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Raquel Dodge terá de escolher entre a harmonia política e a Justiça

Márcio Juliboni
há um mês2.9k visualizações

Procuradora deve se preocupar em combater a corrupção, não em acalmar poderosos encurralados pela Lava Jato

Raquel Dodge terá de escolher entre a harmonia política e a Justiça
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(Foto: Marcos Corrêa/PR)

Enfim, Raquel Dodge é oficialmente a nova procuradora-geral da República. A sucessora de Rodrigo Janot tomou posse na manhã desta segunda-feira (18), para esperança de uns e preocupação de outros. Nas seis páginas de seu discurso, Dodge citou três vezes a palavra harmonia. Referiu-se a ela, quando tratou da relação entre a PRG e o Supremo Tribunal Federal (STF). Depois, quando aludiu à relação entre as instituições da República. Por fim, afirmou que ela é necessária entre os três poderes. Depois da chuva de flechas disparadas por Janot em seus últimos dias como chefe do Ministério Público, a voz suave de professora de etiqueta de Dodge foi providencial para os acuados pela Lava Jato. O problema é que, mais dia, menos dia, a nova procuradora-geral terá de escolher entre manter a harmonia com poderes carcomidos pela corrupção ou promover a Justiça.

Não se trata de maniqueísmo fácil de jornalista, mas de uma observação baseada em alguns elementos. Primeiro: o Ministério Público é uma instância independente no Judiciário brasileiro. Essa independência é assegurada pela própria Constituição de 1988 e foi apontada, pelos estudiosos, como uma condição fundamental para que avançasse o combate à corrupção nos altos escalões da República. Embora indicada por Michel Temer, o chefe do Executivo, e sabatinada pelo Senado, Dodge tem, a partir de agora, a prerrogativa constitucional de não dar satisfações a ninguém – sobretudo, a quem está atolado até o nariz no pântano das negociatas que apodreceram o país.

Segundo: como bem lembrou a própria procuradora, em seu discurso, a intolerância com a corrupção anda alta. É verdade que, diante do sumiço das “lideranças populares” que encamparam o Fora Dilma (MBL? Vem Pra Rua? Revoltados Online? Alexandre Frota?), do silêncio das ruas e das panelas caladinhas, a indignação dos brasileiros contra o roubo do dinheiro público pode ter sido apenas fogo de palha ou um surto histérico decorrente da falta de ansiolíticos no mercado. Mas, mesmo que o povo tenha se acomodado (ou se cansado, ou se desiludido), ainda haverá olhos vigiando atentamente cada ato ou omissão de Dodge. Falo da imprensa e, sobretudo, da oposição (ou o que sobrou dela). A última tem especial interesse no que a procuradora fará, pois, qualquer conivência com o PMDB e seus comparsas será um prato cheio para discursos inflamados em palanques até as eleições de 2018.

Ofensa é elogio

Terceiro: a função primordial do Ministério Público é zelar pelos interesses dos brasileiros, o que inclui uma luta renhida contra qualquer tentativa de assaltá-los, mesmo que os bandidos vistam ternos caros, gravatas de grife, apareçam na TV em cargos poderosos e reajam com a indignação de um monge franciscano, quando acusados de crimes como os investigados pela Lava Jato. Dodge não precisa ser adorada, mimada, cortejada ou se orgulhar de tirar selfies com o alto escalão da política brasileira, se ele estiver do lado errado da lei. Deve, sim, encarar cada ataque de corruptos como um elogio, como o sinal de que está no caminho correto.

Por isso, é preciso saber exatamente o que Dodge entende por “harmonia”. Se estiver se referindo ao respeito às leis e a uma convivência civilizada entre atores políticos que a Constituição, sabiamente, coloca em polos opostos para servirem de pesos e contrapesos, então tudo bem. É o que se espera de quem está na cúpula do poder no país. Mas, se estiver pensando que harmonia é não contrariar, não melindrar, nem irritar poderosos com perguntas incômodas, investigações urgentes e denúncias duras contra quem merecer, então a palavra certa não é essa; é subserviência.

Eleição de 2018 já conta com 12 milhões de mentirosos (e você pode ser um)

Márcio Juliboni
há um mês2.6k visualizações

Um bando de trolls, haters, bots, MAVs e mentirosos promoverá uma hecatombe zumbi nas redes, em busca de cérebros para devorar

Eleição de 2018 já conta com 12 milhões de mentirosos (e você pode ser um)
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(Imagem: Banksy/Reprodução/Site oficial de Banksy)

Definitivamente, 2018 sufocará qualquer sanidade mental, quando o assunto for política. Desde a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, os estudiosos brasileiros se preocupam com o efeito das fake news por aqui. A má (e verdadeira) notícia é que há motivos de sobra para sermos pessimistas. Um estudo do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai), da USP, constatou que nada menos que 12 milhões de brasileiros compartilharam notícias falsas de política apenas em junho pelas redes sociais. Com base numa estimativa conservadora de que 200 amigos tenham visto o material, o alcance chegaria virtualmente a toda a população do país.

Publicado pelo Estadão deste domingo (17), o estudo é um alerta sobre como será difícil combater boatos e mentiras nas próximas eleições. Segundo o Gpopai, a fonte dos fake news são 500 páginas na internet. Como já escrevi aqui no Storia (2018: o ano em que os robôs elegerão o presidente do BrasilFake news e boatos: por que os fatos não bastam para acabar com essas pragas), o diabo é que desmentir algo assim é trabalho para um Hércules pós-moderno, versado tanto em computação, quanto em ciências cognitivas – e, mesmo assim, não haverá garantias de sucesso.

O motivo é simples: psicólogos comportamentais, psiquiatras, psicanalistas, neurocientistas e cientistas da cognição estão convencidos de que enxergamos apenas o que desejamos, e descartamos aquilo que contradiz nossas crenças. Em situações extremas – como num embate impiedoso para defender seus valores e seus candidatos -, nos aproximamos perigosamente daquilo que, a rigor, a ciência já chamou de paranoia, mas cuja nomenclatura moderna é transtorno delirante. Sim, caro leitor, é duro dizer, mas alguns fanáticos são, literalmente, doentes mentais.

Hecatombe zumbi

O problema é que eles influenciam outras pessoas. Antes, doenças eram transmitidas apenas por meios físicos, como o contato humano. Agora, corremos o risco de descobrir que paranoias (no sentido científico) podem ser contagiosas e se propagar por redes sociais. O caso piora, quando se lembra que, ao lado dos 500 sites que divulgam mentiras deslavadas, há outro grupo, um pouco menor, de sites que distorcem descaradamente os fatos. Eles foram classificados pelos pesquisadores da USP como “junk news”. Não chegam a mentir, mas carregam nas tintas e entortam a verdade até caber em suas crenças, ideologias e conveniências. Há, é claro, fake news e junk news de todos os sabores – coxinhas e mortadelas são igualmente servidas.

Então, ficamos assim: em 2018, as redes sociais sofrerão uma hecatombe zumbi. Bandos de robôs (softwares que simulam interação humana para espalhar notícias, atacar perfis etc.), trolls (internautas que entram em discussões apenas para tumultuá-las), haters (pessoas que despejam ódio contra quem discorda de suas ideias), MAVs (militantes em ambientes virtuais, gente paga para promover partidos e candidatos), e 12 milhões de mentirosos estarão nas redes sociais, famintos por cérebros para devorar. E você pode ser um deles – se já não é.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!