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Collor para presidente: sim, é ridículo, mas faz sentido neste Brasil ridículo

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Se é impossível escolher um candidato honesto, o desempate fica por conta de outros critérios

Collor para presidente: sim, é ridículo, mas faz sentido neste Brasil ridículo

Não custa tentar: se há denúncias para todos, vai que... (Foto: Antônio Cruz/EBC)

Aí vão umas palavrinhas sobre o anúncio de que Fernando Collor de Mello se candidatará a presidente nestas eleições. Collor só arrisca tamanha ousadia, porque o atual cenário político é um esculacho. A revelação da Lava Jato de que a corrupção é generalizada, salvo as sempre óbvias poucas e honrosas exceções, nivelou por baixo toda a classe política. É claro que não é de hoje que os brasileiros se acostumaram a votar “no menos pior” para qualquer cargo, o que mostra o tamanho do desencanto e da naturalidade com que vemos a falta de ética e probidade de quem nos pede apoio. Mas, ao escancarar a podridão que infesta os três poderes, seja em Brasília ou em governo locais, a Lava Jato reforçou o senso comum de que não há ninguém que se salve. Portanto, se é impossível escolher um candidato honesto, o desempate fica por conta de outros critérios.

E é aí que Collor entra. Ao defender sua candidatura nesta sexta-feira (19), durante uma viagem a Arapiraca, no interior de Alagoas, o ex-presidente listou algumas de suas “qualidades”. Primeiro: sua suposta experiência em conduzir a nação. Como você deve se lembrar, Collor foi o primeiro presidente eleito diretamente após a redemocratização, em 1989, ao bater Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno. Sua campanha antecipou alguns dos tópicos que vemos na atual corrida para o Planalto. Ele foi vendido por parte da mídia como o “caçador de marajás” de Alagoas, em alusão à sua cruzada, como então governador do Estado, contra os altos salários de funcionários públicos.

Jovem, bonito, bem articulado, Collor caiu nas graças do empresariado, que temia a eleição de Lula (basta lembrar que o então presidente da Fiesp, Mário Amato, afirmou que 800 mil empresários deixariam o país, caso o petista vencesse). Também conquistou as massas, com seu estilo messiânico e inflamado. Uma vez eleito, contudo, seu governo se revelou um desastre completo na área econômica. Quem se esquece de Zélia Cardoso de Mello, sua ministra da Fazenda, anunciando o confisco da poupança nos primeiros dias de governo? Além de jogar o país numa grave crise financeira, o plano despertou a fúria da classe média, para quem apenas uma coisa é sagrada: seu dinheiro. Embora a inflação tenha recuado num primeiro instante, o fracasso do plano fê-la explodir novamente. Se é a isto que Collor chama de experiência para gerir o país, não precisa dizer mais nada.

Voz da experiência

Segunda “vantagem” de Collor por Collor: previsibilidade. O agora senador considera que o fato de já ter presidido o país entre 1990 e 1992 é positivo, porque o povo já conhece seu estilo de governar. E o que o Brasil menos precisa, nos próximos anos, é de surpresas desagradáveis vindas de Brasília.

Sua terceira vantagem, segundo o próprio, seria a moderação política. Até as urnas eletrônicas sabem que esta será a eleição mais complicada desde a redemocratização. Com os extremos ocupados por Lula e Jair Bolsonaro, o centro é disputado por um punhado de pretendentes – desde o atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, até o governador paulista, Geraldo Alckmin, passando por Marina Silva. No desespero por um nome novo e descolado da corrupção e rejeição geral, até o apresentador global Luciano Huck é cotado. É para esse público de centro que Collor olha, quando se oferece.

Ficha limpa

Por fim, Collor já tem a resposta pronta para a passagem mais vergonhosa de sua carreira: o impeachment que sofreu em 1992, devido à confluência da ira da classe média com o confisco da poupança, com as denúncias de corrupção que o atingiram diretamente. Seu primeiro argumento é que, legalmente, foi absolvido de todas as denúncias pelo STF em 2014 por falta de provas. Logo, venderá seu impeachment como uma manobra política de seus adversários que visava, única e exclusivamente, tirá-lo do poder. E isso se encaixa com o segundo argumento: o impeachment só passou, porque Collor teve “uma relação inadequada” com o Congresso – seja lá o que isso signifique.

Livrar-se das acusações no STF não significa, porém, que Collor não tenha mais nada para explicar. Em agosto passado, o ex-presidente entrou para a lista de réus da Lava Jato, por decisão da 2ª turma do STF. Ele é acusado de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Collor é investigado pela força-tarefa desde, pelo menos, 2015. Naquele ano, por exemplo, a Polícia Federal apreendeu uma frota de carros de luxo, avaliada em R$ 5,8 milhões, na famosa Casa da Dinda, a residência de Collor em Brasília.

Juridicamente, não há nada que impeça Collor de concorrer neste ano. Ele recobrou seus direitos políticos – tanto que é senador por Alagoas -, enquadra-se nas exigências da Constituição para pleitear o cargo, teve a ficha zerada pelo STF e é apoiado pelo seu minúsculo partido, o PTC (Partido Trabalhista Cristão). Mas, convenhamos: poder, pode..., mas moralmente não deveria. Acontece que estamos no Brasil, onde a moral... bem, você já sabe...