Brasil: manual de instruções
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Quer um Brasil ético? Que tal se olhar no espelho?

Márcio Juliboni
há 3 meses1.2k visualizações

Um bando de bárbaros empalando direitos e deveres pelas ruas, sem nenhum arrependimento, nunca será um país de verdade

Quer um Brasil ético? Que tal se olhar no espelho?
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(René Magritte/Reprodução)

Neste domingo (30), mais uma manifestação na avenida Paulista exigiu ética na política. Entre as palavras de ordem, estavam “Eu quero um Brasil ético, e você?” e “Fora Temer! Fora Lula! Fora Aécio!” Os juristas Modesto Carvalhosa e Hélio Bicudo, um dos famosos coautores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, estiveram entre os participantes. Além dos slogans, os organizadores propunham apoio à Lava Jato e à reforma política. É ótimo protestar contra a corrupção e exigir uma mudança profunda no comportamento de quem nos representa. Mas o mais preocupante é aquilo que não se exige nas ruas: que todos os brasileiros, sem exceção, sejam mais éticos.

Há dois grupos que me dão gastura, quando pedem ética na vida pública. O primeiro é formado por aqueles que ostentam o discurso marreta de que “o exemplo deve vir de cima”. Ou seja, os brasileiros só tomarão jeito e se comportarão decentemente, quando o Planalto Central começar a emanar radiações de bom mocismo. É um tremendo engano. Pior: um grande cinismo. Quem pensa assim não hesita em atropelar o direito alheio, com o argumento de que “aqui é assim.” Alega que é uma idiotice cumprir a lei num lugar em que ninguém o faz (inclusive os políticos). Seria uma “desvantagem competitiva” obedecê-las, pois bloqueariam atalhos que a maioria dos cidadãos não sente vergonha em tomar para se dar bem na vida.

Para essas pessoas, quem tenta viver conforme as regras é “trouxa”, “inocente”, “idealista” ou (eis o argumento mais perverso de todos) “está escondendo algo”, afinal, “ninguém é tão santo assim.” Esse fenômeno é amplamente conhecido pelos psicanalistas: a irresistível vontade de dissolver sua consciência e sua responsabilidade individuais no lodaçal do comportamento coletivo. Se todos fazem, não é culpa de ninguém. De ofensas racistas gritadas das arquibancadas de jogos de futebol a linchamentos reais ou virtuais, passando pela divulgação de notícias falsas, tudo é válido e nada lhes pesa na consciência, ao fim do dia.

Os impecáveis

O segundo grupo que eleva meu consumo de sal-de-frutas são os “cidadãos de bem”. Os manifestantes, nas fábulas que contam de si mesmos, são “corretos”, “trabalhadores”, “conscientes”. Grande parte dos “cidadãos de bem” tende a se endeusar. Enxergam-se como portadores de uma moral superior e, portanto, não devem ser tutelados. Ao mesmo tempo em que exigem que os políticos sejam belos, recatados e do lar, defendem radicalmente a liberdade de ação na vida privada. Afinal, já que são ungidos por uma moral divina, para quê dar satisfações ao próximo?

É o pretexto perfeito para atropelar direitos, deveres e leis. Em sua visão, ninguém tem permissão de lhes dizer o que fazer. Ninguém pode cobrá-los por nada. Só é aceitável aquilo que nasce de sua própria consciência; aquilo que brota de sua vontade mais íntima; de seu livre arbítrio. A decorrência lógica é que nenhuma lei é legítima. Alguns, mais sinceros, admitem que seus atos podem prejudicar pessoas, mas recorrem à boa e velha lei do mais forte para se justificar. “A vida é assim. Sou mais esperto, mais forte, mais ligado. Se alguém vacila, eu passo por cima; dane-se!”

Escolha o seu!!

Seja em qual grupo essas pessoas se enquadrem, há algo que as une, pois, o resultado final é o mesmo: um farto e indigesto cardápio de canalhices cotidianas. Praticar bullying e sexismo na escola, no trabalho e com os mais fracos, fraudar vestibulares, colar na prova, comprar trabalhos e diplomas. Comprar a carteira de motorista, ignorar leis de trânsito, dirigir bêbado, adulterar a placa do carro para escapar de multas, transferir pontos da carteira para o avô que não dirige há anos, parar em fila dupla, em vaga de deficiente, em local proibido. Sequer dar seta para mudar de via. Esconder-se atrás de aplicativos para escapar de blitz.

Ignorar a lei do silêncio, destratar quem pede que respeite o condomínio (e não pagar o condomínio!!). Sonegar impostos, comprar produtos piratas, fazer gato de luz, água, internet, TV a cabo. Falsificar atestados médicos e burlar leis para obter uma carteirinha de estudante para pagar meia-entrada. Fazer corpo mole durante o expediente, sobrecarregar o colega de trabalho, assediar moral e sexualmente funcionários, puxar tapetes para subir na carreira. Dar carteiradas profissionais para intimidar humildes e obter favores. Achar que pobre é pobre porque quer, que todo desempregado é vagabundo. Medir-se pelo que tem e ostenta, e não pela generosidade de seus sentimentos. Desprezar a educação e a cultura. Desprezar as diferenças de opinião. Atacar quem pensa diferente.

