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Se nazismo é socialista, Bolsonaro é de esquerda

Márcio Juliboni
há 2 meses9.7k visualizações

Filiado a um partido socialista, defensor de greve nas Forças Armadas e julgado na Corte Militar por exigir aumento salarial... comuna, só pode ser comuna!

Se nazismo é socialista, Bolsonaro é de esquerda
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(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil)

A bizarra insistência com que alguns grupos pregam, nas redes sociais, que o nazismo é “de esquerda” ultrapassa qualquer limite da honestidade intelectual necessária para um debate realmente sério sobre os profundos problemas do Brasil. Eu poderia escrever agora um textão comparando um com outro, recorrer a pensadores e cientistas políticos etc, mas prefiro outro caminho. Seguir, passo a passo, o raciocínio desses cidadãos de bem para provar que, pela sua lógica, Jair Bolsonaro é, pasmem, de esquerda!

Duvida? Vamos lá!

Argumento 1 (o mais tosco): o nazismo é de esquerda, porque tem “socialismo” no nome. Ora, ora, ora... Jair Bolsonaro é um grande esquerdista! Veja: embora diga que trocará de partido o mais rápido possível, ele é formalmente filiado ao Partido Social Cristão (PSC). Só poderá assinar a ficha de filiação com o PEN (se assinar, pois impôs condições que a direção da legenda reluta em cumprir) na janela de troca partidária para que não perca o mandato. Logo, desde o ano passado, ele milita num partido de esquerda. Por quê? Ora! Se tem “social” no nome é socialista. “Ah, mas ele está de saída.” Puxa, se o deputado é coerente com seus ideais, não deveria nem ter se filiado ao partido. Se filiou? É porque gosta de “social”. Coisa de esquerdista.

Argumento 2: assim como o nazismo, o socialismo defende a ditadura. Logo, o nazismo é de esquerda. Mais um ponto para o Bolsonaro esquerdista! Além de homenagear o coronel Ustra em seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff (um notório torturador), acrescentou, dias depois, que o erro do regime foi torturar, e não matar, os adversários. Coisa de socialista que defende a aniquilação do adversário por uma ditadura.

Argumento 3: só esquerdistas defendem greve; quem é de direita trabalha e prospera sozinho. Bolsonaro é esquerdíssimo nisso. Na edição de Veja de 3 de setembro de 1986, o então capitão de artilharia do 8º Grupo de Artilharia de Campanha e paraquedista escreveu um artigo que causou fúria na hierarquia militar. O motivo? Reclamava da elevada inflação, que corroía o poder aquisitivo do soldo das Forças Armadas, afirmava com todas as letras que o salário era baixo e não se podia viver com ele, apoiava cadetes expulsos da corporação por se rebelarem (num nítido desprezo pela hierarquia, própria de comunas), e ainda dizia que, ao contrário dos demais funcionários públicos, não havia como se defender, porque greves eram proibidas no Exército. Leia, caro incrédulo:

“Agora, na Nova República, novamente sofremos uma grande perda salarial: a maioria dos trabalhadores, através de lutas sindicais que nos são expressamente proibidas, gozava de adiantamentos, trimestralidade, bônus e outros ganhos que foram incorporados aos salários. Como não tínhamos esse privilégio, perdemos novamente o equivalente a três meses de inflação na época em que ela corroía consideravelmente o poder aquisitivo da população.”

Se nazismo é socialista, Bolsonaro é de esquerda

(Reprodução/Veja)

O quê? Quem fala de perda salarial é petralha. Quem menciona “trabalhadores” é comunista. Lutas sindicais... ainda por cima, reclamando que não tem direito a elas... é um subversivo! Inflação comendo salário? “Chola mais, esquerda, chola”, como dizem os pseudointelectuais de Facebook. Se preocupar que o aumento de preços estava maltratando o bolso da população? Que é isso? População? Quem se preocupa com o povo é comuna.

