a da economia da informação, de serviços.

Uma esquerda moderna deveria lutar por melhores políticas de educação, inovação tecnológica, combustíveis renováveis, etc. Uma estatal baseada em combustíveis fósseis (sendo que o ápice de consumo se dará em cerca de 15 anos, segundo a AIE), enquanto os países avançados investem pesadamente em fontes renováveis... E essa cabeça de século XX, defendendo os Correios, uma estatal que cuida de enviar cartas, sendo que a maior parte da comunicação hoje (incluindo documentos) é digital? Os brasileiros ganham o quê, sendo donos de uma empresa que entrega malas diretas de dieta?

Fetiche

O problema da esquerda é perder tempo com o fetichismo das estatais, em vez de entender para que elas serviram no início. A estatal é uma expressão da alocação de recursos do Estado em áreas em que o capital não quer entrar (seja pelo risco elevado - caso do petróleo, antigamente -, seja pela pouca lucratividade ou porque é socialmente estratégico).

Vejo uma confusão muito grande: o Estado deve alocar capital naquilo que é social e estrategicamente relevante. Foi o petróleo no passado. É a inovação tecnológica, a educação, as fontes renováveis de recurso, a tecnologia da informação neste século XXI. Simples assim. A esquerda deste século não deve se preocupar se o bem ou serviço é prestado por uma empresa estatal ou privada. Deve se preocupar em garantir que a empresa preste o melhor serviço, assegurando o que realmente interessa: o bem-estar geral dos brasileiros.

Eleitores de Lula conformaram-se em defender a “política do puxadinho”

Márcio Juliboni
há 2 meses2.3k visualizações

Em todos os anos de governo petista, quais pautas realmente contrárias à elite foram defendidas por Lula e Dilma?

Eleitores de Lula conformaram-se em defender a “política do puxadinho”
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(Foto: Divulgação/Lula Oficial/Facebook)

Publiquei dois textos aqui no Storia, nos últimos dias, sobre o papel de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2018. No primeiro (PT erra ao insistir em Lula), argumentei que os petistas (e a esquerda em geral) são vítimas de um messianismo perigoso, que impede a renovação de lideranças – algo vital para a sua sobrevivência. No segundo (Lula quer empresário como vice. Mas ele não é contra a elite?), lembrei o que cientistas políticos estão roucos de repetir: nesses moldes, Lula apenas recriará o pacto conservador que o levou ao Planalto em 2002, sem promover reformas mais estruturais de justiça social. Como era de se esperar, os textos provocaram alguma histeria em grupos de esquerda. Vou dispensar aqueles que simplesmente me xingaram (contra palavrões, não há argumentos) e me concentrar em algo já detectado pelos estudiosos: os lulistas conformaram-se em defender a “política do puxadinho”.

Explico. O que o cientista político André Singer chama de “pacto conservador” e “reforma gradual”, outros classificam como “melhorismo”. Após o fim do socialismo real, os partidos de esquerda passaram a se concentrar em pautas pontuais de melhoria das condições de trabalho, aumento de renda, participação em resultados e inclusão social. Na falta de um projeto utópico e revolucionário, dedicaram-se, segundo alguns estudiosos, a “humanizar” o capitalismo. É claro que é meritório. A vigilância da esquerda impediu que, sem o contrapeso do socialismo, o neoliberalismo que se seguiu varresse direitos e conquistas sociais como um bando de hunos.

“Pragmático”

O PT entrou na onda já com a eleição de Lula em 2002. O reformismo gradual foi, realmente, o tom de todo o governo petista. Naquela época, sempre que eu o questionava, era tratado a sapatadas pelos amigos de esquerda “esclarecidos”. Diziam-me: “Ora, política é a arte de ceder hoje para conquistar amanhã”, ou: “O que você quer? Lula é pragmático e negocia o que precisa para ganhar o essencial.” Os mais pedantes me davam aulas sobre realpolitik.

Mas eis que o tempo passa e Lula volta à cena como candidato à Presidência em 2018. Ensaia repetir a mesma aliança com o empresariado e, em grupos de esquerda fechados no Facebook, começam a me chamar de burro, ignorante, direitista, fdp etc., porque disse que ele repetirá o mesmo erro de 2002: selar um pacto conservador e entreter as pessoas com a ampliação de crédito, como se a melhoria concreta das condições de vida se limitasse apenas a comprar uma TV nova e trocar de carro.

Discuta com o Boulos

Mas, se eu não sou digno de criticar ninguém (afinal, sou um "zé-ninguém"), recomendo que o pessoal da esquerda olhe o que os caras que admira dizem. Guilherme Boulos, líder do MTST, por exemplo, no livro A Crise das Esquerdas (Ed. Civilização Brasileira). Sobre o lulismo, eis o que ele diz (pág. 143 e 144):

“Quando Lula tinha 85% de popularidade, uma hegemonia importante, havia espaço para colocar em pauta temas como reforma do sistema político, a democratização das comunicações, colocar temas tributários... Era preciso abrir mão do pacto conservador e construir um novo pacto socialmente sustentado. Optou-se por manter o pacto conservador, talvez com a ilusão de que isso fosse indefinidamente garantido, ou seja, não se via fim nesse processo. Tinham inventado a roda: ‘encontramos uma forma de manter a hegemonia política na sociedade brasileira porque estamos agradando a todos.’ Sentaram-se à mesa da casa-grande e acreditaram que o convite para o banquete não teria fim, uma ilusão de que a burguesia brasileira tinha engolido e digerido muito bem o projeto petista, de que não haveria problemas.”

De que esquerda você é?

É esta ilusão que vejo em vários comentários aos textos que publiquei e compartilhei nos grupos do Facebook. Via de regra, os defensores de Lula dividem-se entre os que afirmam que ele fez o possível, no cenário político da época, e os que dizem que “há elites e elites” – umas conservadoras, outras progressistas. Particularmente, acredito que há, sim, duas elites: as que toleram a esquerda, enquanto não mexe em seus privilégios; e as que nem querem correr o risco de vê-la no poder.

Sendo franco, responda-me, caro leitor: em todos esses anos de governo do PT, por exemplo, você viu o presidente defender enfaticamente a cobrança de imposto sobre herança? Mexer na estrutura vexatória de juros dos bancos? Ou simplesmente reajustar a tabela do Imposto de Renda, para que os mais pobres não arquem com os mesmos custos tributários que os mais ricos? Sinceramente... de que esquerda você é????

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!