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Condenação de Lula: a Lava Jato começa agora

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Só há duas opções para o desfecho do caso nas instâncias superiores: ou se condena Lula, ou se condena a Lava Jato

Condenação de Lula: a Lava Jato começa agora

A esta altura, se você não estiver em Marte (e sem internet), já sabe que Lula foi condenado a nove anos e seis meses de prisão por Sérgio Moro por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá. A sentença foi como uma bala de mentos numa garrafa de Coca-Cola: fez jorrar manifestações igualmente acaloradas a favor e contra Lula. Não sou advogado e, portanto, não tenho conhecimento técnico para avaliar Moro. Ainda assim, há motivos políticos e sociais para dizer que, com a condenação de Lula, a Lava Jato começou de fato.

É um direito de Lula, como de qualquer brasileiro, recorrer em liberdade à segunda instância. Alguns observadores estimam que é improvável que ela tome uma decisão ainda neste ano. Até lá, pode-se enxergar o seguinte cenário:

1) A esquerda se dividirá em três grupos. O primeiro, fiel a Lula, pregará sua inocência até o fim. Ainda que sua sentença seja mantida pelo Tribunal Federal Regional de Porto Alegre, e o caso vá, inevitavelmente, parar em Brasília, esse núcleo duro dirá que tudo não passa de uma cassação política do maior líder popular que o país já teve. Para esses leais companheiros, nunca houve, não há, nem haverá provas convincentes. Quem são eles? Basicamente, o PT, a CUT, o MST e o MTST.

2) O segundo grupo de esquerda radicalizará seu discurso e aproveitará a deixa para acusar Lula de ter traído seus ideais e sua classe. Exigirá que o PT faça uma autocrítica digna de flagelo de monge enclausurado e, uma vez purificado pelo sangue de seu mártir, abandone o ideário capitalista e abrace de vez o socialismo. Quem fará esse papel? As alas radicais do PT e os partidos mais à esquerda.

3) O terceiro grupo serão os malufistas de esquerda. Dirão que, mesmo que Lula tenha se corrompido, ninguém fez tanto pelos mais pobres quanto ele. Logo, resumirão a situação com o manjado: “Ele rouba, mas faz”. De quem estamos falando? Por parte do povo comum, será quem sente na pele dois anos (indo para três) de recessão e se ressente da falta de perspectivas e da deterioração dos programas de assistência social. Por parte dos movimentos sociais e grupos políticos, uma salada ideológica também pautada pela “realpolitik”, o termo que eles descobriram na contracapa de algum livro de política e virou moda entre cervejas na mesa do bar, para justificar o injustificável.

Os "cidadãos de bem"

4) A direita arrumará um pretexto para voltar a bater panela. Seu corrupto favorito, finalmente, recebeu a primeira sentença. Afinal, não há nada de mais embaraçoso para os novos “líderes populares” do que defender o fim da corrupção e se calar diante das estripulias de seus corruptos de estimação. Moro, que andava desacreditado entre algumas alas direitistas, devido à demora em mandar Lula para o xadrez, voltará a ser idealizado como o paladino da Justiça. Quem são? O MBL, o Vem Pra Rua, Revoltados Online etc.

5) No meio disso tudo, a Justiça andará descalça em arame farpado sobre o precipício da desmoralização. Se Lula for inocentado em segunda instância, a polarização das torcidas uniformizadas irá às últimas consequências. Petistas e companheiros dirão que é a prova definitiva de que Moro e a Lava Jato não pensavam em outra coisa, além de fabricar provas mequetrefes contra Lula. Direitistas e “cidadãos de bem” dirão que a Justiça deseja desmoralizar a força-tarefa e que isso não ficará assim.

6) Adicione ao caldeirão um bom punhado de políticos (com ou sem mandato) tão enrolados com a Lava Jato, quanto Lula. Se a segunda instância repetir o que fez com Vaccari e alegar que delação não é prova, estará aberta a porteira para que todos se safem. Não adiantará Rodrigo Janot insistir que corrupto não passa recibo. A sensação de impunidade será mais forte que a Lei da Gravidade.

Como se vê, só há dois desfechos para o caso: condenar Lula ou condenar a Lava Jato. A sorte está lançada.