Até a boina que ele usava na foto da Veja era vermelha. Coisa de bolivariano, cubano, castrista. Mentira? Tanto é verdade, que os superiores de Bolsonaro o levaram à Corte Militar por isso. Censuraram publicamente as declarações. Consideraram-no insubordinado. Agitador. Enfim, coisa de quem não tem o que fazer. Se tivesse, iria trabalhar. Quer saber? Esse Bolsonaro “chola muito”. É uma melancia! Verde por fora e vermelho por dentro.

Caro homem branco, pare de se fazer de vítima na política

Márcio Juliboni
há 2 meses4.8k visualizações

Que direitos o governo e a sociedade estão lhe roubando? Os de agredir mulheres, discriminar outras raças e matar homoafetivos por puro medo?

Caro homem branco, pare de se fazer de vítima na política
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(Foto: membros da Ku Klux Klan/ Domínio Público/ Flickr)

Não demorou muito para que brasileiros de várias idades, nível educacional e faixa de renda saíssem em defesa dos supremacistas brancos que marcharam em Charlottesville no fim de semana. Aos que criticam a omissão de Donald Trump nos primeiros dias após os confrontos e a morte de uma militante antissupremacista, atacam com o que têm de melhor (RISOS): sites que juram que tudo não passou de uma armação da extrema-esquerda americana para queimar o filme dos pobres meninos brancos que defendiam legitimamente seus direitos.

A quem critica o discurso de ódio de Trump, exibem sua disfunção cognitiva e respondem, com veneno, de que não há nada que ligue o presidente americano à violência vista nos últimos dias nos EUA. Por fim, a quem adverte que, nas atuais condições políticas, o Brasil corre um sério risco de eleger um Trump verde-amarelo, rasgam-se em gargalhadas, dizendo que isso é choro de quem tem medo de um governo firme. Enfim, coisa de maricas que não aguenta um presidente cheio de testosterona.

Mas o que esses aspirantes brasileiros a supremacistas omitem, convenientemente, é que o ódio de seus colegas americanos é causado pelo mais puro medo de que a sociedade avance – e os deixe para trás. Numa perversão de raciocínio típica de paranoicos, acusam seus críticos de vitimismo, enquanto marcham para denunciar supostas injustiças de que seriam... vítimas!! Papo de jornalista mal informado e canalha? Bom, veja, caro homem branco, o que Vincent Law, um supremacista que participou do ato em Charlottesville, escreveu no site AltRight.com:

“Não temos mais medo.

Para uma minoria considerável e capacitada de nossos jovens homens, o inato e masculino desejo de construir algo maior que si mesmos, de ser parte de uma tribo e deixar um legado para nossas crianças, agora supera o medo de doxxing [prática de hackear alguém em busca de informações pessoais], de perder seus empregos, e do ostracismo social. De fato, as ações orwellianas das várias entidades governamentais envolvidas na supressão de nossos direitos só endureceram a determinação de nosso movimento."

Perguntas: a que direitos se referem, quando denunciam ações orwellianas do governo? Ao direito de ocupar 56% do mercado de trabalho, sendo que as mulheres representam 51,6% da população brasileira? Ao direito de ganhar 24% mais que elas ao exercer a mesma função? Ao direito de assediá-las moral e sexualmente no trabalho, nos transportes e nas baladas? De cometer violência doméstica e sair impune? De cometer feminicídio e se livrar?

Os direitos são de todos

Ao direito de ganhar 47% mais que os negros, quando se trata de empregos de nível superior? Ao direito de criar um ambiente de trabalho em que 60% dos negros afirmam já ter sofrido alguma espécie de racismo? Ao direito de matar uma pessoa a cada 25 horas por homofobia?

São a esses direitos que se referem os revoltados homens brancos? Se forem, francamente, essa macheza de filme B é apenas uma grande fachada para a geração mais egoísta, medrosa, frágil e insegura de homens dos últimos tempos. Agora, se eles se referem ao direito a um bom emprego, a uma vida digna e em paz... caramba! Isso não é um direito exclusivo deles. É direito de todos, independentemente de sexo, raça, credo etc. Um direito pelo qual todos estão lutando – e não se fazendo de vítima, como acusam os homens brancos. Homens que se garantem ajudam os outros a crescer e não lhes puxam o tapete para eliminar a concorrência. Quem faz isso não é homem. É um covarde branco... de medo.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!