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Você vai votar ou se vingar em 2018?

Márcio Juliboni
há 6 dias969 visualizações

Em vez de protestar nas ruas, brasileiros querem se expressar nas urnas. Será que se arrependerão do que vão dizer aos políticos?

Você vai votar ou se vingar em 2018?
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(Imagem: V de Vingança/Divulgação)

Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), publicada nesta semana, traduziu em números aquilo que já estava no ar: o povo cansou de ir às ruas e espera as eleições de 2018 para dedetizar a política brasileira. Elaborado pela sua Diretoria de Análises de Políticas Públicas (DAPP), o estudo mostra que 58,8% dos entrevistados concordam que protestar é importante para pressionar o governo a mudar, mas não pretendem mais participar de manifestações. O motivo é que 74% das pessoas acreditam que é mais importante saber votar do que comparecer a atos públicos. Não há nada de errado até aqui. Afinal, uma democracia madura e saudável pressupõe que as pessoas votem bem. O problema é o que, raios, os brasileiros entendem por “saber votar”.

O perigo está, justamente, nessa autodeclarada sabedoria dos eleitores – algo para lá de subjetivo. A mesma pesquisa apontou que 18% dos entrevistados, em 2018, votarão nos candidatos do partido que apoiam. Para esse grupo, portanto, “saber votar” é ser fiel às suas convicções político-partidárias, pouco importa se a legenda de que gostam está mais ou menos mergulhada na lama da corrupção. Outros 16,1% pretendem votar em alguém que já atua na política, independentemente do partido. São os que buscarão uma agulha de honestidade no palheiro do fisiologismo nacional. Há, ainda, quem esteja tão cansado do que viu nos últimos tempos, que deseja mudanças mais profundas e quer apoiar um candidato novo, cujo passado não esteja emporcalhado pela política tradicional. Estes representaram 29,8% dos consultados pela DAPP/FGV. Por fim, outros 29,3% declararam que votarão em branco ou anularão seu voto. Na prática, estão nos dizendo que não há ninguém digno de respeito no horizonte.

Se, por um lado, a disposição das pessoas de renovar a política é bem-vinda, por outro, ela anda de mãos dadas com o risco do voto vingativo, de protesto no mau sentido da gozação, da zombaria, da desqualificação do Congresso, por meio da eleição de subcelebridades, atletas decadentes, aventureiros caricatos. Há uma grande brecha mental para que isso aconteça: aquela que diz que “todo político é igual”, “todo político é corrupto”, “a política está podre” etc. Essa percepção também foi medida pela FGV: 64% dos entrevistados concordaram totalmente que o sistema político brasileiro impede o surgimento de um líder honesto e preocupado sinceramente com o povo. Outros 13% concordaram mais do que discordaram da afirmação; e apenas 9% discordaram totalmente dessa avaliação.

Filme de suspense

Traduzindo: somados, 77% dos brasileiros creem total ou majoritariamente que a política é incapaz de produzir líderes dignos, honestos e comprometidos com a população. Agora, imagine a maioria desses eleitores desiludidos dispostos a votar em alguém novo, sem passado político. Só há três finais possíveis para esse dilema. No primeiro, eles realmente encontram o Santo Gral da política – um nome novo, honesto, capaz e com sensibilidade social. No segundo, se deixam iludir por algum aventureiro com uma boa conversa fiada, hábil em transformar sua inexperiência em selo de honestidade. No último, os eleitores concluem que a democracia brasileira é uma grande mentira e elegem candidatos esdrúxulos apenas para protestar e se vingar das velhas raposas que assaltaram os cofres públicos.

Dá para ficar preocupado com o fato de que, desses três finais, dois são bastante ruins? A história está cheia de exemplos de eleitores iludidos ou que votaram com o fígado e prejudicaram o país. Está aí o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conduzido à Casa Branca por um tsunami de emoções como medo, preconceito e desejo de autoafirmação de parte dos americanos – aquela composta por homens brancos de meia idade. Não é difícil enxergar as consequências de deixar que mágoas e birras decidam seu voto. Nesta quarta (11), por exemplo, a Associated Press divulgou uma pesquisa que mostra que 65% dos americanos consideram que o estilo machão de faroeste de Trump coloca em risco a segurança do país, ao provocar desnecessariamente a Coreia do Norte. Vamos seguir o mesmo caminho? É um suspense de tirar o fôlego...

