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Doria vice de Alckmin: outra prova de que o prefeito de São Paulo não se toca

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O verdadeiro lema de Doria é “Acelera, João”. Pouco importa que ele atropele tudo e todos pelo caminho

Doria vice de Alckmin: outra prova de que o prefeito de São Paulo não se toca

(Foto: Alexandre Carvalho/A2img/ Fotos Públicas)

À medida que o tempo passa, uma coisa fica clara: João Doria não se conforma com a ideia de “desperdiçar” os próximos anos como prefeito de São Paulo. Para quem diz não ser político e sim gestor, há um bocado de contradições nos seus atos. Entorpecido pela miragem de que poucos meses à frente da maior cidade do país (e, por tabela, do maior colégio eleitoral), vestido de gari e cimentando uma calçada aqui, varrendo outra ali, enquanto desancava Lula em vídeos de Facebook, bastariam para alçá-lo naturalmente à condição de presidenciável, Doria agiu com a fé cega dos autoproclamados profetas: bateu em Fernando Henrique Cardoso e em toda a velha guarda tucana, afastou-se de seu padrinho Geraldo Alckmin, viajou pelo país selando suas próprias alianças. Apesar de tudo, para quem aposentou as blusas de cashmere no ombro e se vendeu, na campanha à prefeitura, como o “João Trabalhador”, deveria ser uma lição e tanto de humildade política constatar que, fora de seu reduto, ele continua um “João-Ninguém” nas intenções de voto para o Planalto. Mas Doria ainda não aprendeu.

Um mês atrás, Doria era cortejado pelo DEM de Rodrigo Maia e ACM Neto, prefeito de Salvador e visto como seu virtual vice numa chapa à Presidência. Também foi paparicado por ninguém menos que o presidente Michel Temer, que lhe deixou as portas abertas para se mudar para o PMDB. Parte da imprensa embarcou na ideia, ansiosa por encontrar um “anti-Lula” que não fosse uma aventura suicida, como Jair Bolsonaro, nem um picolé de chuchu insosso, como Alckmin. Capas de revistas semanais já o vendiam como o fato novo de 2018. Só se esqueceram de combinar com os paulistanos, cada vez mais impacientes com a negligência de Doria com seus deveres de gestor municipal, e com o resto do país, que lhe confere modestos 8% de intenções de voto – o mesmo obtido pelo seu mentor Alckmin. Estagnado, Doria vê o DEM agora paquerar Luciano Huck e o PMDB se faz de mudo.

Escorpião no bolso

Para fazer as pazes, Alckmin teria oferecido apoio para que Doria concorresse ao governo de São Paulo, enquanto ele se lançaria ao Planalto. Sondado por representantes de Alckmin, o prefeito sinalizou que não morreu de amores pela ideia, mesmo dizendo, em público, que uma convocação de Alckmin significaria, praticamente, uma palavra de ordem para ele. Nesse caso, o motivo principal é bem prático: dinheiro para financiar a campanha. No ano passado, Doria tirou do próprio bolso R$ 4,4 milhões para custeá-la. O PSDB arcou com apenas R$ 3,6 milhões. Doações completaram os R$ 12,5 milhões que custou sua eleição. Como a corrida para o Palácio dos Bandeirantes é, compreensivelmente, mais cara, Doria, também compreensivelmente, resiste a empenhar seu suado dinheirinho nisso.

Por isso, a Folha de S.Paulo deste sábado (28) afirma que o prefeito está considerando uma outra saída: embarcar na campanha de Alckmin ao Planalto como candidato a vice-presidente. Para Doria, não seria o mundo ideal, mas, ainda assim, seria um passo estratégico para, algum dia, vestir a faixa presidencial. Se Alckmin fizesse um bom governo, Doria poderia alegar que o ajudou e foi naturalmente preparado para sucedê-lo. Se Alckmin fracassasse, poderia se apresentar como alguém capaz de corrigir os erros, sem jogar os méritos fora.

Um ninho de más ideias

O problema disso é um só: dar a vice-presidência da chapa tucana a Doria só é bom para ele próprio. Nem de longe, isso ajudaria o PSDB a se tornar competitivo para 2018. Primeiro, porque até os calangos de Brasília sabem que os tucanos caíram em desgraça com a maioria dos eleitores, após embarcar no governo Temer, recordista de impopularidade, e de Aécio Neves ser apanhado pedindo dinheiro para Joesley Batista, da JBS. Segundo: uma chapa puro-sangue, 100% tucana, reduziria o leque de alianças necessário para ampliar tempo de TV e montar palanques fortes pelo Brasil. Terceiro: isso é ainda mais grave, no caso de uma dobradinha Alckmin-Doria – seriam dois paulistas, e todos sabem que o Nordeste é o Everest a ser escalado no caminho para o Planalto. E, no topo dessa montanha, a bandeira de Lula ainda tremula.

Se insistir na ideia de ser vice de Alckmin, Doria provará que está, apenas, comprometido com seus próprios interesses. A impaciência pelo cerimonioso xadrez político, em que os movimentos são calculados não apenas pela posição das peças, mas também pelo beija-mão de quem as move, apenas demonstra que o lema de Doria é “Acelera, João”. Pouco importa que ele atropele tudo e todos pelo caminho – inclusive boas oportunidades de ficar quieto e fazer aquilo para o qual foi eleito: cuidar de São Paulo.