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É hora de perguntar: Bolsonaro sonha com um autogolpe?

Márcio Juliboni
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Márcio Juliboni

Não dá para confiar nos valores democráticos de quem pede palmas para um general que defende a intervenção militar

É hora de perguntar: Bolsonaro sonha com um autogolpe?

(Foto: Divulgação/Página Oficial de Jair Bolsonaro/Facebook)

Se o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) quer, mesmo, ser levado a sério como candidato à Presidência, precisa responder algumas perguntas cruciais. Uma delas é se, uma vez no Palácio do Planalto, cairá na tentação de promover um autogolpe com o apoio de parte das Forças Armadas, sob o pretexto de purificar a política brasileira de toda a porcalhada descoberta pela Lava Jato. E é preciso que responda a essa questão com toda a clareza. Em tempos normais, seria impensável cogitar que um presidente democraticamente eleito buscasse se autoproclamar ditador, mas o Brasil está longe de viver tempos normais. Primeiro, porque estamos vivendo uma crise política sem precedentes. Segundo, porque Bolsonaro nunca escondeu sua admiração pela ditadura e por seus carrascos.

A mais recente demonstração pública foi dada, por ele, em Belém nesta quinta-feira (6). Ao ser recebido por admiradores no aeroporto local, Bolsonaro discursou sobre um carro de som. Seria uma cena normal de campanha, se não fosse por uma passagem horripilante. Lá pelas tantas, o ex-capitão do Exército pediu uma salva de palmas para o general Antonio Hamilton Mourão, aquele que defendeu, há alguns dias, uma intervenção militar, caso os políticos e a Justiça sejam incapazes de livrar o Brasil da corrupção. Se a declaração de Mourão já pegou mal, imagine o que pensar de um candidato a presidente que o aplaude com entusiasmo?

Por acaso, Bolsonaro se esqueceu de que, se chegar ao Planalto, será graças à democracia, e não apesar dela? Ou será que o pré-candidato apenas a tolera como um modo prático de conquistar o poder? Exagero histérico de um jornalista petralha? Nem de longe: Bolsonaro já elogiou publicamente o coronel Ustra, notório torturador dos anos de chumbo. Já afirmou que o maior erro dos governos militares foi apenas torturar, e não matar, os presos políticos. Defende abertamente o fim do Estatuto do Desarmamento e, por tabela, quer que os brasileiros possam se armar. Convenhamos: Bolsonaro está longe de inspirar democracia.

Com as armas do inimigo

Neste caso, concorrer democraticamente ao Planalto seria apenas um movimento tático (bem ao gosto dos exercícios de guerra), dentro de uma estratégia maior: o de erradicar todos os corruptos, todos profanadores da moral, todos os divergentes. Pela visão autoritária do presidenciável, a crítica e a oposição não passam de ruído. São uma perturbação à marcha do Brasil rumo ao progresso ordeiro. Tal como uma tropa, não há lugar para os fracos, para os que hesitam, para os que param no meio do deslocamento para pensar.

Tal como o militar que é, só há uma saída: gritar com aqueles que bagunçam a marcha. Intimidar quem não bate os pés no mesmo ritmo que os demais. Coibir quem não saúda a autoridade a plenos pulmões. Como lidar com os dissidentes? Nas Forças Armadas, é fácil: basta expulsá-los com requintes de humilhante desonra. Mas, como reproduzir isso na política? Como transformar o Brasil numa caserna ordeira e bovinamente submissa à autoridade? Trocando a faixa presidencial pela farda? Seria derrotar a democracia, utilizando suas próprias armas – os votos dos brasileiros.