LAVA JATO

Contagem regressiva: faltam 23 dias para o governo Temer acabar

Yazar

“Temer? Temer? Peça para deixar recado, que eu ligo depois”, dirão seus atarefados aliados

Contagem regressiva: faltam 23 dias para o governo Temer acabar

Só olhando: Temer passará um ano como Rainha da Inglaterra (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Há uma desanimada corrida do núcleo duro do governo para aprovar a reforma da Previdência e o que houver de importante até 23 de dezembro. A partir daí, o Congresso entrará em recesso. Deputados e senadores sumirão de Brasília, para voltar apenas 50 dias depois. Mas até os calangos do cerrado sabem que, em 2018, os parlamentares não mexerão um dedo, se não for pelas eleições de outubro. Na prática, portanto, o governo de Michel Temer vive seus últimos dias. No próximo ano, Temer será apenas um zelador de luxo da cadeira presidencial.

Primeiro, porque a pauta proposta por ele é pesada demais para um ano eleitoral. Que deputado ou partido político se atreverá a votar uma reforma da Previdência e, depois, alegremente pedir votos aos eleitores? Não é por acaso que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, cozinha em banho-maria o assunto e alertou Temer de que não há condições de reunir os 308 votos necessários para aprovar a proposta de emenda constitucional que altera as regras da aposentadoria. Com o adendo de que são necessários dois turnos de votação, e o processo precisa se repetir no Senado. A esta altura, mesmo que ela se restrinja à idade mínima e a mais um ou outro ponto, pouquíssimos políticos terão coragem de enfrentar a ira dos brasileiros – ainda mais aqueles que precisam se refugiar no Congresso, a fim de garantir foro privilegiado e escapar da Lava Jato.

Outro motivo é que, depois de muitas penas voando, os tucanos decidiram pular fora do governo. Sem os votos do PSDB, a aprovação da reforma e de outras medidas propostas por Temer será apenas o sonho de um governo de verão. O futuro presidente do partido, Geraldo Alckmin, equilibra-se num discurso ambíguo de que o PSDB não deve apoiar Temer, mas ser a favor das reformas estruturais. O problema é como isso ocorrerá na prática: Alckmin, virtual candidato tucano ao Planalto, gostará de ser tachado pela oposição de carrasco de velhinhos aposentados? Conseguirá convencer seus correligionários a votar o projeto?

Desmanche

Em seguida, haverá o desmonte do governo. Temer verá a debandada de ministros que se candidatarão a cargos no Executivo e no Legislativo. Terá de tocar o país, a partir de fevereiro, com assessores fracos, oriundos de um Congresso marcado pelo escândalo da Lava Jato, apenas administrando o dia a dia. Dia a dia, aliás, cuja tônica será uma pressão insuportável de parlamentares para que o presidente abra os cofres da União, e despeje o quanto puder de dinheiro nas emendas de seus redutos eleitorais. Seu próprio partido, a propósito, estará mais preocupado em consolidar uma aliança de centro-direita para disputar as eleições, do que dar expediente em Brasília.

Diante de tudo isso, o poder se concentrará cada vez mais em Rodrigo Maia, presidente da Câmara. É o democrata quem detém a prerrogativa de acelerar, frear ou congelar o andamento dos projetos do governo na Casa. Maia já mostrou que, diante da fraqueza de Temer, vai posar cada vez mais de independente. Se quiser algo, Temer terá de ceder tudo e mais um pouco a ele. De outro lado, dentro de seu próprio gabinete, há auxiliares ensaiando voos solos. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, está cada vez mais soltinho no figurino de presidenciável. Sua prioridade, neste fim de ano e nos primeiros meses de 2018, será reunir apoio suficiente para viabilizar seu passe para a cadeira presidencial.

Restaria ao presidente se envolver de corpo e alma nas campanhas. Seria um bom passatempo para os últimos meses de mandato, mas se trata de uma ideia impraticável. Que político gostaria de ser fotografado ou discursar ao lado de um presidente com uma taxa recorde de impopularidade? Temer queimará o filme de qualquer um que apoie ou seja apontado como seu aliado. Ficará, portanto, restrito ao que faz de melhor: articular nos bastidores, selar acordos de alcova. “Temer? Temer? Peça para deixar recado, que eu ligo depois”, dirão seus atarefados aliados.