ECONOMIA

Delação de Joesley será o batismo de fogo de Raquel Dodge

Márcio Juliboni
Author
Márcio Juliboni

Não há melhor momento para a nova procuradora-geral provar que não deve nada a Temer

Delação de Joesley será o batismo de fogo de Raquel Dodge

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Faltam seis dias para que Rodrigo Janot deixe o comando da Procuradoria-Geral da República. Há tempos, uma troca na cúpula do Ministério Público Federal não causa tanta ansiedade. De um lado, o presidente Michel Temer, seus ministros e os caciques do PMDB contam as horas para ver Raquel Dodge assumir o posto. Esperam, com isso, que a indicada por Temer trate a Lava Jato com o devido rigor – um eufemismo para abafar ao máximo provas, depoimentos etc. De outro, os brasileiros querem saber se Dodge jogará para os bandidos ou será inflexível com a corrupção. E, no meio, eis que surge Joesley Batista, um dos donos da JBS, e preso temporariamente por Janot. Não haveria melhor batismo de fogo para a nova procuradora.

Vamos a alguns cenários:

1) Joesley Batista enrola e não conta nada de novo na sua prisão temporária: neste caso, Dodge deverá decidir se mantém o acordo de delação premiada nos mesmos termos que o fechado por Janot. Se o fizer, isto é, se poupar o empresário de qualquer punição e ele sair da carceragem tão matreiro, falastrão e livre, quanto antes, poderá ser acusada de ser fraca para lidar com raposas como ele. Poderá, também, dar a impressão de que não fez questão de perguntar mais, porque poderia achar o que não deseja – implicações contra Temer e ministros do STF, por exemplo. Seria a confirmação de que teremos uma nova engavetadora-geral da República.

2) Joesley conta o que sabe: caberá a Dodge decidir se sua delação tem força, se há evidências concretas do que o empresário delatar, encaminhar as denúncias e rever o acordo de delação, propondo punições mais severas ao dono da JBS. Esse caminho, contudo, também é um campo minado. O que fará a procuradora, caso Joesley delate conchavos com ministros do Supremo? E se ele aprofundar as denúncias de financiamento irregular de campanhas, detalhar suas relações com Temer e a cúpula do PMDB, confirmar que Geddel Vieira Lima era o representante do presidente para assuntos espúrios, explicar para que serviriam os R$ 500 mil na mala de Rodrigo Rocha Loures e, por fim, expor como bancou quase 2 mil políticos de todos os partidos?

Haverá um furacão mais poderoso que o Irma sacudindo Dodge. O STF, que posará de virgem vestal, pressionará a nova procuradora para ignorar as acusações “sem fundamentos” (coloco as aspas, porque é previsível que a Suprema Corte dirá isso). O núcleo duro do governo dirá que Joesley é um mentiroso de carteirinha, que já tapeou Janot e que está propagando "inverdades" em troca de penas mais brandas. A cúpula do Congresso questionará, também, a reputação do empresário. Dirá que não se pode confiar num crápula desses e, pelo bem da estabilidade política, das instituições e da retomada da economia, é melhor enterrar esse assunto de vez. Já a população ficará no fogo cruzado, esperando que alguma justiça seja feita.

3) Joesley envolve Marcelo Miller: se o empresário confirmar que manteve relações reprováveis com um dos principais procuradores da República e braço-direito de Janot, a credibilidade da delação e das provas será bombardeada com mais megatons que qualquer Kim Jong-Un poderia sonhar. Políticos dirão que as provas foram viciadas e coletadas de modo ilícito, e que não cabe a um procurador ser um agente duplo. O problema é que o acordo de delação atual afirma, com todas as letras, que as provas não são invalidadas, caso o acordo vá para o brejo. Dodge terá pulso firme para mantê-las? Abrandará a posição de Janot e aceitará revê-las?

4) Joesley envolve o próprio Janot: a foto divulgada neste domingo (10) pelo site O Antagonista mostra Janot e Pierpaolo Bottini, principal advogado de Joesley, tomando umas num boteco de Brasília. Eles juram pela alma de suas pobres mãezinhas que foi tudo obra do acaso. Encontraram-se sem querer e trocaram algumas palavras por educação. Pode até ser que, a esta altura, o destino seja mesmo um piadista de mal gosto. Mas, vai que...

Seria o suficiente para implodir todo o trabalho da PGR no acordo com Joesley. Muito rapidamente, os envolvidos em outras denúncias de outras delações passariam a questionar a seriedade com que foram feitas. A desconfiança contaminaria todos os atos de Janot, e Dodge teria a desagradável tarefa de separar o joio do trigo. Pode ser que consiga manter o respeito à Procuradoria, preservar a essência das provas de delações anteriores, cancelar falsos testemunhos e picaretagens em geral, e denunciar quem realmente deve à Justiça. Mas pode ser, também, que jogue muito trigo fora, alegando que é apenas joio...