ECONOMIA

Ciro Gomes: a esquerda precisa de um incendiário?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Se mantiver o tom radical, Ciro pode atrapalhar a retomada da economia; se afrouxar, será acusado de estelionato eleitoral

Ciro Gomes: a esquerda precisa de um incendiário?

(Foto: Divulgação/ Página Oficial de Ciro Gomes/ Facebook)

O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, está cada vez mais soltinho, no figurino de concorrente à Presidência. Nesta terça-feira (26), Ciro participou de um bate-papo com usuários do Twitter, promovido pela própria empresa, e aproveitou para falar grosso, como é seu costume. Prometeu cancelar todas as reformas feitas por Michel Temer. Também afirmou que retomará os campos de petróleo vendidos pelo atual governo. Seu argumento é que Temer não tem legitimidade para implementar tais medidas. A dúvida é se uma agenda dessas, que confronta explicitamente alguns temas caros ao mercado e ao ajuste das contas públicas, ajudará o Brasil e a esquerda, ou servirá apenas para matar o embrionário crescimento econômico a que assistimos.

A bem da verdade, Ciro tem uma trajetória errática. Filiado ao PSDB nos anos 90, deixou o governo do Ceará para ser ministro da Fazenda de Itamar Franco entre setembro de 1994 e janeiro de 1995, enquanto Fernando Henrique Cardoso preparava a campanha à Presidência. Na época, reduziu drasticamente as tarifas de importação e inundou o país com artigos estrangeiros – de carros a alimentos. Na época, a medida causou uma baita chiadeira no empresariado. A resposta foi bem ao seu estilo: disse que estava “pouco ligando”. Também chamou de “otário” quem comprava carro brasileiro caro.

A ironia é que o hoje defensor de uma política nacionalista defendia a privatização de estatais, a ponto de afirmar, depois que deixou o governo FHC, que os tucanos deveriam ter vendido as empresas antes, mas, por medo da impopularidade da medida, protelaram o quanto puderam para não perderem a eleição.

Cara feia não paga conta

Como uma bolinha de fliperama, ricocheteou em várias direções políticas, até se alojar no Ministério da Integração Nacional, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Agora ataca impiedosamente seu ex-chefe, dizendo que Lula "insulta a inteligência do povo", com suas recorrentes alegações de inocência nos processos em que é réu ou investigado na Lava Jato.

É verdade que Ciro pode estar, apenas, jogando para a torcida, mobilizando um eleitorado mais radical e nacionalista, órfão de Lula e de um discurso mais contundente contra o capital. Mas a realidade, nua, crua e cruel, é que o Brasil padece de algo elementar: dinheiro. Falta dinheiro para fazer o básico, como manter os salários de funcionários públicos em dia, comprar material para hospitais e escolas, pagar aposentadorias e benefícios sociais. Isso, sem falar naquele sonho distante de investir na melhoria geral da infraestrutura do país, inovação tecnológica, pesquisa de ponta etc.

Se sua candidatura embalar, Ciro terá de escolher se manterá o discurso incendiário que afugentará os investidores e agravará a falta de dinheiro, ou se pisará no freio e correrá o risco de perder a confiança de seus eleitores. Não é de hoje, que se discute a crise da esquerda. Moderados ou radicais, os militantes desse polo ideológico se angustiam para reinventar a esquerda. Um Ciro Gomes radical e bem colocado na corrida pelo Planalto será um enorme fator de instabilidade política e econômica. As empresas segurarão, novamente, os investimentos com medo do que ele faria na Presidência. Investidores poderiam sair do país, encarecendo o dólar e, por tabela, elevando a inflação e corroendo as contas públicas. Afinal, cara feia não paga conta.

Já um Ciro Gomes que mude de discurso no meio do caminho, fazendo acenos aos investidores e aos capitalistas em geral, desmoralizará a esquerda e a si mesmo. Dará uma imensa chance de ser acusado de cometer estelionato eleitoral. E, de presidentes acusados, o Brasil já está cheio.