CONGRESSO

Cale-se e pague: o jeito como políticos e sindicalistas querem falar em seu nome

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Para os que se autonomearam nossos líderes, só cabe um papel ao povo: aplaudir e apoiar – de preferência, com dinheiro

Cale-se e pague: o jeito como políticos e sindicalistas querem falar em seu nome

(Imagem: Os presentes da Rainha de Sabá, Mattia Preti)

Dois assuntos que andam ao mesmo tempo no Congresso mostram o tamanho da crise de representatividade enfrentada pelo Brasil. De um lado, com a reforma política, os deputados querem, porque querem, criar um fundo público para financiar as campanhas eleitorais. De outro, os sindicalistas não se conformam com o fim do imposto sindical obrigatório e batem o pé, fazendo beicinho, para ganharem uma contribuição de até 13% do salário mensal dos trabalhadores como compensação. O que há em comum nos dois casos? A absoluta falta de vontade de políticos e sindicalistas de fazer o básico: representarem adequada e efetivamente o povo, a ponto de que os brasileiros, espontaneamente, os financiem para que continuem a defendê-los.

Mas isso dá muito trabalho, não é mesmo? Exigiria uma profunda mudança nas estruturas políticas, e não apenas uma reforma eleitoral cosmética. Passaria pela proibição de coligações, pelo fim de partidos de aluguel que querem apenas dinheiro do fundo partidário. Por cláusulas de barreira e de desempenho. Pelo fim do troca-troca partidário que implode qualquer fidelidade ideológica. Pelo voto distrital. Pela efetiva fiscalização das campanhas. Por regras mais rígidas para seu financiamento, restringindo a força do dinheiro e forçando as legendas a pulverizarem seu apoio.

Angariaria mais grana, quem mais conseguisse mobilizar cidadãos para a sua causa. Tocaria, também, na renovação das próprias estruturas internas dos partidos, permitindo a realização de prévias e assembleias para que novas lideranças, mais antenadas com seus militantes, surjam de tempos em tempos, escanteando ultrapassados caciques.

Companheiros, companheiros...

No movimento sindical, o cenário também é desanimador. O imposto sindical, que deve ser extinto em novembro, foi vendido como o caminho para apoiar as entidades que defendem o elo mais fraco na relação capital-trabalho: os empregados. Na prática, porém, tornou-se um grande criadouro de gatos gordos, mais preocupados em se reelegerem e se transformarem em braços de partidos políticos, do que em efetivamente representar as demandas da classe que finge defender.

Assim como os partidos, as centrais sindicais, federações, sindicatos e que tais deveriam passar por uma completa transformação, com o objetivo de tornar mais transparentes sua gestão, seus dirigentes, seus processos de decisão. Em vez de cobrar compulsoriamente uma taxa de todos os trabalhadores de uma dada categoria, o ideal seria incentivar filiações, contribuições espontâneas, doações, à medida que os sindicatos se empenhassem sinceramente em se aproximar de sua base, ouvi-la e, sobretudo, prestar-lhe contas. Tornar os processos de eleição mais democráticos, assegurar a rotatividade de chapas, a tão badalada alternância de poder.

Dilema de Tostines

Políticos, sindicalistas, cínicos e céticos em geral poderiam responder, prontamente, que os brasileiros são extremamente despolitizados. Pouquíssimos cidadãos dão bola para esses assuntos e, portanto, as chances de organizações políticas e sindicais se sustentarem apenas com doações espontâneas são nulas. Mas caímos, então, no Dilema de Tostines (essa é velha; agora, entreguei minha idade!!!): os brasileiros são despolitizados, porque partidos e sindicatos não se importam sinceramente com eles; ou partidos e sindicatos não se importam com os brasileiros, porque somos despolitizados?

Cada vez mais, penso que a despolitização dos brasileiros, sua aversão à organização, ao exercício da cidadania, tem fortes influências do modo como surgimos como país (basta ler Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda). Mas há, também, um conveniente desinteresse de políticos e líderes sindicais em, de fato, se dobrar às aspirações populares. Da mesma forma como somos alijados de serviços públicos de qualidade, como educação, saúde e segurança, também somos marginalizados das verdadeiras possibilidades de uma atuação consciente e cidadã. Não há nada mais incômodo para políticos e sindicalistas do que serem questionados por uma pessoa comum. Não há nada mais irritante, para eles, do que prestar contas. Para os que se autonomearam nossos líderes, só cabe um papel ao povo: aplaudir e apoiar – de preferência, com dinheiro.