LAVA JATO

Efeito Tiririca: chegamos ao ponto de desistirmos, mesmo, de sermos honestos?

Autor

Como diria o Capitão Nascimento, em Tropa de Elite, é verdade: o sistema é f...; mas a outra opção é desistirmos de um futuro melhor

Efeito Tiririca: chegamos ao ponto de desistirmos, mesmo, de sermos honestos?

Qual é a graça? Tiririca se cansou e jogou a toalha. E você? (Foto: Divulgação/Facebook)

Antes de tudo, é preciso ressaltar que o deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva (PR-SP), ou simplesmente Tiririca, não é um primor de parlamentar. A coluna Radar, da Veja, por exemplo, descobriu que ele utilizou sua verba de gabinete para comprar passagens aéreas para Ipatinga, em Minas Gerais, em agosto. Objetivo? Dar um show na cidade. Seu legado político foi a inclusão de artistas circenses na Lei Rouanet e a assiduidade com que comparecia à Câmara – tornando-se um dos oito deputados menos faltosos. Nesta quarta-feira (6), pela primeira e – diz ele – última vez, Tiririca discursou na tribuna para um plenário vazio. Afirmou estar envergonhado com o que viu em Brasília e disse que abandonará a política. Pode ser apenas jogo de cena para voltar nos braços do povo em 2018, como um Jânio Quadros bem-sucedido. Pode ser sincero. Mas o que esse episódio me fez pensar é: nós, brasileiros, chegamos mesmo ao ponto de desistirmos de sermos honestos?

Para ser mais específico: diante da “mecânica louca” (palavras de Tiririca) que move a política brasileira, tentar resistir e se manter íntegro é dar murro em ponta de faca? Muito já se escreveu sobre o moedor de carne e de reputações que opera nos bastidores do poder. Um amigo meu, por exemplo, tentou ser vereador há muitos anos. Bancou a campanha com recursos próprios e, mesmo sendo um grandessíssimo desconhecido, amealhou pouco mais de 3 mil votos. Não foi eleito, claro, e chegou a cogitar uma nova tentativa, até se convencer de que, para ter chances reais de vitória, precisaria “entrar no jogo” – aceitar pactos com os demônios de sempre. Pulou fora a tempo. Assim como ele, a fama de bordel de beira de estrada da política nacional afugenta muita gente boa que poderia contribuir, positivamente, para tornar o Brasil um país digno.

Mas não é apenas a política que segue uma “mecânica louca”. Olhe para a vida de qualquer pessoa e encontrará uma pressão quase insuportável para burlar as regras, desrespeitar as leis, dar um jeitinho, molhar uma mão aqui, lavar outra ali. Boa parte disso, não me canso de repetir, é cultural: infelizmente, brasileiros são avessos a regras abstratas e só seguem aquelas que “sentem” que são boas. Outra parte, contudo, provém das próprias circunstâncias. É aquilo que os psicólogos comportamentais chamam de poder do ambiente. Toda ação envolve três componentes: indivíduo, circunstância e sistema. Para ser exato, o sistema cria circunstâncias que induzem respostas do indivíduo. Complicado? Nem um pouco.

A vida como ela é

Pense num exemplo bem banal: a famosa caixinha para escapar de uma multa de trânsito. O governo (sistema) cria circunstâncias (um guarda mal selecionado, mal treinado, mal remunerado, com baixa autoestima e que não é adequadamente supervisionado e, portanto, sabe que não será punido) que induzem respostas do indivíduo. Numa abordagem qualquer, você protesta contra a multa. Ele lhe pede dinheiro. Mas por que você aceita suborná-lo? O governo (sistema) cria circunstâncias (uma multa considerada muito cara para um delito considerado muito leve, e que só depende de uma única pessoa – o guarda – para ser registrado) que induzem respostas do indivíduo. Logo, você calcula que: a) a multa é injusta; b) ninguém, além de vocês dois, saberão do ocorrido; c) é mais barato pagar uma propina para o guarda, do que arcar com a multa.

Agora, imagine esse mecanismo operando em nível nacional, onde poder, dinheiro e prestígio são irresistíveis iscas para capturar de sardinhas a tubarões da política. As circunstâncias criadas pelo sistema (impunidade, compadrio, corporativismo, pressão de grupos etc.) são esmagadoras. Poucos (talvez nenhum) conseguem resistir. A sensação de impotência dos que tentam é desesperadora. Mas, se há algo que a psicologia comportamental nos ensina, é de que os heróis são os que resistem. Você também pode ser um. O primeiro passo é dizer “não” ao sistema. Como diria o Capitão Nascimento, em Tropa de Elite, é verdade: o sistema é f...; mas a outra opção é desistirmos da honestidade. E, com ela, de um futuro melhor.