LAVA JATO

Discordo de Temer: autoritarismo é passado; Brasil flerta com totalitarismo

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Por trás de toda autoilusão de um povo hospitaleiro, amistoso e bem-humorado, escondem-se pequenos tiranos de fila de padaria

Discordo de Temer: autoritarismo é passado; Brasil flerta com totalitarismo

(Imagem: O Grande Ditador/Reprodução)

O presidente Michel Temer monopolizou as manchetes dos sites noticiosos, nesta quarta-feira (15), ao afirmar que o Brasil “tem tendência a caminhar para o autoritarismo”. Ilustrou sua declaração com exemplos históricos, como o Estado Novo de Getúlio Vargas e a Ditadura Militar, e arrematou dizendo que esses episódios não foram apenas fruto de golpes de Estado de uma pequena elite civil-militar. Só vingaram, porque o “povo também quer.” Quando comecei a escrever esse texto, pensei que concordaria com Temer. Mas, lá pelas tantas, percebi que, infelizmente, discordo. Por trás de toda a autoilusão de um povo hospitaleiro, alegre, amistoso e bem-humorado, escondem-se pequenos ditadores do cotidiano, tiranos de fila de padaria. Os brasileiros estão “involuindo” do autoritarismo para o totalitarismo. É bem pior...

Não é preciso ir muito longe, no tempo, para encontrarmos exemplos horripilantes. Basta lembrar da turba liderada pelo Movimento Brasil Livre (MBL), queimando o boneco da “bruxa” Judith Butler, durante um “protesto” contra a pensadora norte-americana que é uma das expoentes mundiais em questões de gênero. Há, ainda, a seita dos adoradores de São Jair Bolsonaro, dispostos muito mais a matar, do que a morrer (uma característica de covardes, não de heróis) pelo seu líder supremo. Por coincidência (ou não), assisti nesta semana ao documentário Intolerância.doc, de Susanna Lira, sobre casos emblemáticos em que discursos de ódio culminaram em confrontos e mortes na cidade de São Paulo. Uma das cenas mostra ativistas do movimento LGBT frente a frente com skinheads, sob o vão livre do Masp. Num determinado momento, os carecas mascarados berram “Viva, Bolsonaro!” – não uma, mas várias vezes, como um grito de guerra.

A esquerda também...

O maior problema dos déspotas de Facebook é a facilidade em atacar quem não é de seu time. Por isso, é doloroso – quase intolerável (!) – para os movimentos de esquerda admitirem que também têm momentos memoráveis de intolerância. Uma rápida passagem por grupos fechados de redes sociais revela insultos, afrontas e bullying tão pesados, lançados por esquerdistas, quanto o que de pior se vê entre neonazistas. Desejos de que seus adversários “morram” são tão comuns, quanto fotos de gatinhos na página de velhinhas fofinhas. Não por acaso, também, a economista Mônica De Bolle apagou seu perfil no Facebook nesta semana. Em sua última mensagem, afirmou que a rede havia se tornado “tóxica” e colocava em risco a “saúde e o bem-estar” de qualquer pessoa que tente defender honestamente suas ideias, ainda que elas contrariem os interesses de quem quer que seja.

Nos últimos dias, mulheres em todo o país se mobilizam contra a PEC 181, apelidada justamente de “Cavalo de Tróia”, por conter dispositivos que proíbem o aborto, mesmo nos casos previstos em lei, como fetos anencéfalos, risco de vida para a mãe e estupro. Isto mostra que o autoritarismo brasileiro ameaça evoluir para algo bem pior: o totalitarismo. Não se trata apenas de jogo de palavras. Para os estudiosos, há uma diferença clara entre os dois. O autoritarismo, por mais brutal que seja, restringe-se à guerra política. Um governo autoritário reprime tudo que envolva a exposição pública de ideias que o ameacem: liberdade de expressão e de opinião; liberdade artística; liberdade de reunião e de organização política e sindical; liberdade de votar e ser votado. Pouco importa o que você pense... guarde para você. Na arena política, você não tem voz, nem vez. Este é, em suma, o mote dos autoritários.

Querem sua alma

Já os totalitários dão um passo além. Não basta que você tenha úlceras, ruminando grandes discordâncias do governo vigente. É preciso que você nem sequer as tenha. O totalitarismo é terrível, porque procura penetrar na alma dos cidadãos – mais do que ditar como você deve se comportar em público, o objetivo é que você realmente se comporte espontaneamente do modo esperado, acreditar piamente que só há um jeito de pensar e agir. É claro que esse “jeito certo” é aquele que o governo defende.

Quando políticos tentam impor às mulheres o que devem fazer com seu corpo, em casos de estupro ou gravidez indesejada; quando militantes queimam bonecos de quem defende a liberdade de ser diferente; quando esquerdistas desejam a morte dos adversários em posts agressivos em grupos fechados de Facebook; quando, enfim, o debate de ideias se transforma em combate corpo-a-corpo com o objetivo de eliminar os discordantes; quando a alma é o território a ser conquistado pelos exércitos da insensatez, sem espaço para que o próprio indivíduo decida o que pensar e sentir... estamos a um passo de repetir os piores momentos da Humanidade. Como o Brasil de hoje.