COMPORTAMENTO

De quem Judith Butler se lembrará no Brasil?

Yazar

Não fazer nada machuca tanto a vítima de ódio, quanto atacá-la com um porrete

De quem Judith Butler se lembrará no Brasil?

(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Depois de ser hostilizada por militantes do MBL, ser chamada de bruxa e ter um boneco seu queimado, a filósofa norte-americana Judith Butler teria todas as razões do mundo para reduzir o Brasil a um país de trogloditas. É verdade que, às vezes, as pessoas mais sensatas caem nesta tentação, mas Butler decidiu guardar outras memórias do país em que foi simbolicamente imolada na calçada. Em um extenso artigo para a Folha de S.Paulo deste domingo (19), a filósofa afirma:

“Eu vou me lembrar do Brasil por todas as pessoas generosas e atenciosas, religiosas ou não, que agiram para bloquear os ataques e barrar o ódio. São elas que parecem saber que o ‘fim’ da democracia é manter acesa a esperança por uma vida comum não violenta e o compromisso com a igualdade e a liberdade, um sistema no qual a intolerância não se transforma em simples tolerância, mas é superada pela afirmação corajosa de nossas diferenças.”

O texto trata, fundamentalmente, de como seu trabalho sobre liberdade de gênero foi mal interpretado no Brasil (se é que o pessoal que a perseguiu se deu ao trabalho de ler algo que tenha escrito...), passa por considerações sobre democracia e mostra seu espanto com o fato de que foi hostilizada por algo que não faria: uma palestra sobre gênero. Butler estava no Brasil para uma rodada de debates sobre democracia e totalitarismo...

Ficar na sua não ajuda

Enfim... quem quiser saber mais sobre o que escreveu pode clicar no link em vermelho e ler o texto completo. O que fica, para mim, é a mensagem de que é preciso agir para barrar o ódio. Independentemente de nossa ideologia, religião e inclinações pessoais, temos o dever de construir pontes com quem é diferente, buscar modos de convivência pacíficos. É claro que haverá diferenças e momentos em que a chapa vai esquentar. Mas o que nos torna civilizados é a nossa capacidade de debatermos e encontrarmos caminhos em comum, estabelecermos acordos, respeitarmos diferenças.

Há quem, diante de toda a confusão político-ideológica-holística enfrentada pelo Brasil, pelo mundo e pelo cosmos, prefira omitir-se. É aquele conhecido amigo que, a pretexto de não comprar brigas, opta por não se envolver. Afinal, diz ele, já há tanta discussão no mundo que não é preciso mais um jogando lenha. Por isso, ele tenta aceitar todos como são, respeitar suas ideias e sair da praça pública em que os embates são travados. Parece, portanto, uma postura sensata e digna... mas... nem sempre.

Mexa-se

Construir uma sociedade justa e plural, em que as diferenças sejam reconhecidas e, na medida do possível, assimiladas, não requer um silêncio resignado. Há pencas de estudos mostrando que a inação – o ato de se omitir diante de uma situação grave – é tão nefasta, tão maléfica para o bem-estar individual e coletivo, quanto os atos horrendos de quem queima bruxas em frente ao Sesc Pompéia. Defender a democracia e a tolerância significa também lutar ativamente, em alto e bom som, contra tudo o que as ameace. Como diz a própria Butler, em determinada altura do texto:

“Liberdade não é —nunca é— a liberdade de fazer o mal. Se uma ação faz mal a outra pessoa ou a priva de liberdade, essa ação não pode ser qualificada como livre —ela se torna uma ação lesiva.”

Não fazer nada machuca tanto a vítima de ódio, quanto atacá-la com um porrete. Se você quiser ser lembrado pelas Butler da vida, sejam famosas ou apenas suas vizinhas, saia do sofá e as defenda – concretamente.