Olavo de Carvalho quer consertar um Brasil que não existe

Márcio Juliboni
há 6 dias1.3k visualizações

Olavão pede que os brasileiros defendam um país que só ele enxerga lá de sua residência, nos Estados Unidos

Olavo de Carvalho quer consertar um Brasil que não existe
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(Foto: Reprodução/ Canal de Leandro Ruschel / YouTube)

O filósofo conservador Olavo de Carvalho não gostaria nada da entrevista do militante de direita Olavo de Carvalho, publicada nesta terça-feira (10) pela Folha de S.Paulo. Primeiro, porque Olavão, como costuma ser tratado pela sua legião de fãs, demonstrou na reportagem vícios que o filósofo autoexilado nos Estados Unidos condenaria. Segundo, porque Olavão, o eleitor de Jair Bolsonaro, receitas fórmulas para curar um Brasil que, simplesmente, não existe. Impossível? De modo algum. A história está cheia de pensadores que se embananam, quando descem do reino das ideias para a irritante balbúrdia do mundo real.

Vamos por partes e comecemos pela segunda questão. A certa altura da reportagem, Olavo de Carvalho afirma que se dispõe a aconselhar qualquer presidenciável, e se ressente de ter ganhado um bolo de Bolsonaro, cujo filho havia arranjado um encontro com o filósofo ao qual o ex-capitão do Exército faltou. Seu conselho para todos que o procurarem será o mesmo, segundo ele: “É preciso encontrar o caminho pelo qual o Brasil possa deslizar por entre as malhas da dominação globalista e preservar um pouco da sua soberania, da sua identidade, da sua cultura.”

Aqui, há uma baita derrapada do papa dos conservadores tupiniquins. Carvalho encara a identidade e a cultura brasileiras como algo já completo e bem definido - um monumento erigido pelos brasileiros ao longo de cinco séculos. Logo, seria muito fácil saber o que os nacionalistas deveriam preservar contra a “dominação globalista”: os valores da civilização verde-amarela. Mas... mas... quais são mesmo esses valores? Carvalho simplesmente não toca no ponto essencial da trajetória de nosso país: somos um povo em formação, um cadinho de culturas africanas, ibéricas, indígenas e de imigrantes de todo o mundo. Não somos, nem de longe, um povo puro, ariano, com traços étnicos, linguísticos, culturais e históricos perfeitamente homogêneos. Como falar de uma cultura e uma identidade brasileiras, quando a verdadeira riqueza do Brasil, como nos lembra o filósofo italiano Domenico De Masi, é justamente o nosso pluralismo religioso, étnico, cultural? Nossa força é, justamente, sermos mestiços!

Simplistas

No livro O Futuro Chegou (Editora Casa da Palavra), De Masi afirma: “A mistura de fatores tão diversos, que em outros contextos resultaria destrutiva, no nosso caso é benéfica. O conceito de ‘brasilidade’ remete imediatamente ao encontro e à relação interpessoal. As relações englobam os indivíduos. O individualismo assume uma acepção negativa. Viver significa ‘ter relações sociais’. Saudade significa interrupção infeliz dessas relações. À harmonia do físico, à sensualidade e à saúde acrescentam-se qualidades psicológicas como a amizade, a cordialidade, o senso de hospitalidade, a sociabilidade, a generosidade, o bom humor, a alegria, o otimismo, a espontaneidade, a criatividade. Por isso, a cultura brasileira é amada em todo o mundo: nunca ninguém teria bombardeado as Torres Gêmeas se elas estivessem localizadas no Brasil.”

O risco dessa visão conservadora de “preservar nossa identidade e nossa cultura” é o que estamos vendo agora na prática: já que não há uma única cultura, nem uma única identidade brasileira, os conservadores, de modo autoritário e arbitrário, elegem qual cultura e qual identidade, no meio dessa geleia geral, devem ser preservadas como as legítimas representantes do Brasil. Nada mais antibrasileiro, antinacional, do que querer enquadrar toda a riqueza de modos, costumes e raças do país na régua conservadora de Carvalho e seus seguidores. É por isso que os progressistas os irritam tanto. O que Olavão e suas Carvalhetes atacam histericamente como “relativismo moral”, os progressistas veem como aquilo que de fato é: ser brasileiro é cultivar a diversidade. Isso, sim, é digno de ser preservado e amado neste país. Pena que Olavão morra de amores pelo Brasil, morando nos Estados Unidos...

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m.juliboni
Escreve sobre política e economia desde 2000. E ainda se espanta com isso!!!