POLÍTICA

Carnaval é coisa séria: 7 questões importantes debatidas pelos foliões

Author

Apropriação cultural, racismo, assédio, política... não faltaram polêmicas (para o bem e para o mal) na festa deste ano

Carnaval é coisa séria: 7 questões importantes debatidas pelos foliões

Beija-Flor: lobos se fingem de cordeiros para encher o bolso (Reprodução/YouTube)

Certa vez, o escritor Luís Fernando Veríssimo afirmou que a verdadeira questão existencial dos brasileiros se resumia a responder: “somos o que somos no Carnaval, ou somos o que somos no resto do ano?” Por trás da tirada bem-humorada, estão toneladas de debates antropológicos, sociológicos, psicanalíticos etc. Afinal, pouca gente duvida de que a festa do Rei Momo é um dos maiores laboratórios de interação social a céu aberto do mundo. Por seis dias (o pessoal já conta a partir da noite de sexta – e alguns já querem emendar além da quarta-feira de cinzas...), brasileiros de todas as idades, classes sociais, orientações sexuais e identidades de gêneros, religiões (alguns, claro, devidamente disfarçados), times de futebol, partidos políticos e muito mais se misturam por ruas, avenidas, arquibancadas da Sapucaí e do Sambódromo. Máscaras, fantasias e adereços, contudo, não conseguem disfarçar comportamentos que nos acompanham o ano todo. Aliás, servem, muitas vezes, para exacerbá-los, como se, no Carnaval, toda a moral estivesse revogada. Por isso, o que se viu nestes últimos dias foi um desfile de novos e velhos hábitos se confrontando – o que é muito bom!

Em particular, sete questões me chamaram a atenção neste ano. Em comum, elas mostram que o Carnaval pode ser um momento bem sério para se debater preconceitos, hábitos arraigados na sociedade e a realidade em que mergulhamos (ou nos mergulharam). Resta saber, como alerta Veríssimo, se toda essa consciência será varrida por garis sorridentes e sambistas ao fim da folia, junto com confetes, serpentinas e latas de cerveja; ou se nos acompanhará pelos próximos meses – e, quem sabe, anos? Em outras palavras: alguns apenas se fantasiaram de críticos sociais, ou continuarão na luta? Abaixo, seguem os pontos que merecem destaque, na minha humilde avaliação:

1) Crítica política

A Paraíso Tuiuti deu o tom, ao retratar o presidente Michel Temer como um vampiro vestindo uma faixa presidencial cheia de dinheiro. A escola de samba, que desfilou no grupo especial do Rio, aproveitou para criticar as formas modernas de escravidão, como a reforma trabalhista e a miséria. De quebra, tirou um sarro sofisticado dos paneleiros que marcharam pelo impeachment de Dilma Rousseff, de camisa da Seleção Brasileira e patinhos da Fiesp a tiracolo. Mas a Tuiuti não foi a única. A Mangueira trouxe um boneco do prefeito carioca, Marcelo Crivella, pendurado pelo pescoço como um Judas de sábado de aleluia, para criticar a sua decisão de cortar o financiamento municipal destinado ao desfile. Já a Beija-Flor apresentou uma ala inteira de lobos carregando malas de dinheiro.

2) Crítica social

Como política e justiça social são indissociáveis, as escolas também escancararam as chagas sociais que nos afligem. Neste quesito, a Beija-Flor fez um belo desfile, expondo a violência nos morros e no asfalto do Rio, os policiais mortos, o excesso de presos e as más condições em que são detidos, a falta de escolas etc etc. Mais claro do que isso, nem desenhando. O desfile também trouxe políticos com os bolsos cheios de dinheiro, dando bananas para a arquibancada, e pastores disputando ovelhas para seus rebanhos eleitorais. Os candidatos a qualquer coisa, nas eleições de outubro, ganhariam muito mais dispensando seus caros marqueteiros, e assistindo aos desfiles algumas vezes para entender o que está atravessado na garganta dos brasileiros comuns – aquela gente que só veem pela televisão, acordando cedo, andando de ônibus e tentando sobreviver com alguma dignidade.