Quanto disso você já fez? Quanto disso você está disposto a parar de fazer? O fato é que é uma ilusão imaginar que os políticos mudarão, sem que todos os brasileiros mudem. Não adianta nada expor cabeças de corruptos em praça pública, ou glorificar políticos num altar de casta virtude, como se fossem nosso próprio espelho, se os brasileiros continuarem violando, dia a dia, as mais básicas leis de convivência e de respeito mútuo. Os políticos não descem de um disco-voador. Saem da geleia geral brasileira. Um bando de bárbaros empalando direitos e deveres pelas ruas, sem nenhum arrependimento, nunca será um país de verdade.

Exército no Rio: até quando o Brasil fará remendos na segurança?

Márcio Juliboni
há 3 meses1.2k visualizações

Criminalidade só será reduzida, quando a classe média “esperta” parar de financiar o tráfico apenas para “curtir a vida loka”

Exército no Rio: até quando o Brasil fará remendos na segurança?
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(Foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil)

O decreto de Michel Temer que autoriza a atuação do Exército no Rio de Janeiro, anunciado nesta sexta-feira (28), é a gambiarra mais espalhafatosa adotada pelo governo até agora e já rende imagens impactantes nos noticiários e nos sites. Mas, por mais urgente que seja acabar com a situação de terra de ninguém em que o Rio se encontra, com balas perdidas matando crianças em escolas e quintais, e por mais que os cariocas e fluminenses em geral não aguentem mais (com toda a justíssima razão) tamanha violência, não se pode festejar a presença do Exército nas ruas. Pelo contrário: ele é o exemplo mais claro da falência do Estado (e dos brasileiros, como sociedade) em cuidar da segurança pública.

Aqui vão algumas rápidas considerações. Primeiro, vamos à questão central: a vergonhosa conivência de parte dos políticos, juízes, advogados, policiais e atravessadores de todos os tipos com o crime organizado. Há todo um ecossistema de parasitas ganhando com a ilegalidade - e parasitas que gozam não apenas de poder de fogo, mas também de poder financeiro, judicial, político, institucional. A imprensa está rouca de denunciar políticos financiados pelo narcotráfico; narcocorruptos no sistema penitenciário e judicial; milícias policiais aliadas a chefões de morros etc.

É vital, é fundamental, é urgente que esses figurões sejam localizados e punidos. Não é de hoje que os cariocas sabem que os verdadeiros barões do tráfico moram no “asfalto” e não no morro. Gerentes de boca são mortos ou substituídos com frequência, mas os poderosos permanecem nas sombras. É preciso desentocá-los e prendê-los.

Aí, entra o segundo motivo para que a atuação do Exército seja relativizada: a falta de recursos para investir em segurança. Vivemos, nesse aspecto, uma tempestade perfeita. De um lado, narcopoderosos sabotam políticas públicas de segurança por meio do bloqueio de recursos. De outro, aqueles realmente empenhados em salvar vidas e cuidar da população carecem de tudo: dinheiro, equipamentos, suporte de inteligência, bons salários etc. Traduzindo: há os corruptos que falam muito, mas só passam na boca para pegar as férias do dia, e há os honestos que sequer têm gasolina na viatura para fazer sua ronda. Essa situação pode ser extrapolada para toda a hierarquia policial, executiva, legislativa, judicial, social, entre outras.

O quanto você é cúmplice?

O maior exemplo de que o Exército é apenas um esparadrapo camuflado é o que ocorreu na Copa de 2014 e na Olimpíada de 2016. As Forças Armadas podem inibir a atuação explícita dos criminosos, mas não os eliminam. Depois que elas se retiraram do Rio, foi apenas uma questão de tempo para que eles voltassem a circular. Neste sentido, o Exército corre o sério risco de se tornar refém da criminalidade e da violência, e não parte da solução.

Além disso, o Rio é um estuário em que desemboca toda uma estrutura criminosa: as armas são contrabandeadas pelas nossas fronteiras; as drogas, idem; o dinheiro é lavado em empresas de fachada no Brasil e no exterior; as ordens partem de presídios sem as mínimas condições de silenciá-las... mas há o outro lado: só há oferta, quando há demanda. Neste ponto, estou com o filme Tropa de Elite, de José Padilha. Quem financia tudo isso é a "esperta" classe média que só quer tirar um sarro e curtir a "vida loka". Quem financia tudo isso é você, “mermão”. E nada disso será resolvido pelos soldados a postos nas esquinas cariocas.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!