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Corrupção no Brasil: a receita da Ciência para acabar com isso

Yazar

Brasil é um caso único no mundo: um país corrupto habitado apenas por gente honesta – mas dá para mudar

Corrupção no Brasil: a receita da Ciência para acabar com isso

(Foto: Giorgia Squeri/Wikimedia Commons)

Segundo o Datafolha, o Brasil é um caso único no mundo: um país corrupto habitado apenas por gente honesta. É o que revela a Pesquisa Nacional de Valores, divulgada nesta terça-feira (24) e que ouviu mais de 2.400 pessoas. Quando convidados a listar dez valores ou comportamentos que os definiam, os entrevistados não tiveram dúvidas: a honestidade foi a terceira qualidade mais citada, atrás de amizade e alegria. É interessante também notar que a honestidade permaneceu firme e forte como um traço autodefinidor dos brasileiros nos últimos anos. Em 2010, quando uma pesquisa semelhante foi feita, ela já aparecia em terceiro lugar. Já o Brasil mereceu uma avaliação bem mais severa. Ao relacionarem os dez valores que mais caracterizam o país, não deu outra: a corrupção estava em primeiríssimo lugar. Uma contradição? Uma hipocrisia? Alienação? Os especialistas que comentaram os resultados, a convite da Folha de S.Paulo, dividiram-se entre essas teses. Mas há outra possibilidade. E ela vem da Ciência.

O senso comum afirma que as ações de alguém são ditadas por sua personalidade. Nascemos bons ou maus, generosos ou egoístas, otimistas ou pessimistas, amistosos ou agressivos, entre outros. Neste sentido, uma maldade, como um ato de corrupção, só poderia vir de uma alma degenerada. Essa visão de que apenas pessoas “más” cometem crimes ou derrapam na ética tem efeitos práticos até hoje: políticas públicas de segurança (“sujeito não vira bandido; nasce bandido”), saúde (“depressão é coisa de gente fraca”) e educação (“você precisa aprender a controlar seu mau gênio”), entre outras, são feitas com base nela. Há algo de muito confortável nessa teoria: a sociedade, a má distribuição de renda, a escola, o ritmo esmagador de trabalho, enfim... o mundo e os outros não têm culpa de nossos problemas. Se nascemos “estragados”, o azar é nosso.

Mocinho e bandido

Mas há outro jeito de encarar a situação, e que explica como uma soma de brasileiros “honestos” degenera numa monstruosa corrupção. Quem o apresenta são os psicólogos sociais e comportamentais. Parte dessa turma está convencida de que as circunstâncias são tão ou mais importantes do que nosso caráter para guiar nossas ações. Até porque, para eles, o caráter não é essa coisa monolítica que outros defendem – ele varia conforme o papel que encenamos em determinado momento de nossas vidas. Podemos ser os pais e tios mais adoráveis do mundo, ao mesmo tempo em que matamos cruelmente crianças de uma etnia rival. Esquizofrenia? Para esses estudiosos, nem um pouco.

Podemos alternar momentos de bondade e maldade com a mesma inconsciente destreza com que trocamos os passos, enquanto caminhamos. Tudo depende do palco em que se pisa, e do lado de nossas condutas que preferimos encarar como sendo “nossa essência”, descartando o restante das ações como “exceções” – aquelas que todos justificam dizendo: “fiz, mas isso não quer dizer que sou assim...” A lista de exemplos é quase infinita: “comprei a carteira de motorista, mas quem não compra no Brasil?” “Paguei uma caixinha pro guarda liberar o carro na blitz, mas sabe como eles são...” “Consegui um esquema de carteirinha de estudante pra pagar meia entrada, mas é só pro cinema...” “Vou estacionar em fila dupla, mas é rapidinho...”

Quem atrapalha mais?

A mais emblemática é a famosa: “Se você estivesse em Brasília, não roubaria também?” O que todas elas têm em comum é o fato de que são comportamentos induzidos por circunstâncias: a corrupção e as dificuldades criadas pelos despachantes do Detran e das autoescolas; a avaliação de que a burocracia de liberar um carro e pagar uma multa por uma pequena irregularidade não valem a dor de cabeça; a facilidade de obter uma carteirinha de estudante e a autodesculpa de que é para uma coisa inofensiva; a pressa e a falta de vagas para estacionar.

Há um termo para essas pessoas: "pequenos trapaceiros". Quem o cunhou foi o psicólogo Dan Ariely, para se referir a pessoas que se acham honestas, mas dão suas escorregadas. Em um experimento com mais de 28 mil voluntários, disponível no Netflix, Ariely e sua equipe pagavam as pessoas pela quantidade de questões que acertavam num questionário. O importante é que, por um "descuido", os pesquisadores fingiam ter picotado o teste numa trituradora de papel. Por isso, pediam que o participante simplesmente dissesse quantas questões acertou. Da imensa amostra, apenas 20 mentiram descaradamente, ou seja, declararam um acerto muito maior do que obtiveram. Essas pessoas levaram US$ 400 a mais do que deveriam. Os outros 28 mil voluntários, "mais honestos", informaram, na média, duas questões além do que fizeram. Parece pouco, mas, no total, o dinheiro "desviado" com essas "mentirinhas" alcançou... US$ 50 mil.

Não seja maria-vai-com-as-outras

Assim, onde os cientistas políticos, sociólogos, historiadores, estatísticos e economistas veem uma tremenda contradição, os psicólogos comportamentais enxergariam padrões clássicos. É possível, para qualquer brasileiro, sentir-se honesto e se autorrepresentar como um “cidadão de bem”, ainda que cometa suas falcatruas (pequenas ou grandes). Sempre poderá alegar que “no Brasil, sempre foi assim” e que “quem não faz é trouxa”. Ou que “quando os políticos forem honestos, também serei.” Todas essas desculpas aludem à força das circunstâncias empurrando as pessoas a serem más cidadãs.

Qual é, então, a receita da psicologia comportamental para escaparmos do paradoxo do país desonesto cheio de gente honesta? Primeiro: resistir às circunstâncias. É preciso saber dizer “não” nos momentos certos. Para Philip Zimbardo, autor de O Efeito Lúcifer, o verdadeiro herói é aquele que não se deixa levar pela ocasião. Segundo: lutar para mudar as circunstâncias, a fim de que situações propícias à corrupção (pequenas ou grandes, cotidianas ou dignas de Lava Jato) não se repitam. Parece fácil, óbvio e bobo... mas, creia, nem isso os brasileiros conseguiram ainda.