3) Apropriação cultural

Essa ideia está ganhando força nos debates sobre gênero, raça e representação. Embora haja muita histeria e muita desinformação acerca do que efetivamente se trata, o Carnaval foi palco de, pelo menos, duas grandes discussões. A primeira é sobre o direito de não-índios se fantasiarem de índios. A atriz Paolla Oliveira foi a primeira a ser bombardeada. Branca, causou polêmica ao postar uma foto de cocar e pintura. Katú Mirim, índia e ativista, liderou as críticas, ao lançar a campanha #ÍndioNãoÉFantasia nas redes sociais. “Isso é racismo, não é homenagem”, afirmou em vídeo. A polêmica se instaurou, inclusive com ativistas dos direitos indígenas criticando sua postagem. Depois de ser ameaçada, Katú encerrou sua conta no Facebook.

Outra polêmica que está fervendo envolve a escola de samba Salgueiro. Para celebrar a história das mulheres negras, ela colocou os integrantes da comissão de frente com os rostos pintados de negro – o tão criticado “black face” que caracterizava a representação de negros em teatros e filmes no início do séc. XX. Diante da tempestade de protestos pelas redes sociais, a escola se defendeu: seu argumento é que fazia parte do contexto artístico tal representação.

4) Assédio sexual

A campanha “Não é Não”, que começou há alguns anos, continuou a mil por hora, com foliãs decalcando a mensagem nos braços, em Belo Horizonte, e portando-a em adesivos colados no corpo, em São Paulo. Como disse uma moça, ao ser entrevistada por um telejornal, se as mulheres estão na festa para beijar ou apenas se divertir, cabe apenas a elas decidirem. Se você, caro marmanjo, quer se dar bem neste Carnaval, aprenda a chegar numa mulher empoderada do século XXI.

5) Racismo

Em Salvador, por exemplo, a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia instalou dois postos de atendimento para receber denúncias de discriminação racial. As denúncias também podem ser feitas por telefone, seja para o 0800 da Ouvidoria Geral do Estado, seja para um número do governo federal exclusivo para o combate ao desrespeito aos direitos humanos.

6) O corpo da mulher

Bastou que Bruna Marquezine publicasse fotos com os seios à mostra, para que a turba começasse a babar nas redes sociais. De um lado, estavam homens e mulheres que criticaram seus “peitos murchos e caídos”. Para essa turma, se ela tem dinheiro, deveria colocar silicones. De outro, ativistas se esforçavam – com mais ou menos virulência – em defender o direito da atriz de ser natural. É impressionante como, em 2018, ainda se discuta o direito de uma mulher (e de qualquer pessoa) de ter o corpo que quiser e expô-lo como lhe aprouver. Só Freud explica tamanha projeção e fetichização...

7) Funk versus samba

No ano passado, as críticas se concentraram em marchinhas cuja letra ostentava homofobia (Cabeleira do Zezé), apologia à inferiorização da mulher na sociedade (Amélia), racismo (Teu cabelo não nega a mulata) e por aí vai. Essa discussão, neste ano, ficou em segundo plano. O que mais dividiu os foliões foi o gênero musical que representa a festa. De um lado, o funk repaginado de Anitta, Pablo Vittar, Jojo Todynho e companhia. Foliões das antigas viram, perplexos, os mais novos esvaziarem blocos tradicionais, como o Cordão do Bola Preta (que comemorou 100 anos, esperava reunir cerca de 1 milhão de pessoas e saiu com um terço disso). para se sacudirem atrás das estrelas do momento. Até que ponto é possível reinventar o Carnaval, sem perder sua essência? É uma pergunta tão complexa, quanto até que ponto é possível reinventar a sociedade brasileira. Só saberemos o quanto conseguimos respondê-las, no próximo Carnaval. É aguardar e ver!