ECONOMIA

É melhor deixar a reforma da Previdência para o próximo governo

Márcio Juliboni
Autor
Márcio Juliboni

Temer não tem nem legitimidade das urnas, nem consistência no Congresso, para uma tarefa desse tamanho

É melhor deixar a reforma da Previdência para o próximo governo

Temer: sem moral, nem força para descascar um abacaxi desses (Foto: Marcos Corrêa/PR)

O presidente Michel Temer passou os últimos dias tentando reunir votos para aprovar, na Câmara, a tão discutida, amada e odiada reforma da Previdência. Apenas nesta quarta-feira (22), o peemedebista reuniu-se à tarde com governadores e encerrará o dia num jantar com deputados, em companhia da equipe econômica. Como as mudanças só podem ser feitas por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), é preciso 308 votos, dentre 513 deputados, para aprová-la – e em dois turnos. Mas a maratona não para por aí. A via crucis de Temer ainda passará pelo Senado, que também deve aprovar tudo em dois turnos, com dois terços dos votos. O presidente já admitiu que não será “uma reforma dos sonhos”, dadas as concessões, ingerências e alterações realizadas para aprová-la antes do recesso parlamentar que começa em 23 de dezembro. Diante de tanta trabalheira para um resultado tão pífio, a pergunta é: não é melhor deixar a reforma para o próximo governo?

Sinceramente, adiá-la é a melhor opção. Há alguns motivos para isso. Primeiro: as barganhas e negociatas que Temer e seus comparsas estão fazendo, em troca de votos, são, no mínimo, imorais. A pretexto de aprovar as alterações, a sanha de deputados e senadores fisiológicos cresce a cada dia. Fraco, ostentando a desonra do maior índice de impopularidade desde a redemocratização, Temer não tem outra opção, a não ser ceder tudo e mais um pouco. Cargos, liberação de emendas, ministérios, concessões na aprovação de leis que atendem a lobbies escusos... há um vale-tudo descarado em Brasília.

Segundo: esse vale-tudo é fruto, obviamente, da falta de legitimidade de Temer. É claro que, pela Constituição, o peemedebista é presidente de fato e de direito (embora haja quem denuncie um “golpe parlamentar”). Ele parecia a pessoa certa, na hora exata, para fazer o “serviço sujo” que nenhum político com pretensões de seguir na carreira se dispõe: promover reformas polêmicas, tendo a trabalhista e a previdenciária como destaques. Temer sempre operou nas sombras do poder. Sempre foi um político de bastidores, sem interesse estratégico em disputar cargos majoritários no Executivo. Logo, ele não teria nada a perder promovendo as reformas.

O povo fala

Mas é aí que o mandato popular fala mais alto. Se tivesse sido eleito pelo voto direto, após uma disputa em que defendesse publicamente as reformas, Temer teria força para impor sua agenda ao Congresso sem tantas concessões. Diria que o povo o elegeu para isso, que seus eleitores o apoiam, que é disso que o Brasil precisa, e quem se opusesse estaria, na verdade, contrariando a vontade popular – aquela famosa “voz de Deus”. Mas Temer não tem apoio popular. Ninguém lhe pagaria um cafezinho na padaria, muito menos votaria em alguém que aparecesse num santinho ao seu lado. Logo, o presidente não pode barganhar o apoio das massas em troca de votos em 2018 para seus aliados.

Terceiro: apenas o(a) próximo(a) presidente terá a legitimidade das urnas. Adiar a reforma da Previdência significa colocá-la na pauta da eleição. Os brasileiros terão a oportunidade de discutir qual candidato tem a melhor proposta de reforma. Os presidenciáveis serão obrigados a falar disso, seja porque a imprensa vai pressioná-los a se expor, seja porque o mercado, organizações civis, entidades de classe os cutucarão. Será positivo que se combine, às claras, a agenda dos próximos anos. O eleito terá o apoio popular para implementar o que planeja. O Congresso, sem medo de perder eleição no ano seguinte, poderá discutir com calma. E a reforma com menos negociatas e mais juízo. Algo de que o Brasil precisa muito.