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Sérgio Moro está certo: democracia, sim; militares, não

Márcio Juliboni
há 15 dias4.5k visualizações

Alguém que pede uma intervenção militar é apenas uma criança crescida berrando pela mãe, porque não consegue resolver os problemas com o amiguinho sozinho

Sérgio Moro está certo: democracia, sim; militares, não
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(Foto: Lula Marques / AGPT/ Fotos Públicas)

Para desgosto de muitos fãs, Sérgio Moro discorda de quem defende que só uma intervenção militar seria capaz de colocar o Brasil em ordem. O juiz que amedronta figurões da política e dos negócios afirmou, nesta segunda-feira (2), com todas as letras, que “a resposta aos males democráticos, como a corrupção, é o aprofundamento da democracia.” E emendou: “Este período da ditadura militar foi, e não há dúvida disso, um grande erro.” Não poderia ser mais oportuno que o principal nome da Lava Jato, acusado de inquisidor e tirano por corruptos de direita e de esquerda, defenda o tão falado Estado Democrático de Direito neste momento. Mas o que é o tal “aprofundamento da democracia”?

A resposta mais imediata, colocando-se no lugar de Moro, é que a democracia só avançará, quando a lei efetivamente valer para todos. Neste sentido, a Lava Jato tem feito um belo trabalho de dedetização de roedores que infestavam a máquina pública, alimentando-se de dinheiro público desviado de contratos superfaturados, contribuições escusas a parlamentares e partidos etc., mas isso não basta. De que adianta prender tantos corruptos de alto escalão, se a lei é sumariamente ignorada por muito batedores de panela e modelos de camisetas da seleção brasileira?

A lei só valerá para todos, quando juízes e desembargadores não utilizarem seus cargos e amigos para livrar filhos da prisão, como ocorreu recentemente com um pimpolho pego com drogas e munições em Mato Grosso do Sul e liberado por um habeas corpus generoso de um amigo de sua mãe. A lei também só valerá para todos, quando coxinhas e mortadelas não se orgulharem de manter a carteira de motorista estourada de pontos, às custas de propinas pagas ao Detran.

Democracia não é para preguiçosos

Outro elemento para aprofundar a democracia brasileira é a efetiva vigilância da população. Bater panela para os adversários políticos e calar sobre seus bandidos de estimação não é cidadania – é pura e simples hipocrisia. E há muitos hipócritas destilando um moralismo raivoso em redes sociais e mesas de bar, camuflando convenientemente o fato de que não estão fazendo mais nada para mudar o país, além de publicar ofensas no Facebook.

Uma democracia é um sistema para adultos, não para crianças enrugadas e chorosas. Democracia pressupõe a capacidade de um povo se autogovernar, por meio do debate público e da busca de soluções que beneficiem o máximo de pessoas. Alguém que pede uma intervenção militar é apenas uma criança crescida berrando pela mãe, porque não consegue resolver os problemas com o amiguinho sozinho. Buáá... ele não pensa como eu. Buáá... ele me roubou. Buáá... meu candidato me traiu. Buáá... eu votei sem pensar. Alguém já disse que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Só os acomodados abrem mão da primeira, para não se cansar com a segunda. E, se há algo que não se pode dizer, é que Moro seja acomodado. Como se vê, muita gente o admira... mas poucos gostariam de ser como ele.

Chegou a hora de Marina presidente?

Márcio Juliboni
há 17 dias2.9k visualizações

Marina Silva pode chegar ao Planalto, se não tropeçar na sua incapacidade de falar claramente sobre seus objetivos e suas propostas

Chegou a hora de Marina presidente?
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(Foto: Leo Cabral/ MSILVA Online/Agência Fotos Públicas)

A coisa mais interessante da pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (01) não é a resistência de Luiz Inácio Lula da Silva, que se consolidou em primeiro lugar nas intenções de voto, apesar de tudo o que você já está caindo de saber. Também não é a estabilização de Jair Bolsonaro no segundo lugar. Tampouco é a incapacidade de João Doria e Geraldo Alckmin de apresentarem um desempenho relevante, ou a incompetência de Fernando Haddad, o plano B do PT, de atrair os votos de Lula, caso seu mentor político não concorra. O ponto principal é o indício de que Marina Silva começa a ser vista como uma alternativa séria, capaz de escapar da polarização entre bolsonaristas e lulistas. Será que chegou a hora de a ex-senadora acreana presidir o Brasil?

