ECONOMIA

Doria se esqueceu do básico: cuidar de São Paulo (e isso pode ser fatal)

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

De olho na Presidência, Doria não convence nem como bom gestor, nem como bom político – está mais para um bom marqueteiro de si mesmo

Doria se esqueceu do básico: cuidar de São Paulo (e isso pode ser fatal)

(Foto: Heloísa Ballarini / Secom/ Prefeitura de São Paulo)

Faz algum tempo que eu me pergunto quando os paulistanos perceberão o óbvio: João Doria está mais preocupado em se lançar à Presidência, do que em administrar a maior cidade do país, missão que assumiu há apenas dez meses. Uma pesquisa do Datafolha, publicada neste domingo (8), me deu algum alento. Entre abril e outubro, a taxa de aprovação do prefeito de São Paulo, medida pela soma de avaliações ótimas e boas, recuou 9 pontos percentuais. Era de 43% e despencou para 32%. Já os que consideram sua gestão regular passaram de 33% para 40%. Outros 26% cravaram ruim ou péssima; em abril, eram 20%. Ao que parece, os paulistanos estão se cansando de serem usados como trampolim para políticos ambiciosos.

É verdade que 32% de aprovação deixa qualquer antecessor com inveja, mas o que impressiona, no caso de Doria, é a velocidade da deterioração de sua popularidade. Se continuar perdendo parcelas tão grandes de apoio em tempo tão curto, chegará ao fim do ano numa situação bastante complicada: sem os votos da cidade de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, será difícil convencer os tucanos a apoiar sua aventura rumo ao Planalto. Isso poderia ser compensado, em parte, se conquistasse os votos do Estado como um todo, mas a pretensão esbarraria na absoluta falta de vontade de Geraldo Alckmin, o governador paulista e seu criador, de apoiá-lo. Afinal, por mais sorrisos e tapinhas nas costas que trocam em público, até a grama do Palácio dos Bandeirantes já sabe que Alckmin não pretende encher a bola de seu pupilo. Por fim, mesmo que opte por mudar de partido para concorrer, Doria voltará à estaca zero: seu cacife é a popularidade na capital paulista. Sem ela, não há razão para outras legendas, como o DEM ou o PMDB, acolherem-no.

Falta o básico

As queixas dos paulistas sobre a gestão Doria são óbvias e numerosas. Vão da constante e irritante falha dos semáforos até o mau atendimento nos postos de saúde municipais e a má qualidade do transporte público. Não deixa de ser irônico que o prefeito seja criticado por aspectos que contradizem seu bordão de que é um gestor tarimbado a serviço da cidade, e não um político preocupado com conchavos. Mas, até onde o retrospecto mostra, Doria não é nem um bom gestor, nem um bom político – está mais para um bom marqueteiro de si mesmo. Quem o diz não é este jornalista, mas os entrevistados pelo Datafolha: dos 36% que afirmaram assistir aos vídeos que o tucano posta nas redes sociais, 21% acreditam que eles não passam de autopromoção. Apenas 15% acham que eles divulgam benfeitorias na cidade.

Os paulistanos também se cansaram de ver o prefeito mais na cidade dos outros, do que na sua: metade dos entrevistados consideram que Doria viaja demais. O pior, contudo, é a impressão negativa que têm desses passeios: 77% dos consultados afirmam que as viagens beneficiam apenas o projeto pessoal de Doria ser candidato a presidente; só 35% acham que suas escapadas ajudam a cidade.

Bombardeio "amigo"

Há alguns dias, o jornalista Pedro Zambarda escreveu, aqui no Storia, que suspeita de que Doria seja o próximo José Serra do PSDB. Seu argumento: a ambição megalomaníaca de Doria é comparável à de Serra, que abandonou, sucessivamente, a prefeitura paulistana e o governo paulista para desafiar Dilma Rousseff em 2010 na corrida pela Presidência. Perdeu e voltou com o rabo entre as pernas para disputar a prefeitura novamente em 2012. Tomou uma sova de Fernando Haddad – um claro sinal de que os paulistanos se cansaram de ser feitos de bobos.

No caso de Doria, há ainda um agravante: ele inspira muito menos respeito no PSDB do que Serra. O “prefeito-gestor” já disparou contra Fernando Henrique Cardoso (um pecado mortal no ninho tucano) e outros caciques. Está começando a colher a tempestade. Também neste domingo, também na Folha, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, lançou-se como pré-candidato do PSDB à Presidência com um pesado bombardeio contra Doria. O amazonense disparou:

“Acho que ele não tem legitimidade para ser candidato, não tem preparo. Ele vai dizer o quê? Que administrou a empresa dele? A empresa dele nunca produziu nada. A empresa dele produzia eventos com empresários e propunha algumas benemerências. (...) Está pleiteando por pura vaidade pessoal. Se embebedou com o poder. Em São Paulo, as pessoas já começam a reclamar. Ele tem nove meses de governo e o que ele fez muito foi mexer no Twitter, no Facebook e no Instagram.”

Se até em Manaus, Doria já não engana ninguém, o que dizer de São Paulo?