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Caetano Veloso x William Waack: quem você tiraria do ar?

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Antes de responder tão prontamente, lembre-se: a democracia é um regime frágil, que morre pela boca

Caetano Veloso x William Waack: quem você tiraria do ar?

(Imagem: Reprodução/Amnesty.org)

Sua alma, caro leitor, é o campo de batalha disputado violentamente nos últimos tempos por inúmeros grupos. Em comum, todos dizem que só querem o seu bem. Aliás, em comum, todos dizem que eles, de fato, sabem o que é melhor para você. Basta que você relaxe e se entregue. Sente-se e se deixe levar. Eles cuidarão de todo o resto, prestando-lhe um serviço político-social de primeira classe – e garantem que você não se arrependerá. De um lado, está quem acredita piamente que o Brasil corre o risco de se transformar na primeira República Orgiástica Homoesquerdista do mundo. De outro, os que temem que o país mergulhe numa nova Idade Média, ilustrada por belas fotos no Instagram. Os primeiros proíbem Caetano Veloso de se apresentar num assentamento do MTST, alegando suposta falta de infraestrutura para acomodar um artista de tamanha popularidade. Os outros denunciam o comentário racista do jornalista William Waack no Jornal da Globo. E você? Quem tiraria do ar?

Antes de responder tão prontamente, lembre-se: a democracia é um regime frágil, que morre pela boca. Por trás do cada vez mais quente debate sobre censura versus liberdade de expressão, está a tentativa de regular o que pode e não pode ser dito nesse imenso mercado de ideias chamado espaço público, agora elevado à enésima potência pela internet. Quem pode falar? Quem pode ser ouvido? Quem deve ser respeitado? Quem deve guiar milhares de pessoas? Um guitarrista de quinta categoria é alçado à condição de líder dos conservadores, por postas platitudes sobre o Brasil e o mundo em um canal do YouTube. Do outro lado, sites que viveram alegres tempos de bonança, às custas do dinheiro público fornecido pelos governos petistas, hoje caçam níqueis e apoiadores, em troca de ataques tão virulentos, quanto deturpados, ao cenário atual.

Em comum, nenhum deles mostra o menor compromisso com as verdades factuais ou, para ser mais brando, apresentam a devida honestidade intelectual de discutir, de peito aberto, as virtudes e os defeitos de suas ideias e das dos outros. Preferem o aconchego fácil dos estereótipos, a preguiçosa frase feita de manuais de militância (de esquerda e de direita). As caricaturas de memes de Facebook.

Trabalheira

O diabo da democracia é que ela requer o uso intensivo do nosso cérebro. Alguém já disse que o preço da liberdade é nossa eterna vigilância. Millôr Fernandes, um dos criadores do Pasquim, dizia que “livre pensar é só pensar”. Mas... ah, se a vida fosse tão fácil! Há quem use esses pressupostos para arrogar, para si e para sua panela, o direito de dizer qualquer barbaridade, de defender qualquer asneira, sob o pretexto da liberdade de expressão. Há quem acredite ser censurado, apenas porque foi alvo de críticas legítimas, ou, o mais grave, foi repreendido por promover o discurso de ódio e preconceito.

A jornalista Micheli Nunes, minha colega de Storia, gosta de citar uma lição do filósofo Karl Popper: a única coisa que não se deve tolerar é a própria intolerância. À medida que discursos de ódio e de preconceito avançam, vão excluindo e retirando direitos dos grupos que atacam. A lógica da democracia deve, sempre, ser garantir a ampliação do debate: incorporar mais gente, mais pontos de vista, mais ideias. Dá trabalho, porque são mais variáveis para se considerar, antes de tomar uma decisão. Mas é o único jeito de tornar o mundo mais inclusivo, e não mais excludente. Por isso, é preciso ter cuidado tanto com quem defende um pensamento único de esquerda, quanto com seu correlato de direita. Preocupe-se com quem acha que o outro lado não tem nada que preste. Que todo mundo que não segue sua turma é burro.

Como isso se aplica à pergunta do título? Sendo direto, impedir Caetano de cantar é censura. Repreender Waack por seu racismo é garantir a democracia. Na dúvida, pergunte-se sempre: este comentário ou atitude permite que mais ou menos gente participe do debate? A menos que você seja patologicamente avesso à diversidade, você já tem a resposta!