DINHEIRO

Criticar juros altos é coisa de esquerdopata?? Risos, muitos risos...

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É falta de concorrência que sustenta os juros altos - algo que os “Nobéis de Facebook” defendem da boca pra fora, mas não ousam impor aos bancos

Criticar juros altos é coisa de esquerdopata?? Risos, muitos risos...

Outro mundo: quem gosta de juros altos acha que chove dinheiro (Os Simpsons/Divulgação)

Nesta quinta-feira (8), publiquei um artigo aqui no Storia criticando os altíssimos juros cobrados dos consumidores e das empresas pelos bancos em operações de crédito. No momento em que a taxa básica de juros (a famosa Selic) atinge o menor patamar da história, o contraste entre o custo de capital para as instituições financeiras e o spread (a margem que inclui custos adicionais como despesas gerais e administrativas e, claro, lucro) que nos cobram é escandaloso. Como sempre, compartilhei esse texto em alguns grupos de discussão do Facebook. Para a minha surpresa, a maior parte dos comentários foi... negativa. O argumento (sic) de quem me criticou é surpreendente: falar mal de banco é típico de esquerdopata... sério. No começo, ri muito. Mas, depois, comecei a ficar bastante preocupado. Se a polarização ideológica nos emburreceu a ponto de ridicularizarmos quem se propõe a discutir uma das principais questões que impedem investimentos produtivos no Brasil, então estamos a milímetros da barbárie.

Os ataques mais pesados e curiosos distribuíram-se por dois grupos: o Economia Brasileira, com pouco mais de 12 mil membros, e que, até agora, imaginava se tratar de um lugar sério, com gente realmente interessada em discutir questões relevantes para o país, e o Bovespa, com 21 mil membros. Uma matilha de economistas de Facebook e traders de candy crush simplesmente ficou bastante irritada por eu, supostamente, criticar os bancos em nome da revolução comunista, ou porque sou um petista rancoroso (para meu azar, alguns disseram que Gleisi Hoffmann, a presidente do partido, disse algo semelhante). Só se esqueceram (ou, convenientemente, omitiram) o fato de que pesos-pesados do pensamento econômico brasileiro, incluindo os de direita, como Armínio Fraga, Gustavo Franco, Persio Arida (ah, todos são tucanos, logo, são de esquerda, logo, são esquerdopatas!!!) e Paulo Guedes (o guru de Jair Bolsonaro na área econômica), criticam o custo de capital com tanta veemência, quanto este que vos escreve...

O bê-a-bá

Apenas para lembrar do básico. A Selic é importante por uma série de motivos. Primeiro, é um instrumento de política monetária, ao regular a demanda de acordo com o nível de inflação. Segundo, é determinante para a gestão da dívida pública. Terceiro, e é aqui que entram o mercado financeiro e a economia real, é o parâmetro do mercado. Ao avaliar suas opções, os investidores partem de um patamar mínimo de remuneração – sim, a Selic. Em todo o mundo, a taxa de juros paga pelo governo, em troca de empréstimos garantidos pelos títulos públicos, é considerada a taxa livre de risco daquela economia. É assim com os Fed Funds do Federal Reserve (o banco central dos EUA), e é assim com a Selic brasileira. Em bom português: qualquer investidor – banqueiro brasileiro, gringo, tubarão ou sardinha, pobre mortal ou Warren Buffett – ao aplicar seu rico dinheirinho por aqui, espera ganhar, pelo menos, a Selic.

O mesmo raciocínio é válido para a “economia real” – aquela que utiliza investimentos para fabricar bens, mercadorias e serviços, e não apenas mais dinheiro, como o mercado financeiro. Quando um empreendedor estuda o que fazer com seu capital, espera que ele renda, pelo menos, o equivalente à taxa básica de juros. É fácil imaginar por que: você está cansado do seu emprego e deseja abrir um negócio próprio. Para sua felicidade, tem R$ 500 mil no banco, em aplicações financeiras. Se você é, realmente, alguém que entende de dinheiro, a pergunta básica será: o que renderá mais – deixar meu dinheiro investido, ou usá-lo para abrir um negócio? Você estará, enfim, calculando os custos de oportunidade. Se concluir que nenhum negócio, na economia real, será capaz de render o tanto que ganharia, se deixasse o dinheiro parado no banco, ocorre o óbvio: você fica em casa e viverá de renda, em vez de esquentar a cabeça com fornecedores, clientes e funcionários.