Primeiro, vamos aos números. A Folha de S.Paulo publicou, na edição de hoje, oito cenários para outubro de 2018. Antes de tudo, é preciso dizer que eles não são exatamente comparáveis, e há algumas simulações malucas, como a que coloca Sérgio Moro e Joaquim Barbosa concorrendo entre si. Sinceramente, é jogar dinheiro do Datafolha fora. Mas, nos cenários mais coerentes, Lula lidera com 35% a 36% das intenções, conforme o candidato tucano seja, respectivamente, Doria ou Alckmin. Bolsonaro vem em segundo, com 16% e 17%, e Marina Silva, em terceiro, com 14% e 13%.

Plano B, C, D...

Se Lula for condenado em segunda instância pelo Tribunal Federal Regional de Porto Alegre, responsável por revisar as decisões de Sérgio Moro, será retirado da disputa. Primeiro, porque será ficha suja. Segundo, porque estará preso. O PT estuda, mesmo que a contragosto, quatro alternativas para a situação. A primeira é carregar a candidatura de Lula no peito, sustentada por todos os recursos judiciais, liminares e habeas corpus que forem possíveis, ao mesmo tempo em que vende a tese de perseguição política ao “maior líder popular” do Brasil. Seria uma opção de alto risco, porque incendiaria o país e, no final, não haveria garantia de que Lula subisse a rampa do Planalto novamente. A segunda saída é boicotar a eleição, sob o mantra de que um pleito sem Lula é ilegítimo. As duas últimas opções são apoiar Ciro Gomes, ou lançar Fernando Haddad.

Com exceção da primeira, todas demais possíveis respostas do PT a uma eleição sem Lula beneficiam, sobretudo, Marina Silva. A ex-senadora, ex-ministra de Lula e ex-petista histórica é a que mais herda seus eleitores. Na média, ela passaria de 14% das intenções para 23% (um ganho de 9 pontos percentuais, dos 36 deixados por Lula para serem disputados entre os concorrentes). Esse impulso seria suficiente para levá-la à liderança da corrida no primeiro turno, segundo o Datafolha, à frente de Bolsonaro. Mesmo quando Ciro Gomes e Fernando Haddad entram na lista, a ex-senadora mantém-se na ponta. Ciro, por exemplo, herdaria apenas 6 pontos percentuais dos 36 de Lula. E Haddad, coitado, ficaria com míseros 3 pontos.

Na simulação de segundo turno, Marina ganharia de lavada de Bolsonaro: 47% a 29%. Seria um feito e tanto, já que, na pesquisa da CNT/MDA publicada no fim de setembro, Bolsonaro venceria três dos cinco cenários de segundo turno. Perderia apenas para Lula e Marina, com o adendo de que Marina estaria, na verdade, tecnicamente empatada com o ex-capitão do Exército naquela simulação. Já na pesquisa do Datafolha de hoje, a diferença está bem longe da margem de erro de 2 pontos para cima ou para baixo. Por último, Marina surge como uma opção bem mais palatável que o explosivo Ciro Gomes, célebre pelo pavio curto e por pérolas como dizer que a única função de sua esposa, a atriz Patrícia Pillar, é dormir com ele. Fácil, né, em tempos de luta pelo empodeiramento feminino...

Menos sonhática, por favor

Isto posto, resta a pergunta: Marina pode até crescer no vácuo de Lula e se cacifar à Presidência do país, mas ela aprendeu com os erros de sua campanha de 2014? É verdade que parte considerável de sua derrota deveu-se aos ataques inescrupulosos de Dilma Rousseff. Basta lembrar que o PT explorou, de modo sanguinário, o fato de uma das colaboradoras mais próximas de Marina, Neca Setúbal, ser uma das donas do Itaú Unibanco. Foi a deixa para que o marqueteiro petista, João Santana, hoje preso pela Lava Jato, veiculasse uma peça que era um primor de mau-caratismo: uma roda de banqueiros mafiosos rindo, enquanto uma família via a comida no prato diminuir.

Mas Marina não foi derrotada apenas pela estratégia petista de satanalizá-la. A ex-senadora foi vítima, também, de suas próprias incoerências, hesitações e inconsistências. Marina relutou em adotar posturas claras sobre temas que, naquele momento, eram sensíveis, como o aborto. Tampouco conseguiu falar, com clareza, sobre sua política econômica, apesar dos esforços de seu braço-direito para a área, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. Sua incapacidade de se comunicar com clareza, aliás, é uma de suas maiores fraquezas. Alguém já se esqueceu, por exemplo, de que, para mudar o país, precisávamos ser “sonháticos”? Marina pode estar mais perto do que nunca de ocupar o Palácio do Planalto. O PT de 2018 é uma moribunda lembrança do de 2014. O risco é que ela tropece nas próprias palavras novamente.

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!