Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
1BB34097-F786-44E7-9A1A-E8A05C0914DB
Burger
Brasil: manual de instruções
ic-spinner
Todo mundo tem uma história para contar
Encontre as melhores histórias para ler e autores para seguir. Inspire-se e comece a escrever grandes histórias sozinho(a) ou com seus amigos. Compartilhe e deixe o mundo conhecê-las.

Viu, caro conservador, como você já gosta da Paulista fechada aos domingos?

Márcio Juliboni
há 2 meses2.3k visualizações

Um dia, ironicamente, você passará a criticar sua reabertura aos carros, pois será uma mudança para a qual não estará preparado...

Viu, caro conservador, como você já gosta da Paulista fechada aos domingos?
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: Fernanda Carvalho/ Fotos Públicas)

Neste domingo (06), a meteorologia indica um dia friozinho em São Paulo, com sol entre nuvens. De qualquer modo, entre ficar em casa assistindo ao Faustão e dar uma volta, milhares de paulistanos já colocaram suas bicicletas, skates, patins, patinetes a caminho da Avenida Paulista. Artistas de rua apresentando animados shows de mágica ou se passando por estátuas humanas, grupos musicais colocando casais e amigos para dançar em todos os ritmos. Crianças correndo livremente, cachorros se socializando com cachorros, fotógrafos amadores desenferrujando o olhar. Enfim, vida vicejando ao ar livre, como toda e boa vida deveria ser. Ah, mas em 2015, aposto que você, caro leitor conservador e antipetista, não pensava assim.

Em 2015, a proposta do então prefeito paulistano Fernando Haddad foi torpedeada por conservadores, tucanos e parte da imprensa. O então colunista da Veja Reinaldo Azevedo chegou a afirmar que a democracia de Haddad envolvia apenas “20 pessoas”. Comerciantes e moradores da região fizeram protestos e abaixo-assinados. Evocavam um cenário apocalíptico, caso uma das principais e mais famosas vias de São Paulo passasse 12 horas fechada à circulação de veículos por semana. O comércio iria despencar! Os hospitais da região não conseguiriam atender quem precisa de socorro! Os moradores não conseguiriam sair de casa e, pior, ficariam ilhados por farofeiros mal-educados!

De autoritário a democrático

O Ministério Público de São Paulo tentou barrar a iniciativa. Chegou a propor um meio termo: que duas pistas da avenida ficassem abertas ao trânsito em cada sentido. Carros, bicicletas e transeuntes que se entendessem. Não vingou. Haddad foi recebido com vaias de militantes do Movimento Brasil Livre, quando inaugurou a ciclovia local em junho daquele ano. Em 18 de outubro, quando o fechamento aos domingos passou a vigorar, Haddad foi acusado de autoritário, populista e de afrontar as determinações dos procuradores de Justiça.

Passados praticamente dois anos, a Paulista tornou-se um dos espaços públicos de lazer mais badalados da cidade – a ponto de a Veja São Paulo se render às evidências e manchetar, em uma de suas edições de março, que a “Avenida Paulista aos domingos vira calçadão democrático.” Para choro e ranger de dentes dos conservadores que, em memes de Facebook e covardemente escondidos no anonimato das redes, ladram contra qualquer mudança, mas tiram selfies alegremente com sua bike na avenida aos domingos.

Michael Oakeshott explica

O que isso revela? A essência do pensamento conservador. E não sou eu quem estou dizendo. Depois de ser tão xingado e tomado por ignorante por conservadores que me mandavam ler, antes de falar m..., fiz meu dever de casa. Estou lendo “Conservadorismo”, de Michael Oakeshott, filósofo e teórico político britânico que é considerado um dos mais importantes pensadores dessa corrente. A versão brasileira é da Editora Âyiné e integra a coleção Biblioteca Antagonista. Mais conservador do que isso, impossível.

Mas o que nos diz Oakeshott sobre aquilo que ele defende? No ensaio “Ser conservador”, o filósofo escreve, com todas as letras na página 137: “ser conservador é, pois, preferir o familiar ao estranho, preferir o que já foi tentado a experimentar, o fato ao mistério, o concreto ao possível, o limitado ao infinito, o que está perto ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, a risada momentânea à felicidade eterna.”

Alguns parágrafos depois, como consequência lógica (afinal, ele é um filósofo zeloso de sua lógica), Oakeshott apresenta a visão dos conservadores sobre mudanças. “Mudanças”, diz ele, entre as páginas 138 e 139, “são circunstâncias às quais devemos nos acomodar, e a inclinação a ser conservador é tanto o símbolo de nossa dificuldade de assimilar essa acomodação quanto a referência que utilizamos para assim agir. (...) Ele [o conservador] tem grande dificuldade em se ajustar a novos cenários não porque tenha perdido algo melhor [com a mudança] do que a compensação [decorrente da mudança], nem porque esta não seja passível de ser desfrutada, mas sim porque o que ele perdeu era algo que de fato gozava e que ele aprendeu a gostar ao longo do tempo, ao contrário do que entrou em seu lugar: uma coisa estranha, fria, sem laços afetivos.”