É assim tanto para um food truck, quanto para uma montadora, um call center ou uma usina hidrelétrica. No capitalismo, só se investe dinheiro, se os juros pagos não renderem tanto, quanto ter de levantar cedo e ir administrar um empreendimento. E como estão os juros básicos no Brasil? Baixos. A Selic está no menor patamar da história. Oba! Quer dizer, então, que estamos vendo uma enxurrada de gente tirando o dinheiro de aplicações financeiras e abrindo novos negócios, gerando emprego, renda e expandindo a economia nacional? Nã-nã-ninha-não!

Me dá um dinheiro aí

Por que? Simples: o custo de oportunidade está baixo, pois a Selic está baixa, mas o custo total do capital está alto. Traduzindo: se você precisar completar os recursos para abrir um negócio com empréstimos bancários, estará danado. Os juros ao consumidor e às empresas são vergonhosamente altos. Todo capitalista que se preza trabalha “alavancado”, um jargão pedante para dizer que não utiliza recursos próprios para investir. Em vez disso, pega empréstimos ou capta recursos no mercado de capitais. Se o camarada não quer investir seu próprio dinheiro e está caro pegar um financiamento no banco, ele simplesmente não expande seu empreendimento – deixa de instalar uma nova linha de produção, de contratar mais gente, de gerar mais renda etc etc.

Da mesma forma, os consumidores precisam de crédito para ir às compras. Do cartão de crédito que banca as roupas novas e o material escolar dos filhos, ao financiamento imobiliário, o crédito bancário está enraizado na economia – e suas taxas são pornográficas. Conclusão: você começa a segurar seus gastos, evita se endividar no cartão e perde o sono, quando estoura seu limite. Imponha juros altos ao consumo e acontece o óbvio... não tem consumo.

Por que, então, os bancos enfiam tanto a faca? O que justifica que a Selic esteja em 6,75% ao ano, e o cartão de crédito nos cobre 300% ao ano? A taxa média de juros cobrada em empréstimos para empresas é, segundo os últimos dados da Anefac, cerca de 20% ao ano. Alguns “Nobéis de Economia” facebuquianos até tentaram “argumentar” (sic, sic, sic), dizendo que “eu não sei o que é spread”. Bom, sinceramente: nem o Banco Central sabe. O spread é a maior caixa-preta do sistema financeiro. A rigor, ele parte da taxa livre de risco de uma economia (6,75% atualmente), acrescentando despesas gerais e administrativas, provisões contra inadimplência, alguns outros penduricalhos e arrematando com a margem de lucro esperada naquela operação. Ok... justo. Quem é atendido por um gerente, em busca de crédito, deveria saber que é de receitas de intermediação financeira que um banco vive – e paga o salário do gerente.

Cão que ladra não morde

Mas, de novo: há tanta coisa assim, tanto gasto, tanta despesa indireta, tanta inadimplência, que justifiquem juros ao consumidor 50 vezes superiores à Selic? A matilha de “direitopatas espumantes” ladrará que, se os bancos fazem isso, é porque há. Risos... muitos risos.

A única coisa que justifica que um banco escalpele seu cliente, em troca de um empréstimo de cheque especial ou no rotativo do cartão de crédito, é aquilo que nosso capitalismo de compadrio mais adora: falta de concorrência! Não é de hoje que se sabe que cerca de 90% do mercado de crédito brasileiro está nas mãos de apenas cinco instituições financeiras: Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa. No segmento corporativo, some-se o BNDES. Não são as distorções tributárias, as incertezas econômicas, a inadimplência, as inseguranças jurídicas, os marcos regulatórios, as provisões, o Índice de Basileia ou o que mais lembrarem que sustentam os juros escorchantes no país. É a boa e velha ausência de capitalismo de mercado. Aquilo que os direitopatas defendem da boca pra fora, mas não ousam impor aos bancos.