Basta aprender a gostar

Por fim, Oakeshott afirma que, para um conservador, o ônus de provar que a mudança é positiva cabe àquele que a propõe. Tal prova deve abarcar todo o conjunto de prós e contras, antes que um conservador a aceite. E sua aceitação será tanto mais fácil, quanto mais pontual e específica for a mudança proposta. Tudo por uma questão de relutar em trocar as confortáveis pantufas das certezas presentes pelos incômodos sapatos novos da mudança. O problema, como ele mesmo admite, é que os conservadores não têm espírito aventureiro. Nenhum conservador se lançaria numa caravela para saber se o mundo é redondo. Imagine, então, ser o primeiro a andar de bicicleta na Paulista aos domingos!

Mas há uma esperança: basta um pouco de tempo para que os conservadores percebam que a ideia é boa, experimentem e aprendam a gostar, a estabelecer os necessários “laços afetivos” com a nova situação. Até que, um dia, ironicamente, passarão a defender que a Paulista seja fechada para sempre aos domingos, porque reabri-la aos veículos seria uma mudança para a qual não estarão preparados...

Temer adota a política do “pede pra sair” no Congresso

Márcio Juliboni
há 2 meses3.5k visualizações

Presidente, que já não esbanja apoio, não tem nada capaz de aglutinar novos aliados e entra no cheque especial da credibilidade

Temer adota a política do “pede pra sair” no Congresso
Colaborar com amigos em assuntos que você ama
Pedir coautoria ▸

(Foto: Alan Santos/PR)

Na entrevista de duas páginas publicada neste sábado (05) pelo Estadão, Michel Temer mostra que esgotou sua capacidade de atrair aliados para votações importantes. Em vários momentos da conversa com o jornal, Temer dá sinais de que não forçará nenhum dos infiéis que votaram pela aceitação da denúncia de corrupção passiva, apresentada por Rodrigo Janot, a deixar a base aliada. Mas também não tem muito a oferecer para que fiquem. Em suma, a partir de agora, seguirá o princípio do “os incomodados que se mudem”.

Falando, por exemplo, da pressão do Centrão para que puna os infiéis, Temer afirmou que “os próprios [parlamentares] que não votam com o governo vão se sentir pouco à vontade de participar de um governo que não apoiam. Tenho a impressão de que vão acabar saindo.”

O mesmo vale para seu aliado mais precioso: o PSDB, que literalmente rachou ao meio na votação da denúncia contra o presidente, na semana passada, com 22 votos a seu favor, 21 contra e quatro ausências. “Quem estiver sentindo-se mal no PSDB sairá do governo, não tenho dúvida. Não estou dizendo o partido como um todo, porque lá há uma divisão muito grande.”

Cheque especial

Resumindo, um dos verbos mais pronunciados por Temer, na entrevista, é “sair”. Quem tiver que abandoná-lo, que o faça. O problema é que o peemedebista não está esbanjando força política, nem popularidade nas ruas. Faz tempo que está no cheque especial da credibilidade. Não pode se dar ao luxo de perder aliados, diante das tarefas que se dispôs a enfrentar – com a reforma da Previdência no centro do palco, e outras denúncias apresentadas por Janot na fila.

Ao fim e ao cabo, Temer não saiu fortalecido do arquivamento da denúncia; pelo contrário, provou de seu próprio veneno, ao tornar-se refém de uma base que só funciona à base de cargos e verbas. Não há nada que aglutine forças ao seu redor, mas muitos fatores que podem afastar as poucas que ainda estão com ele: a impopularidade das reformas e do presidente, a Lava Jato e as eleições de 2018.

Da boca para fora, Temer posa de estadista. Defende que o Congresso não precisa, necessariamente, ser a seu favor para apoiar suas propostas, porque elas representariam as medidas necessárias para tirar o país do sufoco e voltar a crescer. Lembrando das aulas de retórica, diz que há impopularidades e impopularidades. A de Dilma Rousseff seria causada pela sua incompetência e pela intolerância do povo com a corrupção que se alastrou nos governos petistas. A dele decorreria de sua disposição de promover as reformas necessárias, contrariando o caminho fácil do populismo e enfrentando interesses corporativistas. Trata-se de um discurso no melhor estilo “a História me reconhecerá”. É um pensamento reconfortante... mas só para ele.

Você leu a pasta de história
Story cover
escrita por
Writer avatar
m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!